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Há um luso-luxemburguês entre os melhores bombeiros do mundo

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Há um luso-luxemburguês entre os melhores bombeiros do mundo

Há um luso-luxemburguês entre os melhores bombeiros do mundo
Reportagem

Há um luso-luxemburguês entre os melhores bombeiros do mundo


por Ricardo J. RODRIGUES/ 15.09.2022

Na semana passada, o Luxemburgo acolheu o World Rescue Challenge, o campeonato do mundo dos bombeiros. Vieram equipas de todo o globo, incluindo de Portugal e do Brasil. O luso-luxemburguês Bruno Veloso conquistou ouro nas provas de Trauma, os portugueses Nelson António e Pedro Cardigo foram prata. Esta é a história lusófona da grande festa mundial dos bombeiros.

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O planeta em Gasperich
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Bombeiros brasileiros, portugueses e luso-luxemburgueses em confraternização no World Rescue Challenge, que decorreu esta semana em Gasperich.
Bombeiros brasileiros, portugueses e luso-luxemburgueses em confraternização no World Rescue Challenge, que decorreu esta semana em Gasperich.
Foto: António Pires

Quem andasse distraído e entrasse por estes dias na sede do CGDIS – Corpo Grão-Ducal de Incêndio e Socorro, era capaz de pensar que tinha acabado de chegar a um ferro-velho. Centena e meia de carros espatifados e amachucados ocupam a parte cimeira do quartel. Havia os modelos mais recentes e viaturas antigas. Todas numeradas para as provas que estavam prestes a decorrer. O Luxemburgo acolheu pela primeira vez este ano a maior competição soldados da paz do globo, o World Rescue Challenge. E o bairro de Gasperich, na capital, tornou-se nos últimos dias a capital mundial dos bombeiros.

Se o objetivo era replicar condições de salvamento, então eram realmente necessários todos aqueles automóveis. "Obtivémos um bom patrocínio da Renault, que ajudou bastante", explicava-nos no meio da sucata o porta-voz da organização, Cédric Gantzer. Sobretudo para as provas de Salvamento, onde equipas de seis bombeiros eram obrigadas a cumprir várias provas de desencarceramento em cenários de acidentes rodoviários. "Para a competição de Trauma, onde dois socorristas têm de diagnosticar e prestar socorro a vítimas, já não foram precisas tantas viaturas", explicou Gantzer.

Cédric Gantzer no meio da sucata. Nas provas foram usados mais de 150 carros.
Cédric Gantzer no meio da sucata. Nas provas foram usados mais de 150 carros.
Foto: António Pires

No total, inscreveram-se 188 concorrentes, vindo de 17 países. Da Austrália ao Brasil, dos Estados Unidos a Taiwan, da África do Sul à Roménia, estava presente a elite do socorro mundial. 

Portugal trouxe três equipas de desencarceramento (Cacilhas, Lisboa e Nordeste, nos Açores) e cinco de trauma (Covilhã, Mira, Lisboa, S. Roque do Pico e Praia da Vitória – estas duas últimas também dos Açores). O Luxemburgo tinha duas inscrições em desencarceramento e cinco em trauma. Numa delas atuava um lusodescendente chamado Bruno Veloso, que acabaria por conquistar o primeiro lugar numa das categrias da competição.

O facto é que houve muita lusofonia nos World Rescue Games. Nas provas de trauma, por exemplo, foi em língua portuguesa que as provas começaram e foi em língua portuguesa que terminaram. A primeira equipa do mundo a entrar em campo foi a dos Bombeiros Voluntários de São Roque do Pico. A última foi o Regimento de Sapadores de Lisboa, onde atuavam Nelson António e Pedro Cardigo. Atuaram no domingo às quatro da tarde, e a sua prova congregou uma enorme multidão, com dezenas de portugueses e lusodescendentes a apoiarem os rapazes. A prova haveria de correr-lhes francamente bem e acabariam também eles por subir ao pódio.

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Regras do jogo
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Os jogos duraram quatro dias, com as equipas de desencarceramento a terem de cumprir três provas e as de trauma duas. No primeiro caso, a competição estabelecia-se no nível Rapid, em que as equipas tinham de libertar uma vítima em dez minutos, Standard, com vinte minutos para libertar uma vítima em estado crítico num cenário mais complicado, e Complex, em que havia duas vítimas, uma delas em estado crítico, numa situação mais difícil de resolver.

"Notou-se perfeitamente um aumento no nível de dificuldade das provas em relação aos anos anteriores", comentava Paulo Surgy, chefe da equipa de desencarceramento dos Bombeiros de Cacilhas, que mal acabou a sua prova foi assistir à do Regimento de Sapadores de Lisboa, um dos grandes favoritos da competição – tinham, afinal, sido campeões mundiais em 2018 e eram vice-campeões em título. 

Mas as coisas não lhes correram tão bem quanto queriam, em parte por culpa própria noutra parte por influência de um assessor técnico que avaliava os trabalhos. Nesta disciplina, pelo menos este ano, Portugal não atingiu as expetativas. O primeiro lugar do pódio acabaria por ir para o Consórcio de Valência, o segundo para a Hereford & Worcester Fire and Rescue Team, de Inglaterra, e o terceiro para uma equipa de Bridgend, no País de Gales.

A equipa de Cacilhas assiste à prova da equipa de Lisboa.
A equipa de Cacilhas assiste à prova da equipa de Lisboa.
Foto: António Pires

A boa fama dos bombeiros portugueses, no entanto, permaneceu intacta. Falava-se com luxemburgueses, irlandeses ou brasileiros e todos concordavam que a equipa de Lisboa era exemplarmente bem oleada. "Eles ficaram famosos por desencarcerarem vítimas através da parte de baixo do veículo, o que é verdadeiramente notável", dizia a determinada altura Cédric Gantzer, o homem da organização. Alexandre Grolli, chefe da Team Concórdia do estado brasileiro de Santa Catarina – os campeões sul-americanos de desencarceramento em 2019 – admitia olhar para o país lusófono com admiração. “Estes estão na linha da frente." 

Os elogios seriam replicados do lado Europeu. "A evolução das equipas brasileiras é simplesmente notável”, diria o comandante Ventura Castiço, dos Sapadores de Lisboa. Essa solidariedade lusófona notar-se-ia ao longo de todos os dias de competição, com brasileiros e portugueses a apoiarem-se constantemente nas provas uns dos outros.

Para as equipas de Trauma, havia duas provas – uma Standard, em que era necessário prestar socorro à vítima de um acidente rodoviário, e uma Complex, onde se prestava auxílio a duas vítimas, uma delas em estado crítico. Cada uma delas durava nove minutos, mais os 60 segundos que eram oferecidos às equipas para organizarem a sua estratégia. Antes de qualquer apoio à vítima, os bombeiros precisavam de verificar as condições de segurança no terreno. Antes da ação de socorro propriamente dita, tinham de retirar uma foice do meio do campo, desligar o motor de um trator e fechar a cancela de um curral de vacas – porque o cenário simulava um acidente numa quinta.

A equipa de trauma de Lisboa foi segunda na prova Standard e terceira na geral.
A equipa de trauma de Lisboa foi segunda na prova Standard e terceira na geral.
Foto: António Pires

Também aqui havia olhos postos nas equipas portuguesas, nomeadamente nos açorianos da Praia da Vitória, donos de um longo palmarés de sucessos. Mas foi à equipa do Regimento de Sapadores de Lisboa que as coisas correram melhor. Nélson António e Pedro Cardigo, suportados pelo chefe António Maciel e pelo suplente Márcio Mendes, entrariam duas vezes no terreno com a velocidade e a capacidade de comunicação que lhes garantiriam um terceiro lugar no pódio geral de Trauma e o segundo posto na prova Standard. Foi precisamente aí que o Grão-Ducado brilhou, com um lusodescendente a destacar-se nas classificações.

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Enorme Luxemburgo
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Bruno Veloso (à esquerda) no final da prova Standard de Trauma, da qual se sagraria campeão mundial.
Bruno Veloso (à esquerda) no final da prova Standard de Trauma, da qual se sagraria campeão mundial.
Foto: António Pires

O país organizador superou todas as expetativas, na montagem do evento mas também nos resultados que as suas equipas alcançaram. Mesmo que não existam no país mais de 3.800 bombeiros (Portugal, por exemplo, tem 26.125 efetivos, entre profissionais e voluntários), o Grão-Ducado viu duas equipas subirem ao pódio. Na prova Rapid de desencarceramento a equipa SDIS17 conseguiu alcançar o bronze. Na prova Standard de trauma, onde os portugueses foram segundos, o ouro calhou à TeamLX, onde um dos socorristas que entraram em campo se chamava Bruno Veloso. O seu companheiro de equipa era Tom Gallo.

Veloso tem 44 anos, nasceu no Luxemburgo e vive em Redange. Os pais vieram de Vila Flor – e foram eles que o incentivaram a entrar nos bombeiros. "O meu pai já andava no quartel quando vivia lá em Trás-os-Montes e inscreveu-me no Luxemburgo logo quando nasci", contava. "Tenho 44 anos de vida, 12 de bombeiro profissional e 32 de voluntário." É, além do mais, instrutor das novas gerações que chegam ao CGDIS.

O homem concorda com a ideia de que houve uma enorme proximidade entre os participantes lusófonos – e isso, aliás, enche-o de orgulho. "Tentei apoiar toda a gente, mas tive mais atenção aos portugueses e brasileiros, claro, porque falam a nossa língua", conta. Desde encontrar material perdido que se extraviou até traduzir expressões que não eram claras, andou numa roda-viva. No final da sua prova, aliás, meio mundo parecia querer vir abraçá-lo. Portugueses e luxemburgueses, lusodescendentes e brasileiros. Bruno é, de alguma forma, um símbolo de toda a alegria que se viveu nestes dias em Gasperich.

Luís Ferreira, presidente da Associação Portuguesa de Salvamento e Desencarceramento.
Luís Ferreira, presidente da Associação Portuguesa de Salvamento e Desencarceramento.
Foto: António Pires

Bem vistas as coisas, o homem mostrou-se elo de ligação entre dois mundos. "Desde miúdo que passo os meses de agosto em Portugal, sei muito bem  que o país tem sofrido nas épocas de incêndio", lamenta. "Sabemos que há quartéis que se veem em mãos com faltas de equipamento e então, quando renovamos os nossos materiais aqui no Luxemburgo, ponho tudo o que ainda está bom mas já não usamos em caixas e envio lá para baixo." Ainda há pouco tempo enviou uma dessas encomendas aos Voluntários de Mortágua.

Tal como Bruno, os bombeiros luxemburgueses mostravam-se de uma disponibilidade exemplar na hora de apoiar os colegas de outros países. Luís Ferreira, presidente da Associação Portuguesa de Salvamento e Desencarceramento, haveria de dizer isso mesmo ao Contacto no segundo dia de provas. "Está a ser uma grande organização, em tudo. E é bom ver que, depois de dois anos de interrupção por causa da covid-19,  o World Rescue Challenge voltou com um nível de exigência bastante alto." Mas a pandemia também deixou as suas marcas. "Nota-se que algumas equipas estão um pouco enferrujadas", disse Ferreira.

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A luta pela paz
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A equipa dos Sapadores de Lisboa na prova que os levou ao pódio mundial.
A equipa dos Sapadores de Lisboa na prova que os levou ao pódio mundial.
Foto: António Pires

Nas conversas destes dias houve uma frase em que toda a gente parecia concordar. Os jogos são jogos, a competição é saudável, mas nada no ofício é mais importante do que a oportunidade de salvar uma vida. Michael Oro, que era carteiro no Brasil antes de se tornar bombeiro (era um dos socorristas da Team Concórdia na competição de Trauma), lembra-se do dia em que fez um parto na ambulância, porque o bebé já não podia esperar. "É uma coisa que enche o coração, trazer uma nova vida ao mundo. Nós estamos habituados a salvar as vidas que já existem, e às vezes perdemo-las. Conseguir acrescentar alguém ao planeta é a sensação mais maravilhosa do mundo."

A sua colega de equipa, Caroline Albiero, lembra-se de um Dia da Mãe em que um bebé deixou de respirar e ela conseguiu devolver a criança ao mundo dos vivos. "Essa sensação de contrariar a morte é incrível, sobretudo quando é uma criança", diz. Bruno Veloso, do CGDIS, alinha pela mesma batuta. "Temos de ter uma carapaça dura para ter esta vida. Vimos muita perda. Mas a alegria de salvar uma vida faz tudo valer uma pena. Já me aconteceu emocionar-me por resgatar um cão que caíra num lago gelado. Quando é um ser humano, sobretudo quando é uma criança, a alegria é total."

E depois há Nelson António, um dos elementos da equipa portuguesa que subiu ao pódio. Conta-nos que entrou nos bombeiros ainda adolescente depois de uma noitada nas Festas do Montijo. "Às tantas vejo uma mãe desesperada com um filho desmaiado nos braços. A criança tinha-se engasgado e ja não conseguia respirar. Falei com a mulher, disse-lhe que ia pegar no bebé e correr com ele para o hospital, ela que me seguisse. Acho que nunca corri tão rápido na minha vida. E o menino salvou-se por segundos. Depois disso, inscrevi-me nos bombeiros."

Obrigado a ele. Obrigado a todos eles, na verdade. Em língua portuguesa e em todas as outras línguas do mundo.

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