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Há um Luxemburgo desconhecido debaixo dos nossos pés

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Há um Luxemburgo desconhecido debaixo dos nossos pés

Há um Luxemburgo desconhecido debaixo dos nossos pés
Reportagem

Há um Luxemburgo desconhecido debaixo dos nossos pés


por Ricardo J. RODRIGUES/ 15.10.2022

As Casemates Berlaimont estão fechadas ao púbico mas são pátria de segredos.Foto: Gerry Huberty

Vista do subsolo, a capital do Grão-Ducado parece um queijo suíço. Há quilómetros de corredores militares, milhares de metros de canalizações, bunkers da Guerra Fria, grutas que o povo proclamou residência de gnomos. Descida aos subterrâneos do Luxemburgo para perceber a outra cidade que cresce invisível aos nossos olhos.

Um reservatório subterrâneo de água debaixo de Bonnevoie.
Um reservatório subterrâneo de água debaixo de Bonnevoie.
Foto: Alain Piron

Quando se entra na rua do Dernier Sol, mesmo em fente ao restaurante Lisboa II, há um edifício redondo e metálico instalado no pequeno jardim do meio do largo. A maioria dos habitantes de Bonnevoie não sabe, mas aquela é uma porta de entrada para um outro Luxemburgo. Esta estrutura providencia acesso a um dos 22 reservatórios de retenção de água que existem nos subterrâneos da capital.

O homem que coordena estas infraestruturas chama-se Tony Alves, é um filho de algarvios nascido no Grão-Ducado que se formou em engenharia mecânica e coordena uma equipa de quatro homens – os únicos a terem acesso ao sistema de canalizações do município. “A maioria dos habitantes da capital não faz ideia que, debaixo dos seus pés, correm 660 quilómetros de canais de água”, diz ele. “Os subterrâneos do Luxemburgo são enormes. É um mundo invisível onde acontece muita coisa.”

Estes reservatórios são estrutras impressionantes, grutas modernas que chegam a medir uma vintena de metros de altura – e acolher 3 mil metros cúbicos de água. Se o assunto é o subsolo, estas são obras humanas impressionantes, mas também são as mais recentes. Uma boa parte dos reservatórios de retenção foram instalados já este século. A sua arquitetura é tão industrial quanto moderna. Mas há séculos e séculos da história da Cidade do Luxemburgo que só conseguem entender quando mergulhamos nos seus subterrâneos.

O historiador Robert Philippart.
O historiador Robert Philippart.
Foto: António Pires

A cidade, bem vistas as coisas, cresceu sobre a rocha. Edificou-se em cima de pedra grés, se quisermos ser exatos. Não há melhores condições geológicas para abrir túneis e galerias, construir abrigos e esconderijos, inventar planos de ataque e defesa e fuga do que este. Durante séculos, os luxemburgueses escavaram, e escavaram, e escavaram um mundo debaixo dos nossos pés. E é dele que vos damos agora conta.

Poucas pessoas conhecem a capital como o historiador Robert Philippart – aquela que todos vemos e a outra que ninguém conhece. É ele aliás o responsável pela preservação cultural da zona classificada pela UNESCO como património da Humanidade, que incluiu uma boa parte de estruturas subterrâneas da antiga fortaleza: as Casemates. Mas a cidade está repleta de outras cavernas, algumas bem mais antigas. “No submundo”, diz ele, “percebe-se toda a relação ancestral dos homens com a terra.”

Philippart dá o exemplo das criptas e dos monumentos funerários. “Até à industrialização do século XIX, vigorava a ideia religiosa de que é da terra que vimos e à terra voltamos”, explica. “As pessoas eram enterradas debaixo do chão, perpetuando essa ideia do eterno retorno.” O advento de uma nova revolução civilizacional trouxe a vida e a morte para a superfície. Em vez das campas apareceram os jazigos elevados do chão, onde se depositavam as ossadas e cinzas de famílias inteiras. É um sinal da invisibilidade a que foi sendo votado o mundo que acontecia por debaixo do mundo, explica.

“Filosoficamente, os subterrâneos providenciam essa ideia de retorno”, diz o historiador. “Mas não é apenas isso. É também um ícone do sentido de proteção, onde nos podemos sentir seguros. Por outro lado, é também um lugar discreto, onde podemos passar de um lugar a outro sem ser vistos, livrarmo-nos de um corpo ou dos indícios de um crime, esconder os mais valiosos dos tesouros.” Escave-se então o Luxemburgo, para perceber a vida e o passado nos traços que ficaram na poeira.

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'Upside down'
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Jean-André Stammet no aquatunnel que percorre o centro da cidade, mas a 65 metros de profundidade.
Jean-André Stammet no aquatunnel que percorre o centro da cidade, mas a 65 metros de profundidade.
Foto: Chris Karaba

O pressuposto de "Stranger Things", uma das mais aclamadas séries da Netflix, é de que existe uma realidade alternativa e sobrenatural por debaixo da pequena cidade imaginária de Hawkins. A ação acontece durante os anos oitenta e os atores, quase todos adolescentes, encontram a explicação para uma série de mistérios e desaparecimentos escavando o submundo. Descobrem que, paralela à Hawkins visível existe uma outra cidade igualzinha, mas plena de figuras demoníacas. É o ‘Upside down’, ou, se quisermos, o mundo invertido.

Entre o bairro de Pfaffenthal e o vale da Pétrusse, a Cidade do Luxemburgo também construiu o seu universo paralelo. No final do mês passado, o Oekozenter Pafendhal organizou uma festa onde propunha, entre outras ativida- des, uma visita noturna ao Aquatunnel. O guia era um historia- dor chamado Jean-André Stammet, que tem trabalhado durante décadas na preservação memória da cidade velha. Foi ele que encaminhou um grupo de meia centena de curiosos por um segredo bem guardado.

O portão para o túnel está fechado a sete chaves. O corredor percorre uma distância de 960 metros, num tubo de quatro metros de altura por outros tantos de largo. Logo à entrada, tem uma inscrição escrita na parede: ‘de gëllene mëttelwee’, uma expressão luxemburguesa que significa ‘o caminho do meio’. Seria provavelmente mais justo chamar-lhe o caminho por baixo, porque aquela estrutura percorre os caminhos da Ville Haute, mas a 65 metros de profundidade. Áo longo do percurso há placas com os nomes das ruas que circulam acima: Côte d’Eich, Rue Beaumont, Rue des Bains, Boulevard Royal, a Grand-Rue, a Place d’Armes. O centro do centro, portanto, mas em versão ‘upside down’.

A passagem subterrânea pela Boulevard Royal
A passagem subterrânea pela Boulevard Royal
Foto: Chris Karaba

A obra foi aberta entre 1961 e 1963. “É um canal de água para evacuar os esgotos da cidade”, explica Stammet. Para construí-la, tiveram de ser removidos 50 mil toneladas de entulho. E isso aconteceu porque o corredor de água não era apenas um corredor de água.

“Quando o túnel de água foi construído, decidiu fazer-se por cima este para circulação de pessoas. Estávamos afinal no auge da Guerra Fria e a ideia era ser utilizado como bunker em caso de ataque dos inimigos”, conta Stammet. “Mas felizmente nunca foi usado para isso.” Hoje, é aberto ao público uma ou duas vezes por ano. Também fez parte do percurso da Maratona ING, a corrida noturna que marca a chegada dos dias quentes ao Grão-Ducado.

Mesmo ao lado do Aquatunnel corre um outro túnel paralelo a esse, hoje fechado ao público por estar carregado de estalactites e estalagmites. Foi construído em 1870, mas este tinha uma outra utilidade – levar água pura das nascentes do Theiwesbuer para o centro da cidade. “A cidade alta não tinha água e, até esse ano, eram aguadeiros do Pfaffenthal e do Grund que passavam os dias a subir e descer a colina para vender. Tinham um varão de madeira onde pendiam dois baldes e vendiam cada um deles a dois centavos”, conta o historiador.

O Pfaffenthal está repleto de registos subterrâneos, e isso explica-se pela presença de água. “Havia então um túnel para levar a água colina acima, depois foi construído outro para levar os esgotos para Beggen. Ao longo das margens do Alzette, sobravam os moleiros e os correeiros. E também foram nascendo várias destilarias de produção de cerveja, sobretudo em Clausen e aqui”, conta Stammet.

Até aos anos cinquenta, não havia frigoríficos nem congeladores, por isso o gelo tinha de ser conservado debaixo do solo. “Quando o rio congelava, serravam-se grandes blocos de gelo e eram trazidos para caves escavadas no chão e viradas a norte”, diz o historiador. “Claro que iam derretendo com o tempo, mas aguentavam-se ainda para os meses de verão”, diz.

Entrada para a cave de gelo da antiga destilaria Junck.Nouveau, no Pfaffenthal.
Entrada para a cave de gelo da antiga destilaria Junck.Nouveau, no Pfaffenthal.
Foto: Chris Karaba

Agora Jean-André Stammet arrepia caminho pelo meio dos arbustos no Pfaffenthal. É preciso passar todo um corredor de silvas, e depois entrar um buraco íngreme terra adentro. “Aqui eram as grutas refrigeradoras da Brasserie Funck-Nouveau”, anuncia ele no meio das galerias húmidas e escuras que só se conseguem vislumbrar a luz de lanterna. “É na verdade uma destilaria que se acreditava estar amaldiçoada.”

Ele mesmo investigou a história para o Syndicat d’Intérets Locaux Pfaffenthal-Schiechenhof. A destilaria, há muito desaparecida, era dirigida por Michel Funck e a sua mulher Barbe Nouveau desde 1865. Depois da sua morte, em 1884, a viúva assume as rédeas, mas uma série de acidentes assombram o negócio. Em 1888 há relatos de um trabalhador perder um braço numa máquina. Dois anos depois, um incêndio destruiu parte dos edifícios. Houve outro homem perdeu a mão em 1894, ainda outro que partiu a perna em 1913. Entre 1919 e 1923, a casa fechou definitivamente portas e as suas ruínas desapareceram do bairro. Sobram as caves do gelo, invisíveis para quem caminha à superfície.

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Poços para bruxas e gnomos
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Guy Melinger mostra os poços do Rachpëtzer, que a população acreditava ser albergue de bruxas e gnomos.
Guy Melinger mostra os poços do Rachpëtzer, que a população acreditava ser albergue de bruxas e gnomos.
Foto: Guy Jallay

Em 1986, um grupo de espeleólogos luxemburgueses desceu um enorme buraco que existia no bosque de Walferdange. Havia vários deles no meio da floresta, largos e profundos, e a sua origem era mistério que encheu o imaginário popular durante séculos. “Temos relatos que, na Idade Média, as pessoas diziam que estas eram as casas das bruxas”, diz Guy Medinger, um dos diretores da Associação de Iniciativa e Turismo de Walferdage (SITwalfer). “Também há muito folclore em relação aos ‘Wichtel chen’ de Beggen, os gnomos desta região. E as pessoas acreditavam que eles moravam aqui.”

Que covas fundas eram aquelas, afinal? “Em 1914 um grupo de apaixonados da região começou a tentar investigar que estruturas eram aquelas. Desceram dois poços, um até aos sete metros e outro até aos dez, mas depois não conseguiram ir mais”, conta Medinger. Nos anos sessenta realizaram-se algumas escavações, também elas inconclusivas. Até que, a 3 de outubro de 1986, os homens que fundaram o SIT juntaram-se a um grupo de espeleógos e atingiram a base do poço número cinco.

E aquilo que encontraram não era nada menos que extraordinário.

Há muito folclore em relação aos ‘Wichtel chen’ de Beggen, os gnomos da região. As pessoas acreditavam que eles moravam aqui.
Há muito folclore em relação aos ‘Wichtel chen’ de Beggen, os gnomos da região. As pessoas acreditavam que eles moravam aqui.
Foto: Guy Jallay

Quando chegaram aos 17 metros de profundidade, perceberam que existia um enorme canal que avançava montanha adentro e por onde corria a água fresca e limpa que as pedras-grés tinham filtrado. “Trouxemos um grupo de arqueólogos e, num dos poços, acabámos por encontrar uma pá de madeira, que conseguimos datar do ano 130DC”, conta o diretor do SITwalf. Estava resolvido o mistério. Debaixo da montanha estava um canal de irrigação construído durante a ocupação romana – e de que ninguém fazia a mínima ideia.

“Chamamos-lhe Raschpëtzer e é na verdade o maior qanat do mundo que se mantém em funcionamento”, diz Medinger. Os qanats são canais de sistemas de canais de irrigação subterrâneos que aproveitam as rochas para conduzir água de um lugar a outro. Foram desenvolvidos há três mil anos pelos persas e aproveitados pelo Império Romano em várias localizações. E o subsolo daquela floresta parecia perfeito para a construção: “Na base da pedra-grés, que é permeável, há rocha que não deixa a água passar e por isso a água pode ser conduzida pelo subsolo de um lugar para outro. Desconfiamos que este qanat tenha sido aberto para abastecer uma enorme vila romana que existe do outro lado do monte”, diz o homem do SITwalf.

A técnica de contrução do canal explica os enormes buracos. “Escavavam-se poços até se chegar ao fim da pedra-grés e, chegando à base, abriam-se os túneis entre uns poços e outros à picareta”, continua. “Os engenheiros romanos eram verdadeiramente notáveis, porque todo este trabalho não demorou mais de três anos a cumprir.” Para isso, foram abertos 13 poços. O canal, esse, mede 720 metros de comprimento.

Uma das saídas de água do maior qanat ainda em funcionamento no mundo.
Uma das saídas de água do maior qanat ainda em funcionamento no mundo.
Foto: Guy Jallay

Os arqueólogos já percorreram 310 metros do canal. Ali cabe um homem encolhido, outras vezes de pé, mas às vezes o espaço aperta por causa da acumulação de pequenos rochedos. “Os romanos cobriam o canal por onde a água corria com pedras, para que os animais mortos não pudessem tocar na corrente e contaminá-la”, diz o homem. Os arqueólogos acreditam que o canal ainda não está todo descoberto, e que há de prosseguir subterrâneo e invisível em direção a Oeste.

Há uma pequena parte subterrânea que se consegue visitar, e que é precisamente o lugar onde os historiadores acreditam que o Raspëtzer sofreu uma avaria no ano 280 DC. Mas o que impressina são os 13 poços, pelos quais se consegue espreitar e ver um outro mundo que jaz no fundo da floresta. Estão hoje tapados com estruturas de ferro – e alguns têm janelas de vidro para que se possa olhar para o submundo. “Venho sempre aqui acompanhar as visitas guiadas”, brinca Guy Medinger, “mas ainda não apanhei nenhuma bruxa nem gnomo.”

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A vida abaixo
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Tony Alves e Steve Becker numa fossa de água subterrânea no Pfaffethal.
Tony Alves e Steve Becker numa fossa de água subterrânea no Pfaffethal.
Foto: Alain Piron

A vida abaixo O passado e o futuro do Luxemburgo acontecem sob os nossos pés. O historiador Robert Philippart fala de tudo o que continua a encontrar-se de cada vez que se cava um buraco na terra. A Place Guillaume II, que deverá ver as obras concluídas no próximo ano, é afinal esconderijo de uma igreja do século XII. Em Clausen investiga-se na poeira os vestígios do Castelo Mansfeld. “Há uma cripta debaixo da igreja protestante da cidade velha onde se podem ver os crânios das freiras fundadoras de um antigo convento. E há também uma outra cripta que jaz daquilo que é hoje a cidade judiciária”, conta ele.

No Luxemburgo a história pode muito bem contar-se por camadas. No século XVI, dois grandes incêndios afetaram o casco velho, um em 1506, outro em 1554. Debaixo dos escombros ficaram escondidos os tesouros da vida medieval. A construção das primeiras ‘casemates’, ou túneis militares, sobrepõem-se a esta história – e marcam definitivamente o património luxemburguês. E depois há todas as construções e esconderijos construídos nas Guerras Mundiais. É a história de um país inteiro que se conta a partir do subsolo.

Mas a construção do submundo segue também na modernidade. Tony Alves, o engenheiro que comanda as infraestruturas subterrâneas do serviço de canalizações da capital, vai abrindo tampas atrás de tampas, esconderijos atrás de esconderijos, com a ajuda do mecânico Steve Becker e do eletricista Raphael Probst. São os homens que resolvem os problemas invisíveis do escoamento de água.

Há os reservatórios de retenção, e os homens hoje entram em duas destas estruturas, ambas em Bonnevoie. “Temos algumas que recebem águas pluviais e domésticas e outras que só recebem esgotos. Estes lugares servem para criar zonas de contenção e impedirem que o caudal que chega à estação de tratamento de Beggen não seja demasiado grande”, explica Alves. Os dias de chuvada intensa, como nas inundações de julho de 2021, são aqueles em que a situação pode descambar.

E é por isso que se tem reforçado a cidade que existe no submundo. Além dos 22 reservatórios já construídos, há nove fossas onde os homens podem travar o caudal.

São lugares onde o canal corre livre, e o odor é tão intenso que pode levar a desmaios. Aliás, antes de entrarem nestas fossas, é preciso medir a quantidade de gazes tóxicos e explosivos que existem no interior das galerias. Mas é a partir dali que se pode fechar a escotilha à passagem da água.

As obras continuam. A própria estação de Beggen, que tem hoje capacidade para gerir os esgotos de uma cidade de 230 mil habitantes (mais uma centena de milhar do que a atual população oficial da capital), está a ser reconvertida para uma capacidade de 450 mil pessoas. As tubagens que ali chegam, com um diâmetro de dois metros e por onde corre a urbanidade líquida do Luxemburgo, despejam-se em dois planos – a dois e 12 metros de profundidade. A história do submundo continua a ser escrita todos os dias

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As outras ‘casemates’
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Nas casemates do Forte Berlaimont ainda há vestígios de placas instaladas na II Guerra Mundial.
Nas casemates do Forte Berlaimont ainda há vestígios de placas instaladas na II Guerra Mundial.
Foto: Gerry Huberty

Abertas ao grande público, as Casemates da Pétrusse e das Trois Glandes são infraestruturas impressionantes que podem ser visitadas todas os dias. As do Um Bock, na descida para Clausen, voltarão rapidamente à mesma condição – mas estão neste momento a ser alvo de obras de requalificação. Debaixo da sede da Spuerkeess, uma ’casemate’ foi convertida em galeria de arte. Há, no entanto, muitos outros túneis militares que continuam invisíveis aos olhos da maioria dos cidadãos.

Patrick Schaul lidera o caminho pelos jardins da Fundação Pescatore e abre um enorme portão metálico, por onde se desce ao mistério. Ele é um dos guias dos Amigos da Antiga Fortaleza, a associação encarregada do estudo e guarda das infraestruturas subterrâneas que integram a paisagem que a UNESCO classificou património do mundo inteiro. “Aqui havia o antigo forte Berlaimont, construído pelos espanhóis em 1672/3. Mesmo que pouca gente a conheça, é uma das mais bem preservadas estruturas que existem.”

Patrick Schaul mostra as casemates menos conhecidas da cidade.
Patrick Schaul mostra as casemates menos conhecidas da cidade.
Foto: Gerry Huberty

Mais do que uma cidade mercantil, o Luxemburgo foi uma das mais importantes fortalezas da Europa Central durante séculos a fio. Chamavam-lhe aliás a “Gibraltar do Norte”. “Para vermos bem a dimensão das coisas, quando a fortaleza foi desmantelada, em 1867, a área urbana media 120 hectares e a área militar media 180”, conta Schaul.

Até ao século XVI, a organização defensiva da cidade aproveitava o planalto do Alzette como muralha natural mas, do lado oeste, tinham sido construídos sete fortes diferentes que impediam os avanços vindos de França. “O problema é que, no reinado de Luís XIV, as tropas de Vauban atacaram a partir de Kirchberg com grandes canhões e conseguiram dominar a fortaleza. Já havia várias ’casemates’ construídas, mas nessa altura elas foram bastante reforçadas.”

“Cada forte possuía os seus próprios sistema de túneis, e eles não estavam em contacto uns com os outros, para evitar as invasões subterrâneas”, conta Schaul, acendendo a lanterna. Está à entrada do túnel e aponta a luz para o teto. Várias aranhas descem por fios finíssimos. “É uma espécie endémica que existe apenas nas casemates luxemburguesas. O nome científico é Meta menardi”, diz.

Os corredores são compridos e, se é verdade que às vezes se pode caminhar de pé, noutras vezes é preciso vergar as costas para passar às galerias. De um lado e outro dos corredores abrem-se mais corredores, e desses mais outros. “Nalguns instalavam-se galerias de defesa e ataque, noutros galerias de demolição. Se o inimigo entrasse, explodiam-se os barris de pólvora e em última instância deitava-se abaixo todo o edifício, para que as munições e os segredos ficassem enterrados debaixo dos escombros”, conta Schaul.

A estrutura desemboca num claustro subterrâneo, e o guia chama a atenção de uma série de grafitti que foram escavados nas paredes. Há assinaturas desde o século XIX, muitas do tempo da II Guerra Mundial, até a escrita dos estatutos de uma associação no início do século XX. “Nas duas guerras mundiais, esta ‘casemate’ serviu de abrigo contra bombardeamentos. O general Patton, que montou o seu quartel-general no edifício Pescatore, tinha aqui um bunker de contingência para o caso de um ataque”, explica. Ainda se veem algumas cablagens de antigas linhas telefónicas e de telégrafo, aliás.

Dos 23 quilómetros de túneis escavados à grés na capital, sobram hoje 11. Recentemente, a polémica instalou-se porque o projeto de expansão do Tram poderia danificar alguns destes corredores e até uma ponte que permanecem enterradas junto à fundação. Patrick Schaul continua a conduzir-nos pelos mais apertados corredores, “é por aqui que os cães polícia vêm fazer os seus treinos, e o percurso há de seguir durante horas de aperto e uma ligeira claustrofobia. Quando finalmente se sai do submundo, o Luxemburgo continua luminoso e verde – e isso causa um misto de surpresa e alívio para quem passou horas subterrâneo. Da cidade invisível à capital que todos conhecemos não estão apenas umas dezenas de metros de profundidade. Estão dois mundos inteiros ao contrário um do outro.



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