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Imigrante portuguesa: “Fui picada na primeira vez que me convidaram a passear”
Ana Paula Dourado foi picada pela carraça durante um passeio na floresta. Sem resposta no Luxemburgo e em Portugal, só descobriu que tinha a doença de Lyme depois de análises feitas na Alemanha

Imigrante portuguesa: “Fui picada na primeira vez que me convidaram a passear”

Foto: Shutterstock
Ana Paula Dourado foi picada pela carraça durante um passeio na floresta. Sem resposta no Luxemburgo e em Portugal, só descobriu que tinha a doença de Lyme depois de análises feitas na Alemanha
Luxemburgo 3 min. 10.02.2016

Imigrante portuguesa: “Fui picada na primeira vez que me convidaram a passear”

Ana Paula Dourado tirou o dia na passada quarta-feira para estar presente no debate público no Parlamento. Era uma das cerca de 15 pessoas que estavam na galeria para apoiar Tânia Silva.

Ana Paula Dourado tirou o dia na passada quarta-feira para estar presente no debate público no Parlamento. Era uma das cerca de 15 pessoas que estavam na galeria para apoiar Tânia Silva.

Diagnosticada há dois anos com a doença de Lyme, a imigrante portuguesa não quis perder o debate ao vivo entre os peticionários e os deputados. “Assim que soube que iria haver uma petição, achei que qualquer coisa poderá avançar. Vamos ganhar. Há muita gente a passar mal com esta doença”, disse Ana Paula Dourado ao CONTACTO, no final do debate.

A imigrante portuguesa descobriu que tinha a doença de Lyme há dois anos, meses depois do primeiro passeio com os colegas pela floresta.

“Fui convidada por colegas para um passeio e fui picada nessa única vez que fui passear. Fiquei com muita febre e com a tal mancha de que tanto se fala. No dia seguinte à picada, vi a carraça na dobra da perna e tirei-a com uma pinça. Não suspeitei de nada, porque na altura desconhecia a doença de Lyme e pensei que era a febre da carraça, de que já tinha ouvido falar em Portugal”, conta a imigrante, residente há 15 anos no Luxemburgo.

A febre passou e Ana Paula pensou que estava bem. Mais tarde, contou o episódio a um casal de amigos enfermeiros. “Aí, disseram-me para ir ao médico, porque já viram casos muito complicados”. Mas Ana Paula não foi logo ao médico, porque, para ela, “estava tudo bem”.

“Se eu tivesse conhecimento dos sintomas preocupantes, tinha ido imediatamente ao Serviço Nacional de Doenças Infecto-contagiosas ou tinha exigido imediatamente um antibiótico, porque na altura as bactérias estavam lactentes e facilmente podiam ser neutralizadas. Mas tanto tempo depois já é difícil”, lamenta a imigrante portuguesa.

Dias mais tarde, quando começou a sentir um dos sintomas mais típicos da doença de Lyme, o cansaço, os amigos insistiram com Ana Paula para ir ao médico. Teve duas consultas no Luxemburgo, mas os “médicos não sabiam o que era”. As manchas e a fadiga estavam a aumentar e Ana Paula decide ir a Portugal, para mais duas consultas. “Isto não tem nada a ver com a carraça”, disseram-lhe os médicos em Portugal.

Dois meses depois da picada da carraça, e de volta ao Grão-Ducado, foi reencaminhada para o Serviço Nacional de Doenças Infecto-contagiosas do Centro Hospitalar do Luxemburgo. “Aí disseram-me que estava infectada. Deram-me uma caixa de antibióticos e disseram-me que podia continuar a trabalhar”.

Ana Paula pediu para ficar no hospital. Tinha dores corporais e sentia-se muito cansada. Mas a resposta foi negativa. “Não pode ficar aqui. Faça uma vida normal, trabalhe e vá tomando os antibióticos. Vai ficar bem”, disseram-lhe no hospital.

Poucos meses depois, Ana Paula teve uma gripe que a atirou para a cama durante cinco meses, sem se poder levantar. “Não tinha energia para me levantar. Tinha também tonturas, os braços caíam-me e não conseguia comer bem”, recorda.

Foto: Arquivo LW

“Por milagre”, há dois anos descobriu um médico luxemburguês especialista na doença, que a ajudou a voltar ao trabalho. “Mandou uma amostra do meu sangue para um laboratório na Alemanha e com o resultado positivo começou a tratar-me. Foi assim que voltei a trabalhar, mas não as oito horas por dia”.

Ana Paula aprendeu a conviver com a doença, mas não se resignou. “Eu sou uma pessoa positiva e espero que as coisas mudem. Entretanto, desde que soube que tinha a doença de Lyme, tenho vindo a informar as pessoas no meu trabalho e os amigos sobre esta doença”.

No trabalho, quando o corpo vai abaixo, Ana Paula conta com a solidariedade do patrão e dos colegas. O médico do trabalho dá-lhe um mês a tempo parcial para se poder recompor. E a vida continua.

Henrique de Burgo


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