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“Há muita incerteza sobre o que se passará no fim do verão”
Luxemburgo 7 min. 08.07.2020

“Há muita incerteza sobre o que se passará no fim do verão”

“Há muita incerteza sobre o que se passará no fim do verão”

Foto: DR
Luxemburgo 7 min. 08.07.2020

“Há muita incerteza sobre o que se passará no fim do verão”

Paula SANTOS FERREIRA
Paula SANTOS FERREIRA
Jorge Gonçalves é português e um dos cientistas da task force covid-19 no Luxemburgo que tem traçado cenários e feito simulações sobre a evolução da doença no país para o Governo. Em entrevista ao Contacto, conta que já estuda o impacto que a epidemia poderá ter no regresso às aulas.

O investigador Jorge Gonçalves esteve um mês a trabalhar em Wuhan, onde viria a ser o ‘olho do furação’ da pandemia, tendo regressado ao Luxemburgo em novembro, pouco antes do surto ser conhecido. Este português, especialista em inteligência artificial e aplicação de modelos matemáticos a sistemas complexos como os biomédicos e biológicos, possui uma carreira internacional notável. No Luxemburgo, integra a task force da covid-19. No Centro de Sistemas Biomédicos, da Universidade do Luxemburgo, onde trabalha tem simulado para o Governo cenários sobre a doença no país e a melhor maneira de a combater. Além de ser coautor de um modelo capaz de salvar a vida de doentes infetados, que já está a ser utilizado.

Após um mês a trabalhar em projetos científicos na Universidade de Wuhan deixou a cidade em novembro. Na altura não havia suspeitas de algum surto nesta cidade chinesa?

Tenho uma colaboração com investigadores de Wuhan e estive lá, mas felizmente, voltei antes disto tudo. Na altura, não se ouviu falar de nada. Só em janeiro é que começou a ser muito noticiado e foi quando a China informou que havia um problema. A partir daí, o surto cresceu exponencialmente.

Já no Luxemburgo e em colaboração com Wuhan criou uma ferramenta muito importante, capaz de prever se um doente covid-19 irá ser de alto risco.

Sim, eu com o meu grupo do Luxemburgo e os meus colegas de Wuhan desenvolvemos um modelo computacional capaz de prever a sobrevida de um doente covid-19, com uma antecedência de dez dias. Os médicos conseguem saber com esta antecedência, e confiança, os doentes com risco elevado de morte, podendo assim serem tratados o mais cedo possível.

E assim salvar vidas.

Esse foi o nosso ponto de partida. O estudo foi feito com base em 500 amostras de sangue de doentes graves infetados, dos hospitais de Wuhan. Com ferramentas de inteligência artificial criámos um modelo que identificou três biomarcadores que conseguiam separar muito bem as pessoas que sobreviviam e os doentes que não sobreviviam. O modelo tem 90% de precisão.

Como se identificam os biomarcadores nos doentes?

Esses biomarcadores, o lactato desidrogenases, linfócitos e proteína C-reativa, podem ser obtidos através de uma simples análise sanguínea, e depois serem usados para prever se o doente é de alto risco.

Esta ‘análise’ já está a ser utilizada em muitos países?

Além de hospitais na China, fomos contactados por vários hospitais na Europa e Norte América. O estudo foi publicado na revista científica ‘Nature Machine Intelligence’, em meados de maio, por isso, todos podem utilizar esta ferramenta, livremente.

No Luxemburgo integra a ‘task force’ covid-19 onde está envolvido em vários projetos.

Sim. Quando começou a epidemia no país, deixei a minha própria investigação e passei a dedicar-me em exclusividade ao estudo da evolução do vírus. E já antes da ‘task force’, eu e vários investigadores da minha área, no Luxemburgo, fomo-nos juntando para colaborar. A certa altura éramos 40, um subconjunto da ‘task force’ (work package 6). Agora estou dedicado a fazer previsões, a simular cenários da covid-19 no país. Já realizámos centenas de cenários e milhares de simulações.

Como se traçam cenários da epidemia?

O Governo tem trabalhado muito de perto connosco. Conseguimos modelizar como o vírus se espalha na rede de trabalho e das famílias, utilizando informação em tempo real, para as previsões. Aquando da reabertura do mercado de trabalho, por exemplo, utilizámos modelos para prever como podíamos minimizar a expansão do vírus e ao mesmo tempo reativar o mais possível a economia do país.

Qual a forma mais eficaz de combate à epidemia segundo os seus estudos?

A nível pessoal, o mais importante é o uso de máscara e manter as distâncias, pois diminui o nível de contágio. O respeito por estas medidas ajuda muito no combate à propagação. No controlo da doença, o nosso modelo mostrou que o rastreamento de contactos é essencial.

Qual é agora o seu foco de trabalho?

Neste momento, estamos a desenvolver simulações ao nível dos testes de despistagem, de 10 mil ou 20 mil por dia, e que partes da população vamos testar, se as famílias, se nos locais de trabalho, etc, para perceber qual a melhor forma de controlar a progressão do vírus. O Luxemburgo está com bastante capacidade de testagem, o que é muito bom.

Mas o rastreamento de contactos tem limitações, segundo o seu estudo.

É verdade, mas o rastreamento de contactos feito manualmente tem uma certa capacidade, ultrapassando essa capacidade ficam muitos contactos por isolar e cadeias de transmissão por travar. Nessa altura, teremos de ponderar seriamente o uso de uma aplicação no telemóvel para rastreamento.

Essas Apps têm gerado polémica.

Se o Governo conseguir encontrar uma aplicação que proteja os dados pessoais seria excelente, pois entendo a preocupação das pessoas com a sua privacidade. Mesmo com a App é necessário que uma grande parte da população adira. Esta seria uma forma muito eficaz de controlar o vírus.

Que outros cenários estão a simular?

Trabalhamos num modelo para simular como a doença se vai comportar nos próximos meses. Estamos constantemente a fazer simulações para ver como podemos tirar o maior partido dos testes de despistagem e rastreamento de contactos. Outros cenários incluem o regresso às aulas em setembro, o efeito de casamentos e grandes festas, etc.

O que pode acontecer este verão?

Muitas pessoas vão de férias,mas não sabemos quando e quantas vão para fora e tudo isso influencia bastante as previsões. Com menos população no país, é possível que os números diminuam, mas depois não sabemos quantos casos de infeção vão regressar. Há muita incerteza sobre o que se irá passar no final do verão, no país e em particular, como prever o impacto de vários cenários da epidemia para o regresso às aulas.

O respeito pelas normas de segurança continua a ser fundamental?

Por muitas simulações, testes e rastreamento do contactos que sejam feitos, o mais importante todos continuarmos a seguir as normas de segurança impostas ou recomendadas pelo Governo. Senão, podemos regressar ao confinamento e perder muitas vidas. Tudo isto depende de cada um de nós.

Vivemos uma situação inédita de pandemia. Como olha para o momento que atravessamos?

Nunca pensei que iria ter esta experiência... Já vimos filmes sobre pandemias, e às vezes, ainda parece que isto não é real, que é ficção científica. Mas não é, e agora estamos aqui a passar pela covid-19. Já se perspetivava que isto iria acontecer, era só uma questão de quando seria. Mas é e estamos a trabalhar para fazermos o melhor que conseguimos.

Falemos agora de si. O que levou um português de Vila Nova de Gaia a seguir uma carreira internacional na área da inteligência artificial e da biomedicina?

Licenciei-me em engenharia, no Porto. Depois fui para o MIT em Boston fazer o mestrado e doutoramento em engenharia elétrica e ciências da computação. Só quando fui para o Instituto de Tecnologia da Califórnia, Caltech, fazer o pós-doutoramento é que entrei no mundo da biomedicina e comecei a utilizar ferramentas de inteligência artificial (IA).

Nunca mais voltou para Portugal.

Quando saí de Portugal tinha 22 anos e pensava estar apenas dois anos fora; já passaram quase 30 anos (risos). Mas, costumo ir a Portugal pelo Natal e nas férias de verão. Estive dez anos nos EUA, em Boston e Los Angeles, e depois estive outros dez anos no Reino Unido, como professor na Universidade de Cambridge. Desde há sete anos que trabalho como professor na Universidade do Luxemburgo, no Centro de Sistemas de Biomedicina do Luxemburgo (LCSB na sigla original).

Como chegou ao Luxemburgo?

O convite partiu do Prof. Rudi Balling, o diretor deste Centro, quando ele o estava a criar. Foi ele que me convidou para trabalhar com ele, pois já nos conhecíamos. Achei o trabalho muito interessante. Foi uma decisão bastante difícil porque já era professor de engenharia na Universidade de Cambridge. Mas eu gosto de aventuras e vim com a minha mulher e os nossos três filhos para cá.

Está arrependido?

Não estou nada. O LCSB tem estado a crescer muito e já tem uma grande reputação a nível mundial. É um ambiente muito ativo e estimulante. E há excelentes restaurantes portugueses. Em Cambridge, não há quase nada português, nem na Califórnia onde estive. Aqui realmente é um paraíso, é como ter uma parte de Portugal ao pé de mim.

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