Escolha as suas informações

Gonçalo Gomes (PAN). “Nunca conheci um único ser humano bom que fosse mau para os animais”
Luxemburgo 11 min. 03.10.2019 Do nosso arquivo online

Gonçalo Gomes (PAN). “Nunca conheci um único ser humano bom que fosse mau para os animais”

a

Gonçalo Gomes (PAN). “Nunca conheci um único ser humano bom que fosse mau para os animais”

a
Luxemburgo 11 min. 03.10.2019 Do nosso arquivo online

Gonçalo Gomes (PAN). “Nunca conheci um único ser humano bom que fosse mau para os animais”

Telma MIGUEL
Telma MIGUEL
Nasceu há 33 anos em Lisboa, filho de pai minhoto e mãe beirã. Esteve dois anos e meio no serviço militar, tempo durante o qual também estudou, primeiro Letras, depois Direito, tendo sido aluno de Marcelo Rebelo de Sousa. Foi gestor numa cadeia de hipermercados. Há cinco anos achou que, “antes dos trinta” era o momento ideal para ter a experiência de viver no estrangeiro.

Como é a sua experiência de emigrante?

Vim para Berlim porque conhecia pessoas que cá estavam mas não tinha propriamente um plano, uma casa, emprego. Hoje percebo que é má ideia sair sem um plano. Cada pessoa tem a sua própria experiência de sair do país, a minha foi péssima no início. Passei por imensas dificuldades no primeiro ano, não conseguia arranjar casa, trabalho, tinha dificuldades de integração, o problema do idioma... Mas visto de longe, foi uma experiência extremamente importante, uma lição de humildade. O meu primeiro emprego na Alemanha foi nas limpezas, foi o trabalho que tive durante um ano e, surpreendentemente, não fui despedido, apesar de ter pouco jeito. E também aprendi nesse primeiro ano a importância da coletividade, da entre-ajuda e do papel das comunidades portuguesas. Aos portugueses que conheci aqui devo tudo e é muito por isso que me sinto na obrigação de trabalhar pelas comunidades e de tentar melhorar a vida de quem vive longe de Portugal. Faz em janeiro cinco anos que vivo em Berlim, trabalho num banco alemão que passou de ser uma startup para se tornar uma empresa em grande desenvolvimento. Se for eleito em outubro irei trabalhar em exclusivo para servir os portugueses e irei assumir essa responsabilidade com muita honra e dedicação.

Qual a sua relação com Portugal? Estando à distância, a sua perspectiva do país mudou?

A relação que tenho hoje com Portugal é muito mais intensa do que a que tinha antes de sair. Gosto muito mais do país, sinto falta das pessoas e de uma certa portugalidade difícil de definir em palavras. Por outro lado, estar longe permite-me olhar para o país com outra perspectiva. Eu sei que é um lugar-comum e é dito muitas vezes, mas Portugal é um país com um potencial fora de série e teríamos tudo para ser um dos melhores países da Europa e do mundo para se viver. Temos tido demasiada gente má nos sucessivos governos, maus governantes e muitas vezes também maus em termos de caráter, e por mais que nos custe aceitar, cada um de nós tem uma certa culpa nisso. Somos pouco exigentes, somos demasiado conformistas e não participamos na democracia como devíamos. O caso dos deputados eleitos pelas comunidades portuguesas a viver fora de Portugal é um bom exemplo. Há cerca de ummilhão de portugueses a viver fora de Portugal, no espaço europeu, mas os deputados “escolhidos” por nós foram eleitos com cerca de 5 mil votos cada um. É um facto que o sistema em si está feito para perpetuar a eleição sistemática destas pessoas, para que continuem a bater recordes e ultrapassem em breve a barreira dos 20 anos na mesma posição no parlamento.

Porque aderiu ao PAN?

Tornei-me membro do partido em Agosto de 2011, mas já tinha andado a recolher assinaturas para a sua criação dois anos antes. Já era profundamente dedicado à causa animal e foi o facto de ser o único partido a defender abertamente os direitos dos animais que me fez querer fazer parte. Recordemo-nos que há seis ou sete anos qualquer pessoa podia matar um cão à paulada sem que existisse punição por isso. Mas a verdade é que o PAN tornou-me também um humanista e fez-me abraçar a causa ecológica. Existe muito estereótipo em relação ao PAN e à ideia de que há um animalismo que procura elevar os animais à posição das pessoas e isso não é de todo verdade. A economia usa recurso finitos; para dar a um lado é preciso tirar a outro. Não há finitude nos direitos e no reconhecimento da dignidade intrínseca de pessoas e de animais. Reconhecer o direito de um animal a ser tratado com dignidade não retira dignidade à pessoa, antes pelo contrário, eleva-a e torna-a melhor. Ao longo da minha vida nunca conheci um único ser humano bom que fosse mau para com os animais. Foi também graças ao PAN que me tornei ecologista e sinto-me muito orgulhoso de fazer parte de um partido que usa esta bandeira nas suas causas.

Acredita que pode ser eleito?

A minha eleição é possível, basta pensar que o segundo deputado eleito pelo círculo Europa nas últimas eleições teve 4081 votos. Se existir mobilização por parte dos portugueses a viver fora de Portugal, a mudança pode acontecer. Se a abstenção continuar a passar a barreira dos 95%, será difícil alterar o quadro político atual.

Os políticos em Portugal esquecem-se dos portugueses que residem fora das fronteiras?

Vão-se lembrando. Nas alturas em que precisam das remessas de emigrantes e de investimentos para combater a crise, lembram-se cada vez que querem chorar as centenas de milhares de pessoas que saíram nas últimas décadas e lembram-se no período de campanha eleitoral. Fora isso, não há interesse por parte da classe política nas comunidades portuguesas. Para dar um exemplo, eu vivo num país que tem educação gratuita da creche à universidade. Um português que queira colocar os filhos a aprender língua portuguesa através do Estado português paga mais de propina para este estudo do que paga em todo o restante percurso escolar. Esta é apenas uma de várias faltas de consideração, mas existem mais e já temos a garantia que com o próximo mais do que provável governo, nada se irá alterar.

Como é a vida de um emigrante na Alemanha, ou em Berlim, mais concretamente? São discriminados?

Nunca senti discriminação negativa, pelo contrário. Os portugueses têm uma boa reputação e, para além disso, as muitas pessoas que visitam Portugal voltam com uma ideia agradável de nós. Senti muitas vezes o “gelo alemão” quebrar-se quando me apresentei como português, mas tenho a perfeita noção que a discriminação existe mas não senti isso em Berlim e não senti como português. Julgo que a integração da comunidade portuguesa tem resultado ao longo dos anos e isso reflete-se na importância que temos nos países onde estamos. Existem obviamente problemas e pessoas com dificuldades mas há muita entre-ajuda e compaixão. A nova geração de portugueses em Berlim integrou-se de uma forma que muitas vezes se confunde com a própria população local. Berlim é também um sítio muito especial.

Qual é a sua perspectiva dos refugiados na Europa, uma vez que também trabalha no apoio a migrantes?

Este é um tema muito extenso. Quando falamos em refugiados estamos a falar de pessoas que tiveram que sair da Somália para não terem que vender os seus filhos como crianças-soldado a exércitos de mercenários. Falamos de sírios que ao fugirem com as suas famílias de uma guerra que não quiseram, foram considerados desertores e nunca mais poderão regressar enquanto o Bashar al-Assad estiver no poder, sob pena de serem presos e torturados. Falamos de iranianos que fugiram do seu país e muitas vezes das suas próprias famílias, pelo crime de amarem alguém que a sociedade entende que não devem, e podíamos continuar porque as histórias são imensas. Eu estive ainda há pouco tempo em Portugal. Há escolas primárias abandonadas, edifícios devolutos, terrenos ao abandono. Isto para dizer que temos demasiado para negar a quem não tem nada. Eu gostava que deixássemos cair este conceito abstrato de “refugiados” e imaginássemos estas histórias.

Como é a situação na Alemanha, o país onde a pressão do acolhimento de migrantes se faz sentir muito?

A Alemanha recebeu demasiada gente ao mesmo tempo e acabou por colocar as pessoas de forma demasiado concentrada geograficamente. Isto trouxe consequências sociais, políticas e até dificuldades na própria integração de quem chegou. Talvez não pudesse ter sido de outra forma, pelas circunstâncias da altura, mas pelo menos em teoria, julgo que se podia ter feito de melhor maneira. Há países na Europa, como por exemplo Portugal, que não receberam um número adequado de refugiados e com o apoio da União Europeia o número podia ter sido ajustado. Aqui na Alemanha a extrema-direita tem crescido mas a resistência anti extrema-direita tem também acompanhado essa tendência de crescimento.

Quais são as propostas do PAN para os emigrantes portugueses na Europa?

Há três áreas que para mim são fundamentais e que serão parte do meu trabalho ao longo dos quatro anos no parlamento 1)A modernização e facilitação de processos fazendo com que a internet assuma um papel cada vez preponderante na gestão da burocracia. Uma aplicação para marcar as visitas aos consulados, e informações, emissão de certidões online e outros serviços em todos os consulados. 2)O ensino e promoção da língua portuguesa através de ensino presencial gratuito e de qualidade e também uma plataforma de e-learning, adaptada a vários níveis, que possa servir de complemento ou apoio para os alunos e onde também possa ser dada educação cívica e ambiental. Um sistema tipo universidade aberta aplicado a crianças e jovens. 3)O fomento da atividade cívica, económica e associativa emigrante, promovendo mais autonomia e proximidade com os deputados eleitos e a apresentação de uma proposta que crie mais benefícios fiscais para os emigrantes que queiram investir em Portugal e criar postos de trabalho.

O que defende o PAN para a Europa?

Reforçar a influência da União Europeia na concretização de metas comuns mais ambiciosas para uma transição social e económica que priorize o combate às alterações climáticas, a preservação da biodiversidade, a defesa do Estado de Direito e dos Direitos Humanos. Queremos que os fundos europeus, até agora direcionados a indústrias altamente poluentes, como as ligadas aos combustíveis fósseis e à produção pecuária, sejam alocados à implementação de uma Estratégia Europeia para a Agricultura Biológica. Há também o desejo de pôr fim aos paraísos fiscais dentro da UE e reforçar a fiscalização destes espaços fora da Europa quando transacionam com o Espaço Económico Europeu e só para mencionar mais uma medida de muitas que temos no nosso programa, queremos trabalhar para encerrar centros de detenção de migrantes fora da UE, garantindo uma ação concertada de Portugal e da UE na gestão ética e humanitária de fluxos de migrantes e de refugiados

O PAN tem sido acusado de ter para Portugal um conjunto de propostas inconsistentes ou radicais, nas medidas para combater as alterações climáticas e na defesa dos animais. O que carateriza no momento o partido?

Há um grupo de pessoas que é publicamente a favor do combate às alterações climáticas mas que se recusa a mudar 1% que seja da sua vida para participar nessa luta. Na maioria dos casos o problema delas nem é com o PAN, é mesmo um estado de negação que lhes afeta a consciência e se materializa na figura do partido no parlamento, que mais se tem batido pela causa ecológica. Se alguém pensa que é possível mudar, continuando a fazer tudo igual, está completamente enganado. Por outro lado, o facto do PAN estar contra os interesses de lóbis influentes, como a exploração de petróleo na costa portuguesa ou contra a tauromaquia e esse espetáculo degradante que é a tourada, trouxe-nos muitas inimizades. Na semana passada, todos os programas de comentário político que vi, gastaram pelo menos um terço do seu tempo a atacar o PAN. O PAN tem um deputado em duzentos e trinta. Com uma expressão eleitoral tão pequena (1/230) entende-se este constante tiro ao alvo? Há interesses que ultrapassam a questão política.

Quais são as vossas ideias para Portugal?

Apesar de tanto tempo de exposição, pouco se fala das propostas no nosso programa eleitoral e eu vou citar algumas: Criar a Secretaria de Estado para a Terceira Idade; Alojamento de emergência para pessoas em situação de sem-abrigo em todos os distritos; criar o Plano Ferroviário 2035 que ligue todas as capitais de distrito; benefícios fiscais para empresas que previnam o desperdício alimentar; incentivos financeiros, fiscais e sociais a quem pretenda instalar-se como agricultor biológico; “deseucaliptar” Portugal.; Regime de exclusividade dos médicos no SNS; tribunais especializados em crimes de corrupção e de violência doméstica; regime de exclusividade para os deputados.

Como vê a possibilidade de o PAN fazer uma coligação para formar governo com o PS?

O PAN tem tido uma atitude permanente de diálogo com todos os partidos e é isso que se espera na próxima legislatura. O nosso foco será na execução do nosso programa político no parlamento e tudo o resto é apenas especulação. Não creio que haja quer da nossa parte, quer do partido Socialista, qualquer interesse na formação de um governo conjunto.

Siga-nos no Facebook, Twitter e receba as nossas newsletters diárias.


Notícias relacionadas

Mélissa da Silva (CDS/PP). “Tenho a experiência das discriminações de que são alvo os cidadãos residentes fora do território nacional”
Mélissa da Silva nasceu em Paris, filha de portugueses de Viana do Castelo, há 28 anos. É licenciada em Marketing e Relações Públicas e está a trabalhar na área do marketing. Prefere não expor aspetos da sua vida pessoal. Defende a sua convicção de que é possível fazer muito mais pela comunidade portuguesa no estrangeiro. Para Mélissa da Silva, o fato de ser ela própria filha de emigrantes, e sempre ter vivido entre França e Portugal, dá-lhe uma perspetiva sobre viver no estrangeiro que os outros candidatos não terão. Por falta de disponibilidade para uma conversa telefónica, a candidata do CDS às eleições legislativas do próximo dia 6 de Outubro preferiu dar entrevista por email. Daí as suas respostas serem muito mais sucintas que as dos outros entrevistados, fato a que o Contacto é alheio.
António Gamito, novo embaixador de Portugal: "Votar nas comunais já é um passo importante"
Recém-chegado ao Grão-Ducado, mas com muita experiência internacional, António Gamito não considera que o voto nas legislativas para os estrangeiros seja um tema do momento. Quanto à questão da indexação salarial para os funcionários, refere que vai “tentar resolver com Lisboa”. E, além da proximidade que pretende manter com a comunidade portuguesa, vem preparado para reforçar o relacionamento bilateral.
Entrevista a Fernando Santos: “Um emigrante vive Portugal de modo mais intenso”
Fernando Santos recorda a felicidade após ser campeão europeu, mas fala também dos seus tempos de emigrante e de como o país é vivido nessa condição. Elogia Marcelo, o Papa, Ronaldo e muitos portugueses espalhados pelo mundo. Quanto ao Mundial, mantém o discurso cauteloso e rejeita menosprezar Espanha, Marrocos e Irão, adversários iniciais na fase de grupos.
Fernando Santos em entrevista ao Contacto.
Lição n°4: Há 2.781 alunos inscritos nas aulas de português
Há 2.781 alunos inscritos nas aulas de Português no Luxemburgo para o ano lectivo 2016/2017, 1.536 no ensino integrado (na escola pública luxemburguesa) e 1.245 no ensino paralelo, segundo dados avançados ao CONTACTO por Joaquim Prazeres, responsável pela Coordenação do Ensino do Portugês no Grão-Ducado.
A poucos dias do início das aulas estavam inscritos 1.536 alunos nos cursos integrados de português e 1.245 nos cursos paralelos