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Germaine e Ferdinande. Como as primas judias sobreviveram ao Holocausto e se reencontraram no Luxemburgo
Luxemburgo 8 min. 15.02.2020

Germaine e Ferdinande. Como as primas judias sobreviveram ao Holocausto e se reencontraram no Luxemburgo

Germaine Goldberg, Rachel Wolf e Ferdinande Altmann-Kleinberg.

Germaine e Ferdinande. Como as primas judias sobreviveram ao Holocausto e se reencontraram no Luxemburgo

Germaine Goldberg, Rachel Wolf e Ferdinande Altmann-Kleinberg.
Foto: Paula Santos Ferreira
Luxemburgo 8 min. 15.02.2020

Germaine e Ferdinande. Como as primas judias sobreviveram ao Holocausto e se reencontraram no Luxemburgo

A inauguração da exposição ’The Last Swiss Holocaust Survivors’, no Grão-Ducado, voltou a juntar as duas familiares, de 97 e 92 anos. Ao Contacto, recordaram os tempos de horror de guerra e do nazismo.

Ana Tomás e Paula Santos Ferreira

A exposição "Portugal e Luxemburgo - Países de Esperança em Tempos Difíceis" é antecedida por uma pequena mostra fotográfica, intitulada 'The Last Swiss Holocaust Survivors', patente também na Abbaye de Neumünster. 

Entre os retratos que a compõem está o de Germaine Goldberg - Abraham. Nascida no Luxemburgo em 1923, tinha 17 anos quando deixou o seu país ocupado pelos alemães e partiu no comboio que ficou retido em Vilar Formoso. De Portugal, Germaine deveria ter seguido para Cuba, mas o regresso forçado do comboio levou-a de volta a França, de onde a composição tinha partido e onde ficou cerca de dois anos até conseguir fugir para a Suíça com a mãe. 

 Hoje, com 97 anos, volta ao Luxemburgo para inaugurar estas duas exposições e dar o seu testemunho ao vivo, com o apoio dos filhos que a ajudam nas histórias que lhes contou e que a sua memória já não consegue recuperar com exatidão. Contudo, uma das que ainda guarda com precisão é a essa viagem e todo o processo entre o regresso do comboio e a sua derradeira fuga para a Suíça, onde ficou a viver. 

"A minha mãe deixou o Luxemburgo no dia 7 de novembro, num comboio acompanhado por dois soldados da Gestapo, juntamente com outros 293 judeus, incluindo alguns membros da sua família, mas sem a sua mãe. 


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 A 12 de novembro chegaram à fronteira portuguesa em Vilar Formoso, onde as autoridades portuguesas não lhes permitiram continuar a viagem.", partilhou ao Contacto, o filho, Daniel Goldberg, no âmbito da inauguração da exposição 'The Last Swiss Holocaust Survivors', no passado dia 6 de fevereiro. 

Germaine Goldberg-Abraham transmitiu, com detalhe, aos seus descendentes, os 10 dias em que esteve retida no comboio e o que aconteceu quando regressou França. "A Cruz Vermelha e a população local forneceram-lhes comida e água. Mas após uma semana de conversações, tiveram de voltar para França e, depois de alguns incidentes, acabaram por ser colocados numa antiga fábrica têxtil em Mousserolles (em Bayonne)". 

Daniel Goldberg explicou que, apesar de tudo, esses meses não foram traumáticos para a mãe."Nessa altura, ela tinha 17 anos e, daquilo que me contou, não lhe foi muito difícil, nem dramático, porque era jovem e não sabia bem o que se estava a passar na Europa". 


Contacto, Panorama, Abtei Neumünster, Ausstellung Portugal und Luxemburg, Grossherzog Henri bestaunte die Ausstellung, Foto : ANOUK ANTONY/LUXEMBURGER WORT
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Depois de sair de Mouserrolles, Germaine começaria então o percurso que culminaria com a sua saída para a Suíça. Primeiro, seguiu para Lyon para se juntar à sua tia Elsa e aos primos Ferdinande e Marcel. Ficou com eles até ao final de janeiro de 1941, cerca de nove meses antes de começarem as deportações dos judeus para os campos de concentração no Leste da Europa. 

Em maio desse ano, rumou para Limoges, onde vivia o pai, mas que, segundo Daniel, "não conseguia tomar conta dela", por isso Germaine acabaria por viver "durante um ano num internato judeu, onde estudou costura, desenho, francês ou aritmética". Foi nessa altura que a sua mãe, avó de Daniel Goldberg, foi ter com ela e que as duas deram início à fuga de França. "Em maio de 1942 deixaram Limoges e mudaram-se para um sanatório em Hauteville. 

Depois tentaram a sorte, fizeram-se às montanhas e atravessaram a fronteira suíça, a 3 de outubro de 1942. Na manhã seguinte chegaram a solo suíço, perto de Vouvry". Na altura, a Suíça negava a entrada a refugiados, especialmente judeus, e foram essas as ordens que o guarda de fronteira seguiu, dizendo-lhes que voltassem para trás. Até hoje, Daniel Goldberg não sabe exatamente como elas conseguiram passar. "Sei apenas que a minha avó lhe disse que não, que não podia, que não ia voltar. E o guarda acabou por deixar que elas entrassem". 

Depois disso, ficaram em vários centros de acolhimento de refugiados até se estabelecerem permanentemente. "Finalmente, conseguiram ser recebidas numa cidade perto de Zurique. Havia um deputado do Conselho Nacional que era muito ativo na defesa dos refugiados e conseguiu tirá-las do campo de refugiadas. A minha mãe conseguiu terminar o liceu e depois foi para Zurique estudar", contou Daniel Goldberg. 

Quando a guerra terminou, a avó voltou para o Luxemburgo, mas Germaine permaneceu na Suíça onde se casou, teve filhos e trabalhou como assistente social. "Não sei se há uma relação direta entre o que ela passou e a escolha dessa profissão. Mas na família, e pela nossa maneira de ver as coisas, gostamos de ajudar os outros". 

Germaine chegou a falar em escolas sobre a sua experiência enquanto jovem refugiada, tal como acaba por fazer nestas exposições que a trazem de novo ao Luxemburgo, o seu país, ao qual regressou regularmente até ao final dos anos 1970 para visitar a mãe. "Ela diz a toda a gente que esta é a sua terra. E nunca esqueceu o luxemburguês, ainda fala a língua. Agora, quando começámos a falar desta viagem, disse-me que queria ver outra vez os sítios da sua infância, a casa dos seus avós - que já não existe, mas de que fala sempre, porque era muito ligada aos avós -, a escola, o conservatório, que ela costumava frequentar... Com esta viagem todas essas recordações regressaram à memória." 

Além de reavivar lembranças, a inauguração da exposição 'The Last Swiss Holocaust Survivors' foi também o pretexto para Germaine rever familiares espalhados por vários países. Entre eles, a prima Ferdinande, com quem ficou alguns meses em Lyon e com quem não estava há vários anos. "Esse período marcou a minha vida”, recordou ao Contacto. 


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Aos 92 anos, Ferdinande Hannah Altmann-Kleinberg, lembra-se da época da Segunda Guerra Mundial como se fosse hoje, desfiando com clareza a história desses anos, feita de separações, viagens, esconderijos e “muitos episódios agonizantes”. 

O primeiro aconteceu ainda em agosto de 1939, quando foi com a mãe passar as férias de verão a casa da avó materna, no Luxemburgo. “Assim que chegámos, recebemos um telegrama do meu pai, que tinha ficado em Lyon, a pedir para que voltássemos de imediato para casa, porque a Alemanha tinha acabado de declarar guerra”, recorda. "Foi a última vez que vi minha avó. Quando nos despedimos, ela disse a chorar que nunca mais nos veria. A minha mãe tentou acalmá-la prometendo-lhe que, se minha avó quisesse, poderia vir morar connosco em Lyon”. 

A avó, viúva, preferiu ficar no Grão-Ducado. Já com ocupação alemã em França, Lyon torna-se "particularmente perigosa", acolhendo um dos mais brutais oficiais das SS, Nikolaus Barbie, que ficou conhecido como o "carniceiro de Lyon", pela forma como torturava os seus prisioneiros. Temendo pela vida da sua família, os pais de Ferdinande decidiram deixar Lyon e instalar-se na ‘zona livre’ e mais segura de Savoie. “Encontrámos um refúgio na aldeia de Saint Jean d’Arvey, a 70 km de Chambéry, onde nos fizemos passar por ser turistas em férias, para não chamar a atenção”. 

Ferdinande continuou os seus estudos, no Liceu de Jeunes Filles de Chambéry. “Na segunda escola secundária de Chambéry, fui registada sob identidade falsa” sem os apelidos “comprometedores”. 

Mas foi aí que Ferdinande viveu um dos maiores sustos da sua vida. "Um dia, quando estávamos a sair da escola para ir para casa, vi dois homens do lado de fora a observar os alunos a sair". Antes de atravessar o portão da escola, Ferdinande parou e começou a recuar lentamente, até se conseguir misturar "na multidão dos estudantes que corriam para a saída, mas caminhando em sentido contrário”. 

Escondeu-se numas casas de banho, no fundo do pátio e ali ficou várias horas até ao anoitecer. Até já não ouvir nenhum barulho. “Quando voltei ao pátio encontrei a supervisora geral que me disse que não deveria voltar em circunstância alguma, que seria muito perigoso. Mas não me disse mais nada”. Já em casa, soube que os homens tinham levado as outras estudantes judias e que estas tinham sido "mais tarde foram deportadas para Auschwitz”. Há dez anos, porém, descobriu que uma delas conseguira sobreviver. 

Ferdinande, por sua vez, escapou com a família, refugiando-se na casa da aldeia de Jean d’ Arvey. Foi “onde esperámos pelo fim da guerra” e "vivíamos com medo constante”, sempre em alerta. Mesmo assim disse ter havido alturas em que se sentiu de "férias de verdade". "Aprendi a esquiar e ensinei o meu irmão e, de quando em quando, íamos visitar os fazendeiros mais distantes para trazermos alimentos para casa. Havia severas restrições alimentares nas cidades naquela época. No campo, éramos menos privados”. 

Depois de dois anos de “vida escondida”, a “libertação finalmente chegou" e puderam voltar para casa, em Lyon. Em 1947, Ferdinande foi estudar para os EUA, tendo depois regressado a França, para seguir o curso de medicina dentária. Apaixonou-se, casou e foi viver para Paris. Aí decidiu mudar de profissão e fez os estudos para ser psicanalista. Tem dois filhos e cinco netos.  



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