Escolha as suas informações

Greve das mulheres de 2021 quer reconhecimento de trabalho feminino
Luxemburgo 5 min. 08.01.2021

Greve das mulheres de 2021 quer reconhecimento de trabalho feminino

Greve das mulheres de 2021 quer reconhecimento de trabalho feminino

Foto: DR
Luxemburgo 5 min. 08.01.2021

Greve das mulheres de 2021 quer reconhecimento de trabalho feminino

Ana TOMÁS
Ana TOMÁS
Maioritariamente desempenhado por mulheres, o trabalho de cuidar dos outros tem estado na linha da frente mas JIF reivindica mais valorização, a começar pelos salários.

A plataforma Journée International des Femmes (JIF) realiza a segunda greve de mulheres, no Luxemburgo, a 8 de março de 2021, no Dia Internacional da Mulher.

 O foco das reivindicações volta a ser a necessidade do reconhecimento do trabalho de prestação de cuidados, pago e não pago, exercido maioritariamente pelo sexo feminino. Um trabalho que, segundo a organização, a pandemia mostrou ser imprescindível, por pertencer ao grupo das atividades da chamada linha da frente. “De repente, as pessoas perceberam que a nossa sociedade não pode funcionar sem trabalho de cuidados e que o trabalho é realizado principalmente por mulheres, que frequentemente são mal pagas por ele. Mas uma vez que o governo não tomou medidas concretas, a sensibilização para esta questão não tem sido tão sustentada como o previsto”, referem, ao Contacto, Inês Quiaios, Isabelle Schmoetten e Rosa Brignone, ativistas da plataforma.

A JIF quer que essa questão seja incluída de forma clara na agenda política e que receba a atenção devida e, por isso, insiste na “necessidade urgente de dados, tanto quantitativos como qualitativos, desagregados por sexo e outros elementos”, como tinha solicitado numa carta enviada ao Governo, em abril de 2020, e que juntou várias associações, onde se pedia a recolha de dados detalhados sobre as pessoas afetadas pela pandemia.

Contudo, a organização queixa-se de que a reivindicação não foi acolhida. “A nossa exigência de dados sobre a covid-19 e género foi rejeitada pelo primeiro-ministro, Xavier Bettel, e pelos outros ministérios que foram contactados pela plataforma”, dizem as ativistas que afirmam que a rejeição foi recebida com “choque”, dada a “enorme falta de dados” sobre aquelas duas variáveis. 

Por outro lado, assinalam que “desde julho que o Ministério da Igualdade tem um novo Plano de Ação Nacional para a igualdade entre homens e mulheres e onde se inclui a necessidade urgente de dados e também a vontade de analisar a dimensão de género do covid-19. No entanto, ainda não temos notícias do ministério sobre o assunto”, dizem, argumentando que o conhecimento desses dados permitiria identificar ações prioritárias e alocar-lhes recursos financeiros.

Mas se esses dados estão ainda por conhecer, em detalhe, no Luxemburgo, há um que começa a emergir nas análises globais e que indica que são as mulheres as mais afetadas pelo desemprego provocado pela pandemia. 

Mais uma vez, a plataforma aponta a falta de dados para avaliar o impacto da crise nos diferentes empregos da economia, e lembra que mesmo nos trabalhos em que as mulheres ainda mantém o seu emprego, sobretudo os da linha da frente, não há a valorização correspondente. “As enfermeiras e as senhoras da limpeza podem não ter perdido os seus empregos devido à grande procura desses serviços, no entanto o valor do seu trabalho não foi reconhecido em termos de melhores condições financeiras ou laborais. Tiveram de trabalhar mais horas, sob stress crescente e com maiores riscos para a saúde”.

Entre as medidas defendidas do caderno reivindicativo da plataforma está a “reavaliação significativa do SSM e das profissões que dele dependem” e que não deve continuar a ser adiada. Alerta-se ainda para o facto de “a semana de 60 horas com até 12 horas de trabalho por dia” ser cada vez mais “imposta a várias categorias de pessoal, particularmente no setor da saúde”.

Nos setores da Horesca e de eventos, “onde as mulheres tendem a estar mais representadas do que os homens” ou a trabalhar de forma independente, sobretudo as mais jovens, o desemprego feminino poderá também pesar mais.

O desemprego, total ou parcial, e a licença para a assistência aos filhos, nos confinamentos, têm voltado a remeter a mulher para o ambiente doméstico e feito soar alguns sinais de alarme em associações de defesa dos direitos das mulheres, um pouco por todo o mundo.

 Questionadas pelo Contacto sobre se a pandemia pode significar um retrocesso na emancipação feminina, as ativistas são cautelosas. “Essa pergunta é difícil de responder sem dados. Precisaríamos, por exemplo, de saber quantos homens e mulheres usaram o “congé partiel” por razões de cuidado infantil. Ouvimos falar de numerosos casos de mulheres que estavam encarregadas de todo o trabalho de cuidados domésticos, mesmo quando os seus parceiros masculinos estavam presentes em casa. Mas há muitos relatos de pais, que trabalham a partir de casa, em que o parceiro masculino se apercebe subitamente da magnitude do trabalho envolvido nos cuidados não remunerados e se torna mais envolvido do que é habitual. Pode ser uma via de dois sentidos”, consideram. 

Contudo, reconhecem que qualquer recuo na autonomia financeira das mulheres tem inevitavelmente um impacto nos seus direitos fundamentais e na sua proteção contra a violência, nomeadamente a doméstica, que em caso de confinamento corre o risco de se agravar. Apesar de os serviços que acompanham esses casos no país não terem registado um aumento significativo do número de pedidos de ajuda, relataram, segundo a JIF, que os casos recentes têm sido “muito mais graves do que os anteriores”.

Todas estas questões deverão ser trazidas à tona na próxima greve, que este ano está marcada para a mesma data em que se assinala o Dia Internacional da Mulher, 8 de março. A primeira, realizada a 7 de março de 2020, reuniu, de acordo com as contas da JIF, mais de duas mil pessoas nas ruas. Com os números da pandemia ainda elevados e a atual restrição aos ajuntamentos, o formato deste ano deverá estar dependente da situação epidemiológica nessa altura.

Siga-nos no Facebook, Twitter e receba as nossas newsletters diárias.


Notícias relacionadas