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“Imigrantes sofrem stress adicional” no confinamento
Luxemburgo 9 min. 10.12.2020

“Imigrantes sofrem stress adicional” no confinamento

“Imigrantes sofrem stress adicional” no confinamento

Luxemburgo 9 min. 10.12.2020

“Imigrantes sofrem stress adicional” no confinamento

Madalena QUEIRÓS
Madalena QUEIRÓS
Os imigrantes “começam uma vida do zero” e “têm que adaptar-se a uma cultura diferente” por isso estão a ser mais afetados por esta pressão do confinamento. O alerta é da psicóloga Sandra Rendall que apela a que, caso não consigam lidar com a situação, recorram a ajuda psicológica.

Quais os principais problemas psicológicos provocados pela pandemia e pelo confinamento?

O que tenho observado e o que revelam vários estudos é que houve um aumento das adições. Pelo facto da pessoa esta isolada e ter contacto social reduzido, muitas vezes acaba por arranjar escapes, seja na comida, no consumismo excessivo, seja nas drogas, e essa é uma problemática que é muito preocupante. Outra questão é a violência na intimidade. Habitualmente convivíamos com o nosso conjugue, cerca de duas a três horas por dia. O confinamento fez com que as pessoas tivessem que lidar, mais tempo umas com as outras, numa situação muito stressante, principalmente quando um ou os dois elementos do casal têm precariedade laboral, estão reunidas as condições para que haja um aumento do risco da violência dentro de casa. Esta situação só veio revelar o que já temos dentro de nós. Se já tivermos as competências emocionais trabalhadas vamos conseguir saber gerir. Se não tivermos só há duas hipóteses: ou vamos procurar ajuda psicológica para desenvolver as competências emocionais para conseguir lidar com esta situação. Ou acabamos por recorrer a uma forma mais tóxica, ou mais agressiva de lidar com a situação, porque há muita gente com iliteracia emocional.

As pessoas não têm as competências para lidar com as emoções?

Não sabemos lidar com as emoções, porque também não nos foi ensinado. Na escola aprendemos matemática, português, estudo do meio, mas não aprendemos a lidar com o nosso mundo interno. E agora estamos a ser obrigados, à lei da bala, a encarar-mo-nos o que está a ser muito difícil. Acho que é um embate muito forte. Porque estávamos habituados a ter liberdade total, a viajar sempre que quiséssemos, o mundo era enorme, mas ao mesmo tempo pequenino, tínhamos a a papinha toda feita. Agora vemos a nossa liberdade muito limitada e muitas vezes não sabemos lidar com essa frustração.

Há um estudo da ONU que revela que está a aumentar a violência doméstica nestes tempos de pandemia, uma violência que, segundo alguns estudos é maior na comunidade migrante…

Pelo facto de sermos imigrantes sofremos um stress adicional, por não estarmos no nosso país de origem. Por muito que nos sintamos do Luxemburgo e tenhamos melhores condições que no nosso país de origem, a verdade é que não nos sentimos verdadeiramente em casa. Se no trabalho conseguimos lidar com as coisas de uma forma aparentemente saudável. Trabalhamos muitas vezes com uma máscara. E depois quando chegamos a casa com esse peso todo de um dia de frustrações. Por vezes ouvimos comentários xenófobos, ou sentimos que não somos valorizados no nosso trabalho. Quando chegamos a casa e, muitas vezes, são aqueles que mais amamos que acabam por levar por tabela e aguentar partes de nós que para os outros estão mascaradas e maquilhadas.

Não reagimos no momento em que devíamos reagir…

É a nossa falta de literacia emocional, a nossa falta de contacto com o mundo interior, a nossa competição, porque somos criados para competir. Temos que ter o máximo. Não sentimos que temos o nosso valor adquirido sentimos que temos que estar sempre a competir e a conquistar o nosso valor a cada dia. Esta é a sociedade em que vivemos. Uma realidade que vai escalando. É muito complicado vivermos numa sociedade destas e completamente integrados e viver uma experiência de amor salutar. Estas exigências impedem-nos de viver uma relação salutar. Mesmo enquanto casal temos que estar sempre a mostrar e a competir e a fazer parecer, através de fotos que publicamos no Instagram. E quando a câmara desliga não está ali nada. As relações são muito de aparência.

Quais são as principais causas e sintomas desse stress adicional vivido pelos imigrantes?

A principal causa do stress emocional é o termos que nos adaptar, porque isso é nos pedido. Porque estamos aqui e estamos a viver uma vida nova. É começar uma vida do zero e ter que aprender, mais uma, duas ou três línguas. Lidar com uma cultura diferente que, de alguma forma é um pouco mais reservada, enquanto nós somos mais expansivos. O corte que fazemos com os nossos laços sociais e afetivos, os que tínhamos em Portugal, a rede social que se encurta. Por muito que tenhamos aqui amigos, o nosso contacto social acaba por ser mais reduzido porque acabamos nos integrar e fazer como os outros. E depois de um dia de dez horas de trabalho, chega ao fim de semana e só queremos descansar e estar em casa. Esse enfraquecimento também dos laços afetivos, isso também causa stress adicional. Por exemplo há pessoas, posso até falar no meu caso pessoal, nos primeiros dois ou três anos que estive aqui, estava aqui, mas o meu coração estava em Portugal. Há muitas pessoas assim que vivem aqui, no Luxemburgo, mas o coração e a alma não estão aqui. Isso é um sofrimento que levamos para casa . A partir desses três anos disse a mim própria: “Minha amiga, se estás aqui, crias laços, crias um trabalho que amas aqui e quando vais de férias a Portugal estás em Portugal!”.

Mas muitas vezes não sabemos como gerir essas frustração, nem temos a consciência que não merecemos um vida assim. Merecemos ser felizes! Estar aqui e ser feliz aqui. Estar em Lisboa e ser feliz. Ser feliz onde quer que se esteja!

Esse stress adicional aumentou muito com o confinamento?

Sim. Pela precariedade laboral e por termos os nossos filhos a estudar em casa, sendo que há muitos imigrantes que não dominam a língua alemã e sentem-se muitas vezes impotentes para prestar o apoio devido às crianças. Ainda que o Estado tenha sido inexcedível. Também os professores foram incansáveis e inexcedíveis. Mas mesmo assim há aquela pressão adicional de ter, uma, duas ou três crianças a estudar em casa, todos os dias e nós a prestar apoio. Muitas vezes estando também os pais em teletrabalho. Para além da situação de um medo de um vírus que não conhecemos, que está no ar. O que nos tira totalmente da nossa zona de conforto. o facto de não sabermos se será possível ir a Portugal, passar o Natal com os familiares. Os nosso rituais. Toda esta situação é como se nos tivessem tirado o tapete.

E não há um fim à vista para toda esta situação…

Cria um stress adicional. Temos que aprender a viver com isto. Por isso é que na minha página de Facebook vou criar um workshop para ajudar as pessoas a viver na incerteza. Temos que aprender a viver na incerteza.

Como é que se aprende a viver na incerteza?

É uma arte. Não é fácil, mas podemos sempre valorizar muito mais o país onde estamos. Vermos o que há aqui para descobrirmos, para explorar, há bons jardins, há florestas, há museus. Vamos descobrir todos os cantinhos que há aqui. Valorizar tudo aquilo que já tenho, a gratidão, a saúde, os meus filhos estarem bem, eu ter um teto em cima da minha cabeça, o facto de ter todo o conforto, porque somos muito mimados. E se formos ver as condições, noutro continente africano ou asiático… Não tem nada que ver. Temos que ver as coisas em perspetiva. Aquelas pessoas não têm água. É preciso colocar tudo em perspetiva.Não está tudo bem, não podemos ignorar. Mas há pessoas que vivem em condições muito piores. E não têm nenhuma perspetiva que as coisas melhorem.

Temos que encontrar dentro de nós as ferramentas para o fazer...

Exatamente. Temos que as encontrar dentro de nós e decidir, porque às vezes é mais confortável não enfrentar a situação. É muito mais adulto dizer: “Como é que eu quero estar perante esta situação?” Mas se somos emocionalmente imaturos como uma criança então têm que procurar ajuda psicológica. Vão procura apoio, porque os profissionais, os psicólogos estamos disponíveis para isso. A psicologia é sempre o parente pobre da saúde, mas acho que se queremos evoluir e estar preparados. Hoje é a covid, amanhã pode ser outra pandemia qualquer. Acho que daqui para a frente temos que mudar o paradigma e equilibrar mais o ter e o ser, porque só sendo uma pessoas resiliente e corajosa é que consigo andar para a frente, independentemente do que seja. Temos que fazer essa grande mudança. Tenho que encontrar os meus recursos internos, às vezes com ajuda de alguém, para perceber até as nossas qualidades. O aspeto positivo do confinamento é permitir olhar para nós, ver-nos ao espelho e apaixonar–mo- nos por si próprio. E reconstruir-se e adaptar-se. Temos que encontrar dentro de nós essa força e coragem e seguir em frente.

Há um estudo internacional revela que o stress e os problemas surgem principalmente em pessoas sozinhas, mulheres, com trabalho precário. E França e o Luxemburgo são os países em que as pessoas se sentem mais sozinhas…

O clima é um fator importante. Porque em Portugal vemos as pessoas depois do jantar a sair. Aqui estamos muito mais reguardados e fechados em casa e acabamos por não partilhar tanto, nem a partilha das questões que nos estão a preocupar. Quando se pergunta: “Estás bem?” As pessoas respondem: “Vai-se andando”. E vamos passando assim e é claro que nos casos de mães solteiras, com filhos e trabalhos precários. Quando não temos a segurança financeira, esse é um fator de stress e de risco para a saúde mental das mulheres. Porque estão muitas vezes reféns de um sistema que não as protege. A polícia intervêm em caso de violência doméstica. O cidadão é retirado de casa, no caso de ser agressor. E depois se essa pessoa ainda vier com mais raiva. O que faz algumas mulheres pensar: “Não vou dizer nada , senão ele ainda vai vir com mais raiva.”

Esse é um mecanismo contra o qual se tem que se lutar. Deve-se denunciar sempre que há casos de violência…

Sempre. Já vi situações de violência na rua em que me meti e denunciei. O que digo às pessoas que são vítimas de violência doméstica e psicológica, é que muitas vezes no início do relacionamento não estamos atentos a sinais. Porque estas pessoas agressivas já dão sinais. E muitas vezes com a paixão ignoramos sinais tão fortes

Tudo passa pelo empoderamento. Temos que nos empoderar e criar, deste tenra idade, consciência corporal e uma auto-estima que nos permita estar com alguém e impor os limites devidos. O que não fazemos e muitas vezes aceitamos e toleramos este comportamento de violência

O que acaba por ser muito prejudicial para os filhos?

Porque eles sofrem muito mais a ver os pais infelizes. Muitas vezes falamos de herança material, património que queremos deixar para os nossos filhos. E a herança emocional? A herança emocional do filho se lembrar que a mãe era maltratada? Temos que pensar nessa herança que é crescer com os pais felizes. Pais alegres e que não estão sempre aos gritos. Se calhar devemos pensar muito mais nesta herança emocional. 

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