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Grande Entrevista: “Um dos grandes problemas da comunidade portuguesa é a falta de unidade”
Luxemburgo 8 min. 27.07.2017 Do nosso arquivo online

Grande Entrevista: “Um dos grandes problemas da comunidade portuguesa é a falta de unidade”

O cônsul Rui Monteiro chegou ao Luxemburgo em 2012 e sai agora para a Roménia.

Grande Entrevista: “Um dos grandes problemas da comunidade portuguesa é a falta de unidade”

O cônsul Rui Monteiro chegou ao Luxemburgo em 2012 e sai agora para a Roménia.
Foto: Chris Karaba
Luxemburgo 8 min. 27.07.2017 Do nosso arquivo online

Grande Entrevista: “Um dos grandes problemas da comunidade portuguesa é a falta de unidade”

O cônsul-geral de Portugal no Luxemburgo está de saída e fez um balanço sobre mais de cinco anos em funções.

O cônsul-geral de Portugal no Luxemburgo está de saída e fez um balanço sobre mais de cinco anos em funções. Rui Monteiro falou com o Contacto sobre os projetos feitos, as resistências encontradas, sobre a comunidade portuguesa e sobre o trabalho das associações.

Contacto - Qual o balanço que faz do seu mandato aqui no Luxemburgo?

Rui Monteiro - Acho que é positivo, mas os utentes é que me deverão julgar. Cheguei em 2012 e assumi, pela primeira vez no historial, uma dupla função, em plena crise económica e financeira. Na altura havia alguns cortes e encontrei uma situação um bocadinho difícil aqui.

Em que sentido?

No sentido em que o consulado era muito falado, nem sempre pelas melhores razões, com rumores até de que iria fechar. E com a situação que não era segredo para ninguém em que as pessoas vinham para aqui de madrugada e esperavam – eu vi essas filas – e muitas vezes sem garantia de que iriam ser atendidos. Aqueles que chegavam já mais perto das sete, oito horas, já não tinham garantias de que iam ser atendidos.

Por que é isso acontecia?

Era o sistema por ordem de chegada. E quando há muita gente e com um pequeno número de funcionários, é uma simples operação aritmética, uma vez que os funcionários têm o seu horário de trabalho. Esse era o primeiro desafio.

Foi aí que introduziu o atendimento por marcação?

Sim, penso que a maioria estará de acordo que é mais prático vir com hora marcada e estar aqui 15 a 20 minutos do que passar aqui uma manhã ou um dia inteiro. Não inventei a pólvora, mas tive muitas resistências. Só que era desconfortável para os utentes, e era também uma questão de imagem perante o público luxemburguês. Este local é ponto de passagem habitual – incluindo de políticos luxemburgueses – que reparavam que havia sempre grandes filas de espera aqui, às vezes com alguns fenómenos de pressão. As pessoas estavam aqui ao frio há horas, em pé, a chover. A pressão sobe e uma certa agressividade também. Não era bom nem para os utentes nem para os próprios funcionários.

Qual é agora o tempo médio de espera dos agendamentos?

Um mês e dez dias.

Considera este tempo adequado?

É um tempo um bocadinho elevado para o meu gosto. Mas não é muito elevado em termos comparativos com outros consulados. Não há muita gente a entrar na Função Pública. As pessoas saem e não são substituídas. Só em situações pontuais é que há reforços. Enquanto aqui estive tivemos dois concursos para assistentes técnicos e tive a sorte de contar, desde novembro passado, com uma chefia intermédia. Desde que se reformou o meu vice-cônsul, em 2013, estive cerca de três anos sem qualquer chefia intermédia.

São precisos então mais funcionários para se poder reduzir o tempo de espera...

Seriam bem-vindos, tendo em conta que a população portuguesa aumentou. Temos mais de 130 mil inscritos, mas esse número pode não ser o exato: alguns faleceram e muitos vão embora sem passarem por aqui. Por isso é que digo que talvez tenhamos – com pura estimativa – cerca de 110 mil portugueses inscritos.

Portanto teria de haver um reforço de funcionários... Ou como é que se pode reduzir este tempo de espera?

Gostaria de ter mais [funcionários], mas por vezes bastaria que estivessem todos. Não tem sido raro ter duas, três pessoas de baixa ao mesmo tempo e depois quando se juntam também as que estão de férias é mais difícil. Neste momento, temos só duas pessoas no atendimento, no pomposamente chamado ’call center’, mas que é uma salinha pequenina – uma central de chamadas – onde atendem os telefones de manhã e respondem aos mails da parte da tarde. Foi bom termos já uma chefia intermédia. Estive três anos sem uma, tive de assinar grande parte dos atos consulares, trabalhando ao mesmo tempo na embaixada, coisa que os meus antecessores não tiveram de fazer, celebrando perto de 300 casamentos em cinco anos. Celebro mais casamentos do que os padres [risos]. Não tem dificuldade, mas demora sempre algum tempo. Podemos gerir com o número atual de funcionários, claro que a situação é mais problemática quando há faltas. E depois a outra situação: nas férias, em que as pessoas reparam que não têm os documentos em dia. Não são raras as situações em que as pessoas me telefonam a dizer que vão de férias e precisam de um passaporte e que também não têm o cartão de cidadão. E depois a mulher e os filhos também não. Multiplique por cinco: se cada um destes atos demora 15 minutos a fazer, portanto, temos para uma família um pouco mais de uma hora para tratar.

E as permanências consulares?

As permanências foram feitas para países de grande dimensão e adaptámo-las a um país de pequena dimensão. Eu tenho colegas que apanharam um avião para irem fazer uma permanência consular. Aqui não, já fomos uma ou outra vez à longínqua Troisvierges, à longínqua Wiltz [risos]. O duplo interesse que é: as pessoas gostam que as visitem e localidades como Ettelbruck, Diekierch, Esch, La Rochette, já quase estão institucionalizadas. Porque têm um ritmo de adesão ou muito aceitável ou mesmo grande. Depois vamos fazendo também algumas cortesias, que são pedidas pelas comunidades locais. Temos várias permanências que são feitas nas comunas ou nas instalações por elas cedidas. Isso também é uma forma de o consulado cooperar com as entidades autárquicas e de levar portugueses às comunas, onde pode haver também assuntos de interesse e outros a nível de integração. Em Differdange, por exemplo, achámos muito bem que se fizesse no 1535 [antigo espaço da ArcelorMittal convertido em ’hub’ criativo]. Também é uma forma de chamar os portugueses a instituições luxemburguesas e de haver alguma coisa diferente. Já vi eventos excelentes, mas também já vi eventos só com portugueses e fico um bocadinho triste. Culpas, provavelmente dos dois lados que não se querem misturar, mas já vi também onde estão juntos e às vezes pequenas iniciativas que acho que se deviam multiplicar. Muitas vezes, as permanências consulares também têm essa função, que é a de juntar.

Falou nalguma resistência à mudança. Quais foram as principais dificuldades que sentiu ao longo destes anos, além desta falta de pessoal que referiu?

Bom, para já, tive muitos apoios. Tenho estado com pessoas amigas, incluindo e em primeiro lugar da comunidade portuguesa. Até aumentei uns quilitos, já tinha perdido bastante e voltei agora a aumentar um bocadinho. Tenho estado a almoçar e a jantar estes dias praticamente quase todos e fico muito grato, e são pessoas que me apoiaram nos tempos difíceis. Como costumo dizer, os amigos vêem-se nos tempos difíceis e quando se faz uma mudança sabemos que vai doer. Portanto, quando estamos a instaurar um novo sistema, basta ver o que está a acontecer: outros postos espalhados pela Europa estão a instaurar o regime de marcações prévias. Mas, nós, portugueses gostamos muito de criticar, eu não escapo, também sou português. Somos tudo em “-inho”: somos uns coitadinhos, somos uns pobrezinhos, isto também na vida aqui no Luxemburgo, o que não quer dizer que num ou noutro caso não tenham razão. E depois as culpas: quem é que tem culpa e não a busca pela solução. Depois, dificuldade em chegar até às pessoas. Tive de alguns órgãos de comunicação muito boa colaboração e de outros francamente má. Esse sistema de marcações prévias, começámo-lo do zero. A atender telefones, a fazer umas marcações, arranjando uns programas ainda rudimentares, havendo confusões. Atirem-me a primeira pedra, quem é que nunca falhou nisso. É uma coisa que demora pouco mais de um ano a ’mettre au point’. Logo nos primeiros dias tivemos cerca de duas mil chamadas telefónicas, com duas pessoas a atender. Há outra coisa: já havia estudos no Luxemburgo que indicavam que mais de 90% das pessoas, incluindo portugueses, tinham acesso direto ou indireto à informática, nomeadamente aos emails. E, por isso, também apostámos nisso. De vez em quando, também tenho de chamar alguém porque não sei como se faz determinada coisa no computador. E as pessoas têm sempre um filho, um neto – os miúdos hoje em dia sabem tudo – e apostamos muito nos emails. E um dia mais tarde virá a possibilidade de se fazer marcação via Internet, continua a haver uma evolução. O que acontece é que muitas vezes as pessoas dizem: “eu não sei mexer nisso [computador]”. Então esforçe-se: há sempre um vizinho que sabe. As próprias comunas davam apoio às pessoas que quisessem, e por que motivo é que as associações não podem ajudar? Há pessoas que chegaram e que nos diziam que não sabiam enviar um mail. Azar, eram pessoas conhecidas e que passam o dia no Facebook... Por outro lado, tive uma vez alguém que me perguntou como é que se escrevia arroba (@). Aí, eu disse, deixe estar que eu trato disso. Ou seja, também não somos uns monstros.

Com que imagem é que fica da comunidade aqui no Luxemburgo?

Comunidade bem vista em geral, muito trabalhadora, honesta. Não quer dizer que não haja de vez em quando aqueles casos de exploração de portugueses por portugueses. Nem todos se enquadram nessa honestidade, infelizmente. Mas em relação aos grandes problemas, um dos principais é a falta de unidade. E outra coisa, há um certo alheamento, não é por maldade, provavelmente está-nos no sangue. E hoje é um dia particularmente triste porque era o fim do prazo para as inscrições nas comunas [a entrevista foi feita a 13 de julho], para o recenseamento para o voto nas eleições comunais de 8 de outubro.

Paula Cravina de Sousa

(Leia a versão integral da entrevista na edição desta semana do Contacto)

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