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Imigrantes no Luxemburgo com o dobro da probabilidade de ter insucesso escolar
Luxemburgo 8 min. 21.03.2018

Imigrantes no Luxemburgo com o dobro da probabilidade de ter insucesso escolar

Imigrantes no Luxemburgo com o dobro da probabilidade de ter insucesso escolar

Foto: Pierre Matgé
Luxemburgo 8 min. 21.03.2018

Imigrantes no Luxemburgo com o dobro da probabilidade de ter insucesso escolar

Paula CRAVINA DE SOUSA
Paula CRAVINA DE SOUSA
A OCDE publicou um estudo PISA, dedicado à resiliência dos alunos imigrantes, no qual se conclui que o risco de insucesso escolar é, em geral, mais elevado nos alunos imigrantes. O país de origem e de acolhimento são determinantes para a integração. No Grão-Ducado, os alunos cabo-verdianos e portugueses são dos que enfrentam maiores dificuldades.

Os estudantes imigrantes no Luxemburgo têm o dobro da probabilidade de registar insucesso escolar e de não conseguirem ter as competências académicas básicas, nas áreas de compreensão escrita, matemática e ciências. O problema não é apenas do Grão-Ducado: o fraco desempenho dos alunos com um ’background’ imigrante é também uma realidade na Alemanha, Áustria, Bélgica, Dinamarca, Eslovénia, Finlândia, Islândia, Japão, Suécia e Suíça. Além disso, no Luxemburgo aqueles alunos têm maior probabilidade de reportar elevados níveis de ansiedade por comparação com os estudantes sem um ’background’ imigrante.

O cenário é mais grave no Luxemburgo e na Suíça, já que mais de um em cada dois estudantes de 15 anos nasceram no estrangeiro ou têm, pelo menos, um dos pais que nasceu fora do país de acolhimento. No total, 69,86% dos estudantes no Luxemburgo têm um ’background’ imigrante.

As conclusões são do estudo da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Económico (OCDE) que publicou o estudo PISA (estudo para a área da educação). No documento, o organismo liderado por Angel Gurría analisa a capacidade dos alunos com um ’background’ imigrante ultrapassarem as dificuldades inerentes a essa condição – tendo em conta que têm de lidar com dificuldades com as barreiras linguísticas, a formação de uma nova identidade, a desvantagem socioeconómica, entre outras. Ora esta capacidade deve ser avaliada, não só através do sucesso escolar, mas também à luz de outros fatores como o sentimento de pertença à escola, o seu grau de satisfação para com a vida, o nível de ansiedade relativamente ao trabalho relacionado com a escola e o seu grau de motivação.

O estudo conclui que o sucesso depende não só do país de origem, mas também do país de acolhimento. Assim, os sistemas educacionais, escolas e professores podem desempenhar um papel importante na integração dos alunos com ’background’ imigrante nas suas comunidades, na ultrapassagem da adversidade e na construção da sua resiliência académica, social e emocional.

A questão ganha ainda mais relevância, na medida em que os fluxos migratórios têm aumentado, fruto da crise económica e financeira e das guerras dos últimos anos. Entre 2003 e 2015, a população estudantil sem uma experiência de migração recente na família diminuiu consideravelmente. A percentagem de crianças nascidas no próprio país, filhos de pais nascidos também no próprio país, desceu 15 pontos percentuais (p.p.) no Luxemburgo.

O estudo analisa ainda os estudantes imigrantes de primeira geração, de segunda geração, filhos que nasceram no estrangeiro, mas cujos pais (ou pelo menos um deles) são nativos, e filhos nativos que têm um pai nativo e outro estrangeiro. Na maioria dos países, os estudantes que nasceram no país onde fizeram o teste PISA e os que têm um pai nativo e outro estrangeiro ficam com uma probabilidade semelhante de conseguir as mesmas competências académicas base que os estudantes nativos, filhos de pais nativos. No entanto, esta conclusão não é válida para países como Luxemburgo, Suíça, Estónia e outros, em que a diferença é razoável.

Da mesma forma, em termos gerais, os estudantes que chegaram ao país onde fizeram o teste PISA com 12 ou mais anos mostraram menores níveis de adaptação académica do que os que chegaram antes dos 12 anos. As diferenças podem chegar aos 20 p.p., mas no Luxemburgo e na Suíça todos os estudantes nascidos no estrangeiro – independentemente da sua idade à chegada ao país – têm a mesma probabilidade de conseguir competências académicas básicas e têm uma desvantagem semelhante quando comparados com estudantes nativos.

A importância do país de origem e do país de acolhimento

A OCDE conclui também que a performance académica dos estudantes com ’background’ imigrante, num determinado país de acolhimento, depende em larga medida do país de origem. As diferenças socioeconómicas e linguísticas entre países explicam esta relação, mas há outros fatores como as semelhanças culturais e a qualidade dos sistemas educacionais do país de acolhimento. A OCDE analisou então a forma como o desempenho de estudantes imigrantes num mesmo país de acolhimento e com uma situação socioeconómica semelhante difere consoante o país de origem. Um dos casos estudados foi precisamente o Luxemburgo e a situação das crianças portuguesas, cabo-verdianas, italianas, entre outras.

Assim, conclui-se que os estudantes imigrantes de primeira geração que vêm de Cabo Verde têm 29 p.p. menos de probabilidade de conseguir um desempenho académico básico do que os estudantes nativos. Os que vêm de Portugal também estão em desvantagem, mas esta é menor do que a encontrada para os estudantes de Cabo Verde: têm menos 16 p.p. de probabilidade. Pelo contrário, os estudantes imigrantes de primeira geração franceses saem-se melhor do que os próprios luxemburgueses, tendo cinco p.p. mais de probabilidade de conseguir um desempenho educacional básico para as áreas de compreensão escrita, matemática e ciências.

No entanto, não é só o país de origem que influencia o desempenho escolar. São também a educação e cultura adquiridas antes de a família emigrar. No Luxemburgo, os estudantes imigrantes de primeira geração que venham de Portugal e Itália têm a mesma probabilidade de sentir dificuldades socioeconómicas e linguísticas semelhantes, mas os portugueses têm ainda assim maior desvantagem do que os italianos em conseguir um desempenho académico básico, face aos nativos. No que diz respeito ao bem-estar dos estudantes imigrantes, este varia com o país de origem, mas também com os laços entre os dois países. Os fluxos migratórios passados refletem-se na dimensão da comunidade e na facilidade com que os estudantes imigrantes se integram e se tornam socialmente resilientes. É o caso dos portugueses e italianos – cujas comunidades são das maiores no Grão-Ducado – que apresentam uma probabilidade maior de ter um sentimento positivo de pertença à escola do que os franceses, por exemplo.

No entanto, o sistema educacional do país de acolhimento é também importante. Por exemplo, os alunos imigrantes portugueses têm os resultados mais fracos precisamente no Luxemburgo, comparando por exemplo com Macau ou Suíça. Da mesma forma, é o país onde têm um sentimento de pertença menor. Por isso, a OCDE sugere que os países de acolhimento devem implementar políticas educativas e sociais mais eficazes para ajudar os alunos imigrantes a integrarem-se melhor no seu país de acolhimento e a utilizar e atingir o seu potencial.

Claude Meisch.
Claude Meisch.
Foto: LW

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