Escolha as suas informações

Greve pelo clima: "Eu? Eu deixei de comer Nutella"
Luxemburgo 4 min. 20.09.2019

Greve pelo clima: "Eu? Eu deixei de comer Nutella"

Greve pelo clima: "Eu? Eu deixei de comer Nutella"

Foto: Lex Kleren
Luxemburgo 4 min. 20.09.2019

Greve pelo clima: "Eu? Eu deixei de comer Nutella"

Teresa CAMARAO
Teresa CAMARAO
Largas centenas aderiram ao protesto que cortou o trânsito no centro Luxemburgo. Professores e ambientalistas juntaram-se aos estudantes para mostrar que a "luta é de todos".

O cartaz em riste e as palavras de ordem na ponta da língua não denunciam a estreante do grupo de quatro estudantes, de 11 anos, que se destaca no meio da multidão que aderiu à terceira greve pelo clima, convocada pela plataforma Youth for Climate do Luxemburgo. Alice despertou há poucos meses para a emergência climática. Não deixou escapar a oportunidade de acompanhar os novos amigos na marcha que saiu da Gare pouco depois das 11h00. 

Mudou de escola este ano e nunca se sentiu tão integrada. "Discutimos muito sobre o estado do planeta e estamos aqui para mostrar que também nos preocupamos", comenta sob o olhar atento dos outros três pequenos ativistas. 

Ella, Madeleine e Owen são repetentes na greve às aulas. Nenhum conta com uma falta injustificada no boletim escolar. "Os nossos pais percebem que estamos aqui pelo nosso futuro, claro que nos apoiam", explica a única vegetariana do bando. "Deixei de comer carne com 5 anos, porque lá em casa é assim", atira Madeleine. 

Ella confessa que é difícil mudar os hábitos alimentares. Confrontada com o desmatamento de grandes áreas da Amazónia para a produção de soja, exige “soluções sustentáveis para evitar o caos”. O único rapaz do grupo, Owen, deixou de barrar chocolate no pão. "Eu? Eu deixei de comer Nutella. O cacau chega-me", encolhe os ombros. "Tudo menos produtos que tenham na composição óleo de palma”, esclarece para que não restem dúvidas.

"Sacrificar a Educação pelo nosso futuro"

Apesar da resistência do Ministério da Educação, que ameaçou punir com falta injustificada os grevistas que não estivessem devidamente autorizados pelos pais, centenas de estudantes invadiram o centro da cidade para exigir medidas concretas ao governo de Xavier Bettel e aos líderes mundiais. "Faltei às aulas porque não me adianta estudar por um futuro que o próprio sistema põe em risco. Estou aqui para lutar pelas nossas vidas e na escola esse esforço está a ser ignorado", explica Caeli Colgan do alto dos seus 12 anos. 

No mesmo sentido, Malvina Lilieholm, com mais um ano, recusa-se a ficar indiferente aos efeitos das alterações climáticas. "Temos um prazo de 11 anos para evitar a catástrofe e temos de continuar a pressionar os líderes mundiais", começa por explicar. "Estive 12 anos na escola a estudar por um futuro que está em risco. Os meus pais não gostam que eu falte às aulas mas sabem que estou a fazê-lo por uma boa causa", acrescenta entre as palavras de ordem que exigem "justiça climática, já", em francês, alemão e inglês. 

O lema que anda de boca em boca não causa espanto aos dois professores que o Contacto encontrou na manifestação. Jean Claude Feltes e Marc Mootz não deixaram de dar aulas para participar na marcha dos estudantes, embora assumam que têm incentivado os alunos “a lutar por uma alternativa”. Explicam que “como educadores" não podem "virar as costas a um problema que, mais cedo ou mais tarde, nos vai bater à porta”. Decidiram ver de perto a mobilização dos mais jovens, pela primeira vez “contra as pressões que muitas escolas estão a fazer contra estas greves estudantis”. 

Não são os únicos docentes preocupados com "as pressões do sistema". O sindicato dos professores OGBL/SEW manifestou solidariedade com os mais novos. Aconselhou-os, em comunicado de imprensa, a “correr riscos” para “participar massivamente no evento”, que esta sexta-feira, 20 de setembro, obrigou ao corte do trânsito, por um curto espaço de tempo, junto à Gare e à Ponte Adolphe. 

Protesto pacífico 

As autoridades que acompanharam de perto as movimentações na mancha humana, que desfilou com cartazes alusivos à destruição do planeta, adaptaram o dispositivo de segurança ao longo da manifestação que, o responsável da direção de comunicação da polícia grã-ducal, diz ter decorrido de forma pacífica. Não há balanço oficial do número de manifestantes. Os membros da organização Youth For Climate Luxembourg falam em milhares. 

Magali Paulus não disfarça o espanto. "Os adultos nunca conseguiriam mobilizar tanta gente como estes miúdos", esclarece. A ativista, de 41 anos, da ONG Frete des Hommes veio com um objetivo claro: "mostrar a estes jovens que não estão sozinhos". Acompanhou os estudantes até ao parque de Kinnekswiss, onde a Youth for Climate do Luxemburgo montou o palco que parecia encolher à medida que as reivindicações pela "mudança de paradigma" se foram sucedendo nos discursos, poemas e improvisos que as muitas centenas aplaudiram de pé.

 Nem o rapper Tun Tonnar, que em maio foi alvo de um processo por causa da canção “FCK LXB”, faltou à chamada. Subiu ao palco para dar a sua voz às reivindicações do "planeta limpo". Até 2040, os ativistas querem que o Luxemburgo forneça 100% de energia renovável. Num prazo mais reduzido, insistem que o governo deve tomar as medidas necessárias para reduzir a zero as emissões de gases com efeito de estufa, no mínimo em dez anos.  

Considerada um sucesso pela organização, esta greve estudantil inaugura a semana global de ação pelo clima. Há milhares de eventos agendados em todos os pontos do globo, entre 21 e 27 de setembro. No Luxemburgo, o ponto alto da mobilização está agendado para o último dia da semana. Na capital estão previstas quatro marchas diferentes. Pelo menos 12 associações ambientais estão “unidas pela justiça climática”.