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Imigrantes contra a imigração ou como melhorar a qualidade do ar no Luxemburgo
Opinião Luxemburgo 3 min. 26.01.2021

Imigrantes contra a imigração ou como melhorar a qualidade do ar no Luxemburgo

Imigrantes contra a imigração ou como melhorar a qualidade do ar no Luxemburgo

Foto: AFP
Opinião Luxemburgo 3 min. 26.01.2021

Imigrantes contra a imigração ou como melhorar a qualidade do ar no Luxemburgo

Sérgio FERREIRA
Sérgio FERREIRA
Duzentos e cinquenta e um em 1.646. 15,43% dos portugueses que votaram no Luxemburgo para as eleições presidenciais fizeram-no no candidato André Ventura. O que será que lhes terá passado pela cabeça?

É verdade que 251 entre os cerca de 100.000 portugueses que por aqui vivem pode parecer pouco, mas, pelo menos para mim, já são 251 a mais. Pela forma como fui educado, pelos valores que me foram incutidos e que (alguns) adotei, mas sobretudo pela convicção profunda de que o ser humano só pode viver e prosperar em sociedade se o respeito pelo outro, pela sua diferença e a sua identidade estiverem no centro da ação política, jamais seria capaz de votar num candidato com as caraterísticas de André Ventura. O que não me impede de tentar perceber o que leva alguém a fazê-lo.

Analistas e estudiosos bem mais habilitados do que eu estão fartos de explicar o fenómeno do crescimento dos movimentos de extrema-direita declaradamente xenófobos. Por entre razões económicas, sociais, ideológicas e outras mais, a primeira conclusão é consensual: os eleitores afastam-se dos partidos do sistema porque estes não souberam dar resposta aos seus anseios. Certamente que este será o caso de alguns desses eleitores, muito embora tenha alguma dificuldade em perceber que a injustiça social possa ser combatida com injustiça acrescida. Uma das minhas teorias para explicar o sucesso específico do Chega e do seu presidente em Portugal vai mais longe, mesmo se também se baseia nos anseios desses eleitores.


Luxemburgo. Marcelo reeleito, Ventura a 51 votos de Ana Gomes
Abstenção foi de 96,28%.

Portugal tem uma relação muito próxima com a sua história, alimentando-se dos "gloriosos" momentos passados para dourar o presente e afirmar que o futuro é possível. Só que essa proximidade turva-nos o olhar e deturpa-nos a análise. A ditadura do Estado Novo caiu num golpe militar que mais não fez do que antecipar a lenta agonia de um regime fascista, colonialista e isolacionista. 

Mas a herança do Estado Novo ficou, e continuou a marcar profundamente a sociedade portuguesa. De tal forma que existe uma convicção generalizada em como o "nosso" fascista era menos mauzinho que o Hitler ou que o Mussolini, como se os ditadores se medissem aos palmos. Recorde-se que em 2007 Salazar foi considerado o "maior português sempre" num concurso televisivo da RTP. Descontando a imbecilidade intrínseca a este tipo de classificações e concursos, o resultado diz muito sobre a memória coletiva da ditadura.

Com a imagem do Estado Novo lavada e o seu expoente máximo elevado a "maior português de sempre", o caminho estava aberto para aqueles que antes timidamente diziam que "no tempo da outra senhora" até nem era assim tão mau e que hoje defendem abertamente o regresso a uma ditadura. Boa parte dos eleitores do Chega são fascistas do tempo da outra senhora e os mais novos em idade são filhos desse caldo de branqueamento da "nossa" ditadura e (não de somenos importância) da "nossa" guerra colonial.

Se posso eventualmente compreender que existam muitos fascistas convictos em Portugal, esta explicação não me serve para os 251 votos fascistas no Luxemburgo e os 3.491 no total dos círculos da emigração. Não que um emigrante não possa ser fascista à luz da defesa da sua "pátria querida". Viver fora de Portugal não transforma um português automaticamente num democrata. Há, num entanto, uma contradição absoluta nisto: Um emigrante não é também um imigrante, na perspetiva do país de acolhimento? O fascismo não é conceptualmente xenófobo e anti-imigração?

Das duas uma: ou os 251 votaram sem perceber muito bem ao que iam – hipótese que rejeito, sob pena de ter de os considerar mentecaptos e já não haver esperança– ou estão em negação da realidade e, se calhar a psiquiatria é capaz de tratar disso.

Em qualquer dos casos, como "portugueses de bem" que são, fariam melhor em ser consequentes e coerentes e regressar ao "glorioso torrão pátrio". Pelo menos, por aqui, era capaz de se respirar um bocadinho melhor!

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