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Greve das mulheres. "Sabe bem ouvir as reivindicações em português"
Luxemburgo 7 min. 07.03.2021

Greve das mulheres. "Sabe bem ouvir as reivindicações em português"

Greve das mulheres. "Sabe bem ouvir as reivindicações em português"

Foto: DR
Luxemburgo 7 min. 07.03.2021

Greve das mulheres. "Sabe bem ouvir as reivindicações em português"

Ana TOMÁS
Ana TOMÁS
Inês Quiaios é lusodescendente e é ativista da Journée Internationale des Femmes (JIF), que organiza a segunda greve feminista no Luxemburgo. Sente que é uma privilegiada no meio de muitas mulheres e das mulheres lusófonas. Mas isso não a faz desmobilizar da luta por direitos iguais para todas (e para todos). Pelo contrário, como revela na entrevista ao Contacto, na véspera do protesto, marcado para esta segunda-feira, 8 de março, Dia Internacional da Mulher.

A greve das mulheres, que há alguns anos se realiza um pouco por todo o mundo no Dia Internacional da Mulher, 8 de março, acontece pela segunda vez no Luxemburgo, esta segunda-feira.

O ano que passou entre as duas greves foi marcado pela pandemia, mas, em vez de sair prejudicado, o movimento que as organiza - a plataforma Journée Internationale des Femmes (JIF) e que congrega várias organizações sociais, políticas e sindicais luxemburguesas -, viu juntarem-se novos elementos, sobretudo ativistas a título individual, entre as quais algumas mulheres de origem portuguesa, como é o caso de Inês Quiaios. 


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A segunda greve das mulheres realiza-se no próximo dia 8 de Março - Dia da Mulher - e reforça reivindicações que a crise da covid-19 tornou mais visíveis.

A jovem de 28 anos já nasceu no Luxemburgo e frequentou a Escola Europeia, tendo-se formado em Ciência Política e Relações Internacionais, na Universidade Livre de Bruxelas. Foi aí que o ativismo começou a ganhar forma.

"Inicialmente ia a manifestações sozinha (...) Mais tarde decidi juntar-me à COMAC, um círculo político da Universidade Livre de Bruxelas que mobiliza estudantes contra as injustiças sociais, económicas e políticas e que rejeita toda lógica racista, nacionalista e fascista da extrema direita", refere na entrevista ao Contacto, que pode ler abaixo.

A jovem, que defende o feminismo eco-socialista, orientado para os 99% da população, aderiu à JIF há quatro meses e é responsável pela produção do documentário “greve des femmes” ("greve das mulheres", em português), desempenhando várias tarefas na organização. Além do ativismo feminista, neste momento, Inês Quiaios faz também voluntariado para a Cruz Vermelha, a tempo inteiro.

Há quanto tempo aderiu à plataforma JIF? 
Aderi à plataforma por volta de novembro do ano passado. 

Inês Quiaios, ativista da JiF.
Inês Quiaios, ativista da JiF.
DR

 O que a fez querer juntar-se a este movimento? 
Juntei-me à JIF por acaso, depois de ter passado um ano a viver na Holanda e sabia que ia ter que voltar para o Luxemburgo porque não consegui arranjar emprego antes de acabar o meu estágio em Haia. Não me podia dar ao luxo de pagar renda sem ter arranjado emprego e então voltei para casa. Antes de me mudar, decidi procurar, na internet, ativistas no Luxemburgo. Precisava de me rodear de pessoas que ainda se preocupavam e acreditavam em algo. Fui dar a um artigo sobre uma ativista e sindicalista luxemburguesa. Contactei-a e decidimos organizar um jantar quando eu voltasse para o Luxemburgo. Falámos sobre feminismo, marxismo, sobre o 'Keeping up with the Kardashians' [o reality show sobre a família Kardashian], e de vez em quando víamo-nos de novo para falar sobre tudo. Até que ela perguntou se eu queria participar na organização da greve das mulheres e eu concordei, sem hesitação. Queria trabalhar e fazer parte de um movimento que se apoia mutuamente e é solidário com a causa dos trabalhadores. 

Sempre se interessou pelo ativismo feminista ou outro tipo ativismo?
Comecei a interessar-me pelo ativismo durante os meus estudos na universidade em Bruxelas. Inicialmente ia a manifestações sozinha, simplesmente porque o meu grupo de amigos não estava muito interessado em participar comigo e também porque, sendo estudante de ciência politica, achava que os meus estudos não faziam muito sentido sem o ativismo. A teoria tem que ser usada na prática. Mais tarde decidi juntar-me à COMAC, um círculo político da Universidade Livre de Bruxelas que mobiliza estudantes contra as injustiças sociais, económicas e políticas e que rejeita toda lógica racista, nacionalista e fascista da extrema direita. 

Que experiências já teve como ativista?  
Quando voltei ao Luxemburgo comecei a fazer ativismo para a Greenpeace porque acredito na necessidade de um feminismo eco-socialista. A luta pelas mulheres não faz sentido sem a luta ecológica. A crise ecológica reproduz e aumenta a opressão das mulheres que constituem 80% dos refugiados climáticos. De facto, são as comunidades pobres, e muitas vezes de cor, as mais afetadas pelo aquecimento global e estas comunidades são compostas maioritariamente por mulheres. No Sul do globo, as mulheres constituem a grande maioria da mão-de-obra rural e no Norte, as mulheres pobres de cor são desproporcionalmente vulneráveis. Por outro lado, são as mulheres que ocupam constantemente a linha da frente das lutas contra a catástrofe ecológica. 

Quais são as causas que a levam a empenhar-se no ativismo? 
As condições de trabalho e de vida dos 99%, a classe operária. Para melhorar as condições dos trabalhadores, acredito que é preciso criar um movimento transnacional feminista que inclui, nas suas reivindicações, igualdade salarial, redução de horas de trabalho remunerado e não remunerado, um alojamento digno e acessível, cuidados de saúde adequados e politicas favoráveis ao ambiente, porque são as mulheres as mais afetadas por estas questões. O objetivo, é que através do meu ativismo, com a ajuda das minhas camaradas, e o apoio dos movimentos feministas internacionais, possamos construir um movimento transnacional que defenda as necessidades e os direitos dos 99%. Os 99% incluem as mulheres da classe trabalhadora, as mulheres afrodescendentes e migrantes, as queer, trans, as mulheres deficientes, e as mulheres que se consideram como "classe média", mesmo quando são exploradas como todas as outras. 


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São vítimas de violência doméstica, trabalhos forçados, exploração sexual. Denunciaram os abusos que sofreram às autoridades, mas sentiram que o sistema luxemburguês as abandonou. Estas são histórias que não deveríamos ter de contar.

Como tem sido o seu envolvimento na plataforma JIF, desde que aderiu? 
Na JIF faço parte de vários grupos de trabalho, como o de comunicação, mobilização, logística e da rede internacional. 

Que tarefas tem numa estrutura como esta?
As minhas tarefas são diversas, ajudo onde for preciso. O que eu gosto realmente na JIF é facto de o trabalho mudar constantemente e das minhas camaradas confiarem em mim, mesmo quando se trata de fazer algo que nunca fiz antes, como por exemplo a moderação dos seminários online da JIF ou a produção do documentário sobre a greve. Tudo isso, não só me permitiu ganhar experiência em diferentes áreas, como também me dá mais confiança porque sei que os membros da JIF não só acreditam na minha capacidade a fazer um bom trabalho, como me ajudam e apoiam quando é necessário. Nunca me sinto sobrecarregada ou aflita nas minhas tarefas. 

Ainda sente algum tipo de limitação por ser mulher de origem portuguesa no Luxemburgo?  
Não sinto limitação alguma, mas estou consciente de que me encontro numa situação privilegiada. O problema é estrutural e o trabalho que estamos a fazer na JIF é uma forma de mostrar solidariedade com os trabalhadores que não estão em situação privilegiada e que não têm tempo para pensar em estratégias de mobilização, nem têm tempo para elaborar reivindicações, porque quando chegam a casa depois de um dia inteiro de trabalho só lhes apetece ligar a televisão e descansar. Não é preciso eu estar na posição destes trabalhadores para estar consciente do problema. Trata-se de falar sobre sectores considerados femininos, onde trabalhadores, muitos deles mulheres portuguesas, têm piores condições de trabalho e salário mais baixo do que trabalhadores que trabalham noutros sectores. 


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Maioritariamente desempenhado por mulheres, o trabalho de cuidar dos outros tem estado na linha da frente mas JIF reivindica mais valorização, a começar pelos salários.

Tem havido mais mulheres de origem portuguesa ou lusófona a aderir ao movimento?
Este ano, entre os novos membros da JIF, juntaram-se algumas portuguesas e acho que ajudou para mobilizar ainda mais a comunidade lusófona. Sabe bem ouvir as reivindicações e entrevistas com membros da JIF em português. É uma forma importante para incluir a maior comunidade de imigrantes no Luxemburgo.   

Que contributo espera que esta segunda greve e o trabalho da JIF dê à luta das mulheres, em especial das mulheres lusófonas? 
Espero que a greve comece um diálogo e sensibilize as pessoas para a causa feminista. Sei que a maior parte das mulheres se reconhecem nas reivindicações da JIF, e espero que a greve crie uma maior solidariedade entre mulheres e trabalhadores. Só unidos é que conseguimos atingir os nossos objetivos. 

Quais são as questões mais urgentes para resolver no Luxemburgo, no que respeita aos direitos das mulheres?
A redução do tempo de trabalho remunerado e não remunerado, a igualdade salarial, uma licença de paternidade para todos e um alojamento digno e acessível. São estas as principais reivindicações da plataforma porque, mesmo afetando todos os trabalhadores, tocam principalmente as mulheres e não haverá feminismo- igualdade social, económica e política entre homens e mulheres- sem ter havido primeiro um diálogo que procure soluções concretas para estas questões.

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