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Greve e eleições
Editorial Luxemburgo 3 min. 04.07.2019

Greve e eleições

Greve e eleições

Foto: LUSA
Editorial Luxemburgo 3 min. 04.07.2019

Greve e eleições

Sérgio Ferreira Borges
Sérgio Ferreira Borges
Centeno já acabou com Adalberto Campos Fernandes e não terá pejo em dar semelhante destino a Marta Temido.

Quem, por estes dias, chegar de férias a Portugal vai deparar com um surto grevista no sector público e uma pré-campanha eleitoral, dois acontecimentos que têm uma inegável relação entre si.

As greves atingem áreas tão distintas como a saúde, a justiça, os notariados, impostos e alfândegas. Isto é, praticamente todo o sector público. Foram agendadas para um momento em que termina a legislatura e estão eleições legislativas à porta. Trata-se, portanto, de uma pressão sobre o governo, na tentativa de conseguir cedências que o executivo negou, ao longo de quatro anos. E provavelmente vai continuar a negar, porque todas essas reivindicações implicam a libertação de muito dinheiro, o que não agrada ao ministro das Finanças.

Mário Centeno é inflexível e pouco lhe importa se, por exemplo, a ministra da Saúde ficar sem condições políticas para se manter no Governo na próxima legislatura. Centeno já acabou com Adalberto Campos Fernandes e não terá pejo em dar semelhante destino a Marta Temido.

Na Justiça e nas Finanças pode haver algumas cedências. No primeiro caso, porque Centeno já cedeu no plano financeiro, embora só contemplando os magistrados judiciais. No segundo caso, talvez aceite algumas reivindicações dos trabalhadores dos impostos, porque lhe interessa manter uma máquina que redobre a sua eficácia na cobrança fiscal.

Alguns comentadores atribuem esta onda de greves à agenda política do PCP, o que não é de todo verdade. Primeiro, porque o PCP não tem grande influência nos sindicatos da justiça, com a excepção dos funcionários judiciais. Assim como não tem qualquer influência no Sindicato Independente dos Médicos, manifestamente afecto ao PSD, e na maioria dos sindicatos dos enfermeiros. Em segundo lugar, porque o PCP tem consciência que as greves não dão votos e os comunistas precisam deles como de pão para a boca.

Todas estas paralisações são pressões de última hora na esperança de que o Governo ceda, com o objectivo de agradar a alguns extratos sociais.

Resumindo, as greves não dão votos. Mas as vitórias das greves podem atrair a simpatia de quem delas beneficia. Sendo assim, os promotores das lutas não retiram delas qualquer dividendo, mas quem satisfaz as reivindicações pode obter ganhos de causa.

E António Costa vai sentir-se tentado e satisfazer algumas destas reclamações sociais, porque acredita que pode vencer as legislativas do outono, com maioria absoluta. Nem ele, nem os dirigentes do PS usaram a expressão. Mas usam outras que são inequívocas, como “maioria inequívoca”, ou “maioria expressiva”. É provável que, daqui a umas semanas, se as sondagens deram sinais suficientemente positivos, o PS venha a falar mesmo em maioria absoluta.

Do outro lado, as coisas não correm muito bem. Rui Rio fez soprar uma imensa tempestade na composição das listas de candidatos. Muitas figuras conhecidas ficarão de foram, em nome da renovação e da “lealdade ao líder”.

Ele próprio não será cabeça de lista e colocou o seu nome, em segundo lugar, na lista do Porto. Em primeiro, surge um jovem praticamente desconhecido.

O mesmo se passa em outros círculos eleitorais e, por isso, se justifica que o PSD esteja já a lançar nomes de que a maioria do eleitorado nunca ouviu falar. Trata-se de uma decisão que comporta muitos riscos, porque vai acontecer nos círculos onde se situam mais de 60 por cento dos votos do PSD.

Os críticos internos estão à espera que se fechem as listas para depois atacarem o líder. Por enquanto, vão esperando, porque alguns deles, embora baixando de posição, ainda alimentam a esperança de um lugar elegível.

O primeiro lema desta campanha do PSD – “Agora Portugal” – parece viver de um equívoco. Fica a ideia que o PSD esteve convencido que iria ganhar as europeias e o “Agora Portugal” iria dar sequência a um ciclo de vitórias. Mas as coisas não correram bem nas eleições para o Parlamento Europeu e “Agora” também não se advinha nada de bom em “Portugal”. Parece que estamos perante um erro que, por inércia, ou qualquer outra razão, ninguém quis corrigir.

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