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Há seis meses, um tornado trocou-lhes as voltas à vida

Há seis meses, um tornado trocou-lhes as voltas à vida

Há seis meses, um tornado trocou-lhes as voltas à vida

Há seis meses, um tornado trocou-lhes as voltas à vida


por Álvaro CRUZ/ 06.02.2020

Foto: Sibila Lind

Higino Medina continua a trabalhar na reconstrução da casa, em Pétange, uma das muitas afetadas pelo tornado de 9 de agosto de 2019. A família Campos, também vítima da tempestade que devastou aquela região, já regressou ao lar. Duas histórias para conhecer com contornos dramáticos entre muitas outras.

“Ai, Higino, uma parte da nossa casa caiu. Meu Deus, o telhado foi levado pelo vento e as paredes desmoronaram-se com a tempestade, disse-me a minha mulher ao telefone com a respiração ofegante. Fui apanhado de surpresa e por momentos ainda pensei que tinha percebido mal, mas quando ela continuou a contar os pormenores de como tudo se tinha passado, disse-lhe só para se meter na cave com os miúdos, entrei no carro e voei até casa”, recorda Higino Medina, um dos grandes afetados pela violência do tornado que, no dia 9 de agosto do ano passado, varreu as zonas de Pétange e Bascharage, provocando danos substanciais naquela área do Luxemburgo, deixando dezenas de famílias desalojadas.

“Quando cheguei a casa nem queria acreditar, Era o caos. Uma devastação completa. O teto desabou completamente e o que restava dos quartos ficou à vista. Vidros e janelas partidos, paredes deitadas abaixo, pó por todo o lado, buracos nas paredes, tudo partido e espalhado pelo chão, os miúdos em pânico... não acreditava no que estava a viver”, recorda, emocionado.

“Dois minutos foram suficientes para deitar abaixo tudo o que tinha construído durante tantos anos de trabalho” diz com a voz embargada. “Senti grande solidariedade e isso mexeu comigo”

 “Excetuando umas escoriações, ninguém sofreu danos físicos consideráveis, mas psicologicamente os traumas são indisfarçáveis. Dois dos meus filhos foram projetados pela força do vento e o mais pequeno, de sete anos, sempre que começa a chover ainda entra em pânico...”

Depois da tragédia, Higino lembra que de um momento para o outro começaram a aparecer amigos, vizinhos e até muita gente que nunca tinha visto para ajudar.

Senti uma grande demonstração de solidariedade por parte das pessoas e isso mexeu comigo

Higino Medina, habitante de Pétange

“O meu vizinho, português, tem ajudado imenso. Outro senhor que apenas conhecia de passar aqui na rua fez-me as novas paredes dos quartos e não me levou um euro. Até o burgomestre de Pétange estava na rua às seis da manhã para ajudar quem precisasse. Nunca tinha vivido nada assim. Senti uma grande demonstração de solidariedade por parte das pessoas e isso mexeu comigo”, recorda.

Foto: Sibila Lind

Depois da tragédia, Higino e a família foram realojados num hotel e uns dias depois num apartamento, onde ainda hoje permanecem.

“Não esqueço os responsáveis da comuna que nos realojaram prontamente num hotel e depois, com a ajuda da companhia de seguros, providenciaram um apartamento onde ainda estamos a viver. Aproveito todas as horas vagas e os fins de semana para trabalhar na casa com amigos. Excluindo o telhado, que foi feito por uma empresa, todos os trabalhos de restauração são feitos por mim e amigos. A companhia de seguros tem pago os materiais e o resto é por minha conta”, esclarece.


O telhado de casa dos Furtado voou e com ele uma vida de trabalho.
Tornado. "A vida que tanto lutámos para construir foi-se toda no vento"
A desolação tomou conta das ruas de Pétange, onde famílias inteiras perderam os frutos de uma vida de trabalho. O partido Conservador, ainda assim, decidiu organizar uma festa no centro da vila.

Regressar o mais rapidamente é o grande desejo de Higino e da família. O cabo-verdiano que reside no Luxemburgo há 12 anos pretende voltar à sua casa em fevereiro.

“Falta-me a chaminé, a garagem e um anexo. Já enviei uma carta a informar a senhoria que deixo o apartamento no final do mês de fevereiro. Já não aguentamos mais viver nesta situação”, desabafa.

O telhado da casa de Higino foi levado pelo vento forte
O telhado da casa de Higino foi levado pelo vento forte
Foto: Higino Medina

“Depois, fica só a faltar o recheio. A minha seguradora já me pediu para enviar um relatório com um descritivo de tudo o que perdi... vamos ver. Só quero que todo este pesadelo termine e possamos regressar a casa”, conclui.

Só quero que todo este pesadelo termine e possamos regressar a casa.

Higino Medina, habitante de Pétange

Ao contrário de Higino, Bruno Campos, a mulher e as duas filhas já voltaram a casa e puderam passar o Natal juntos, como tanto ambicionavam. No dia 9 de agosto, encontravam-se de férias na Bélgica e não assitiram à tragédia que danificou profundamente a casa que tinha comprado há três anos.

Foto: Sibila Lind

Férias na Bélgica salvaram família Campos

“Por um lado, felizmente que não estávamos em casa, porque como normalmente acontece, as miúdas costumam brincar nos quartos e naquele dia em que foi tudo pelo ar, se lá estivessem, nem quero imaginar“, diz Bruno com a voz trémula.

“Como não fomos a Portugal, resolvemos ir uns dias à Bélgica. Ouvimos o que se tinha passado, e fizemos uns telefonemas. Uns diziam que a nossa zona tinha sido afetada, outros não, até que um vizinho me enviou umas fotos e então regressámos imediatamente”.

O mesmo quarto, seis meses depois
O quarto de Íris depois do tornado
Foto: Bruno Campos

“Quando cheguei e vi a casa naquele estado foi como se o mundo desabasse. Tinha-a comprado há três anos... um choque tremendo e uma grande desilusão muito grande, como se o chão ruísse debaixo dos meus pés. Nessa altura não pensas em seguros, em nada, estás perante um cenário de completa destruição e desolação”, recorda Bruno visivelmente emocionado.

“Não temos cá família e apesar do apoio dos amigos, no início foi tudo muito complicado”, vinca.

De um momento para o outro, tínhamos ficado sem casa, foi horrível.

Soraia, 12 anos

Íris, a filha mais nova, recorda em lágrimas o momento em que viu grande parte do seu quarto destruído, no chão, frente à porta de entrada: “Fiquei muito triste por ter visto a casa meio destruída e ter perdido o meu quarto e os meus brinquedos. Também nunca tinha visto o meu pai e a minha mãe chorarem assim...” interrompe e não consegue prosseguir.

A irmã Soraia, de 12 anos, também lembrou as consequências do fatídico tornado, igualmente emocionada: “A nossa casa estava destruída. Foi um momemto muito triste para todos nós. De um momento para o outro, tínhamos ficado sem casa, foi horrível”, diz, abraçando-se ao pai que lhe afaga o ternamente cabelo e a abraça.

“Os primeiros dias foram muito duros. Entretanto, os meus pais chegaram e as coisas foram-se compondo. Fomos para um hotel e depois para um apartamento que a companhia de seguros disponibilizou. Poucos dias depois começaram os trabalhos. Terminado o telhado, as restantes obras no interior foram-se fazendo, sempre com o apoio da minha companhia de seguros. Foram muitas horas de trabalho e esforço. Embora ainda falte terminar uma das casas de banho e alguns retoques consegui passar o Natal em família, que era o nosso grande objetivo”, explica.

Foto: Sibila Lind

“Vivemos momentos muito difíceis. Por um lado, pensas que perdeste tudo, mas por outro, olhas para o lado e tens a tua família junto a ti, com saúde… isso é o mais importante. Não vou citar ninguém em especial, mas não posso deixar de agradecer a todos aqueles que me ajudaram a recuperar a minha casa. Pelo apoio, carinho, solidariedade e também pelo imenso trabalho desenvolvido. É bom voltar a ter tudo novo, mas, ao mesmo tempo, é uma experiência que nunca mais vou querer repetir.”


O que causou o tornado? E vão haver mais a assolar o país?
É impossível saber qual o local onde as nuvens vão “girar” com violência e levar tudo pelos ares, explica um meteorologista ao Contacto.

O tornado de 9 de agosto de 2019, o mais violento de que há memória no Luxemburgo, deixou um rasto de destruição nas regiões de Pétange e Bascharage. Fez duas dezenas de feridos, causou danos em mais de 300 habitações e deixou cerca de 70 vítimas sem casa.

Alguns foram realojados, mas a grande maioria continua à espera de melhores dias.