Escolha as suas informações

Gente do Luxemburgo. Mohamed, 40 anos, tunisino
Luxemburgo 2 min. 05.11.2019

Gente do Luxemburgo. Mohamed, 40 anos, tunisino

Gente do Luxemburgo. Mohamed, 40 anos, tunisino

Foto: Tiago Figueiredo
Luxemburgo 2 min. 05.11.2019

Gente do Luxemburgo. Mohamed, 40 anos, tunisino

Tiago FIGUEIREDO
Tiago FIGUEIREDO
Foi a primeira vez na vida que senti a escravatura. É mesmo escravatura, três meses sem receber.

Sou de origem tunisina. Em 2004, era professor na Tunísia. Estudei na Faculdade para me formar como professor de pré-escolar e ensino básico. Francamente, eu não tive nenhum problema na Tunísia. Em 2004 era professor, fazia 21 horas por semana, tinha o meu carro, um Fiat Uno de três portas, mas não me sentia bem neste trabalho. O trabalho de um professor é muito difícil, especialmente lá na Tunísia. Quando me viro para o quadro tenho 38, 39 alunos atrás de mim. Realmente é doloroso. Eu não conseguia fazer bem o meu trabalho e foi por isso que me demiti. Vim tentar a minha sorte na Europa.

Cheguei a Paris, França, com visto turístico, mas eu queria ficar. Pensei que pudesse trabalhar com o meu diploma, mas na verdade era impossível porque eu não tinha papéis e o meu diploma de professor não era reconhecido. Fui obrigado a aprender outro ofício. O mais fácil era aprender o ofício de padeiro. Então, encontrei um patrão que me deu alojamento e trabalho. A padaria não tinha muito controlo policial, gostando ou não, escolhi aprender aquele ofício. Comecei a aprender gratuitamente, não recebia pelo trabalho que fazia. Era um patrão muito difícil. Percebi que não conhecia o pão francês, não sabia nada de padaria, era a primeira vez que fazia aquele trabalho.

Passei três meses a trabalhar sem receber. Fazia todo o tipo de trabalho na padaria. Foi a primeira vez na vida que senti a escravatura. É mesmo escravatura, três meses sem receber. De manhã comia um croissant ou um pão com chocolate; ao meio dia, comia qualquer coisa leve e à noite uma pequena sanduíche. Dormia num quarto na padaria, era mesmo uma miséria.

Depois mudei de patrão. O primeiro salário foi 600€ e trabalhava 13 horas por dia, mas ainda não dominava o ofício e isso deu-me vontade de me tornar melhor padeiro. Aprendi com livros, através da internet, em cursos, e tornei-me um dos melhores padeiros de França. Mudei de patrão e comecei a tirar 2500€, 3000€ de salário porque trabalhava com pessoas que são muito conhecidas por serem os fornecedores do Palácio do Eliseu. Fiz pão para o François Hollande, depois para o Macron. E lá, até 2017, eu estava muito bem. Era bem pago, gostava do que fazia, mas ainda não tinha documentos.

Até que um dia, ia eu na zona de Tolbiac, 13º bairro de Paris, a regressar a casa, três carros da polícia pararam junto a mim e pediram-me os documentos. Fui enviado para um centro de detenção onde passei 43 dias antes de ser repatriado para a Tunísia.

 Fiz três tentativas para regressar de barco. A primeira estivemos quatro horas no mar e fomos resgatados pela guarda fronteiriça tunisina; na segunda fomos apanhados mesmo antes de entrar no barco; mas a terceira andámos uma hora e meia à deriva no mar depois do motor do barco se avariar. Foi mesmo um grande perigo, foi muito grave. Chamámos a guarda fronteiriça que nos veio salvar e aí decidi não voltar à Europa pelo mar porque é muito arriscado. É a minha vida, não é mais nada, não é dinheiro, não importa o quê. É a minha vida.

Siga-nos no Facebook, Twitter e receba a nossa newsletter das 17h30.