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Há demasiados estrangeiros no Luxemburgo?

Há demasiados estrangeiros no Luxemburgo?

Foto: Shutterstock
Luxemburgo 3 min. 14.06.2018

Há demasiados estrangeiros no Luxemburgo?

A pergunta veio do público, no debate com representantes dos partidos políticos luxemburgueses. Na mesa estavam as propostas para os estrangeiros nas próximas eleições legislativas, em outubro.

“Um capitalista e um operário sentam-se numa mesa com dez bolos. O capitalista pega em oito, e avisa o operário: ’Cuidado, olha que o estrangeiro ainda te fica com um dos bolos!”. A anedota foi contada por um elemento do público que assistiu ao debate organizado pela Associação de Apoio aos Trabalhadores Imigrantes (ASTI), esta segunda-feira, e fez rir a sala. Mas acertou “na mouche”. Num editorial recente, a ASTI lamentava que “os políticos no Luxemburgo estejam presos” num debate sobre imigração e crescimento económico, próprio “de um país de ricos”.

Até aí, o debate com os representantes dos partidos ficara-se pela revisão da matéria dada. Passou-se em revista o chumbo ao direito de voto dos estrangeiros nas legislativas, no referendo de 2015, e as soluções para o défice democrático. Em jeito de provocação, o contador de anedotas ironizou: “Foram todos muito bons, nenhum falou de forma negativa sobre os estrangeiros. Mas quando eu falo com luxemburgueses, dizem-me que há demasiados estrangeiros e que não ficariam descontentes se houvesse menos. Podemos integrar mais estrangeiros no futuro?”, perguntou.

“Enquanto o bolo for suficientemente grande para todos, não haverá problema. Mas há situações dolorosas para muitos na escola e no alojamento”, respondeu Charles Margue, candidato às legislativas pelos ecologistas (Déi Gréng). Para o antigo diretor do instituto de sondagens TNS-Ilres, o Luxemburgo continua sem aprender a lição de como acolher imigrantes. “Começámos com os portugueses nos anos 60 e não estávamos preparados: ’Pedimos trabalhadores, mas vieram homens’”, disse, evocando a frase do escritor suíço Max Frisch, sobre os ’gastarbeiter’ (trabalhadores temporários) no seu país.

A Associação de Apoio aos Trabalhadores Imigrantes (ASTI) organizou um debate com representantes dos partidos políticos, antecipando as propostas para as legislativas de outubro.
A Associação de Apoio aos Trabalhadores Imigrantes (ASTI) organizou um debate com representantes dos partidos políticos, antecipando as propostas para as legislativas de outubro.
Foto: Christophe Olinger

“O medo dos estrangeiros é uma diversão para não falar de um sistema económico violento que provoca desigualdades brutais. Tal como Trump, que faz uma política anti-imigração, quando o verdadeiro objetivo é continuar a desregularização económica”, defendeu o deputado socialista Franz Fayot.

De Fernand Kartheiser, do ADR, o partido de direita radical, veio o “não” a mais estrangeiros. O polémico deputado é o mesmo que há quatro anos questionou no Parlamento um anúncio em que se pedia candidatos que falassem português, e a posição em relação aos estrangeiros só surpreenderá os mais distraídos. Para Kartheiser, a integração é uma via de sentido único. “O que é preciso pedir mais aos luxemburgueses? Já temos problemas com as pessoas que se sentem desconfortáveis porque não podem falar luxemburguês nos hospitais e nas lojas”, martelou.

Gilles Baum, do DP, defendeu que enquanto houver crescimento económico, “o país vai continuar a atrair pessoas que querem ter uma vida melhor”. Maurice Bauer, dos cristãos-sociais (CSV), deu uma no cravo, outra na ferradura: os partidos e associações “têm de fazer o seu trabalho” para integrar os estrangeiros, “sem ameaçar a identidade luxemburguesa”. “É por isso que para votar nas legislativas defendemos que é preciso ter nacionalidade luxemburguesa, porque queremos criar uma identidade luxemburguesa”, acrescentou.

E no entanto, a Terra move-se, e o défice democrático continua a aumentar: 47 % da população não pode votar nas legislativas, e o ministro da Justiça, Félix Braz, já disse que a nova lei da nacionalidade não vai resolver o problema. “No Luxemburgo não há um governo do povo, pelo povo e para o povo, há um governo de uma parte da população”, defendeu Sandrine Gashonga, representante do Déi Lénk (“A Esquerda”).

Para Charles Margue, o défice não é só democrático, é demográfico: “A população que pode votar é mais velha, e isso não é bom. Há reflexos de reformados que dominam [a política], porque os políticos dirigem-se aos seus eleitores, e não aos não-eleitores [estrangeiros]”.

Paula Telo Alves


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