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Gare. Quando o "inferno" é diário
Luxemburgo 6 min. 06.11.2019

Gare. Quando o "inferno" é diário

Gare. Quando o "inferno" é diário

Foto: Luxemburger Wort
Luxemburgo 6 min. 06.11.2019

Gare. Quando o "inferno" é diário

Teresa CAMARÃO
Teresa CAMARÃO
Moradores e comerciantes exigem soluções para a falta de segurança e limpeza do bairro mais movimentado da capital. As opiniões dividem-se entre o reforço do policiamento e a melhoria das condições de vida da população.

"Lydie Polfer e François Bausch levem as drogas e a prostituição para fora da Gare", lia-se na faixa que seguia à frente da manifestação que paralisou a Rue de Strasbourg a meio de outubro. Dezenas de moradores e comerciantes do bairro da Gare exigiram uma resposta imediata à burgomestre da capital e ao ministro da Segurança Interna. Sam Tanson, que ocupa a pasta da Justiça no executivo de Xavier Bettel diz que não há "soluções milagrosas".


Na reunião de moradores que aconteceu dias depois "os problemas foram todos indentificados, mas não há soluções", lamenta ao Contacto, Avelino, o lusodescente que mora no bairro da Gare há 25 anos. "A minha revolta é com a inércia política porque as pessoas que estão ali acham que é o melhor sítio. Agora, os políticos são eleitos para resolver problemas difíceis e eu começo a chegar à conclusão que há uma espécie de deixa andar e quem sofre com isso somos nós, as vítimas colaterais", confessa Avelino que defende "o aumento do policiamento e da videovigilância" para minorar o sentimento de insegurança que reina entre lojistas e residentes.


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"Pensemos"
Com quase dez anos de avanço no bairro, Paca Rimbau discorda em absoluto. Também esteve na reunião que a autarquia convocou para debater a questão e lamenta ter sido vaiada quando discordou da maioria. "Foi tudo uma manipulação porque o problema centrou-se nos traficantes de droga e no termo máfia nigeriana que está a estigmatizar muita gente". A espanhola que trocou a Andaluzia pelo Grão-ducado há 34 anos acredita que "mais polícias na rua" não resolvem o problema de fundo. O sentimento agravou-se durante o encontro promovido pela Câmara Municipal, quando ouviu um vizinho cabo-verdiano dizer que "é sistematicamente parado pelas autoridades só porque é negro".


Longe de estar "encantada" com as circunstâncias, responsabiliza a falta de respostas do poder político pela acumulação de problemas no quartier de la Gare. Diz que a "quantidade de seringas que se vêm no chão" se resolvia com salas de chuto e o alargamento do horário do centro Abrigado de Bonnevoie que, invariavelmente, fecha as portas às 19h da tarde. Lamenta que um duche na Gare custe 5 euros e uma ida à casa de banho 70 cêntimos, "num serviço que deveria ser público e encerra à passagem do último comboio, meia hora depois da 1h da manhã.


"Pensemos em mobiliário urbano e toilettes públicas. Pensemos em caixotes para o lixo e centros abertos à noite para as pessoas poderem consumir o deixar o consumo de droga com apoio médico", enumera. "E depois pensemos também na educação e na formação dos agentes da segurança porque não é a atirar tomates das varandas com a ameaça de outro dia deitar outra coisa porque não é com mais polícia e mais cameras que vamos conseguir uma cidade mais segura e com situações mais justas".


"Sem lei"
Morador do bairro das milhares de idas e chegadas à estação central da capital, o deputado e líder do LSAP, Franz Fayot, relembra o ajuste de contas no cabeleireiro Ziko’s que interrompeu a inauguração do parque infantil da Place de Strasbourg há dois anos para sustentar a classificação de "bairro sem lei" que atribui às imediações da Gare. "Há uma invasão de traficantes de droga na Place et de la Rue de Strasbourg, na Avenue de la Gare, na Avenue de la Liberté, Rue Glesener, às 17h00 todos os dias. Isto cria um forte sentimento de insegurança entre residentes e transeuntes. Além disso, os toxicodependentes são omnipresentes no bairro – há muitos relatos de utilizadores em entradas de edifícios e locais públicos -, como o demonstram as piscinas de sangue", justifica a tomada de posição.


Está com a maioria que defende o reforço policial para solucionar o sentimento de crescente insegurança, embora reconheça que "não há soluções simples". No imediato, julga que "os cães que detetam a droga" também deveriam duplicar para ajudar a "confiscar e detetar o estupefaciente nos canteiros". Mais do que isso, acredita que só a combinação das respostas a nível "repressivo, social e sanitário" seria capaz de resolver o problema que atribui à má gestão da autarquia num bairro "sacrificado, povoado principalmente por estrangeiros que não votam, ou por estrangeiros e luxemburgueses que não estão entre a clientela eleitoral do partido liberal no poder há 50 anos nesta àrea da capital".


"Medo diário"
Apesar das várias tentativas, a burgomestre da capital Lydie Polfer não respondeu a nenhum dos pedidos de esclarecimento do Contacto em relação às queixas tranversais dos moradores, comerciantes e trabalhadores do bairro.
No Luxemburgo há 29 anos, Carina assume que, apesar do "medo diário" nunca confrontou a autarquia nem as autoridades com o sentimento de insegurança que, de há seis anos para cá, vai aumentando a cada deslocação para o trabalho. É uma das empregadas encarregues da limpeza do Ministério Público luxemburguês. Para completar o baixo salário limpa casas particulares. Pelo menos três vezes por semana, ainda mantém todas as condições de higiene exigidas por um dos SPAs da Avenue de La Gare.


Sai às 23h da noite e confessa que "de há seis anos para cá" encontra, diariamente, "bastantes malas roubadas e abandonadas" no percurso que faz até ao carro. Associa a degradação da área circundante à subida "drástica do nível de vida do Luxemburgo". Fala por experiência própria. Divorciada há três anos passou "um mau bocado" para encontrar uma casa. Optou pela acumulação de trabalho mas desculpa quem não faz o mesmo. "As pessoas chegam a um certo ponto que já não vêem saída. Para tentarem resolver certos problemas, certas dívidas começam a roubar porque os alugueres são cada vez mais insustentáveis para as famílias e tudo o resto é excessivamente caro".


Não é a única que sente medo de andar pelo bairro quando a noite cai. Conta que as restantes trabalhadoras do SPA "não se sentem nada confortáveis" quando saem do salão depois das 20h. Com a falta de lugares de estacionamento perto do trabalho, vive num "autêntico inferno" desde que há um ano foi seguida por um sem-abrigo até ao carro. Negou um cigarro e depois dinheiro. "Ele viu-me a entrar, esperou por mim até eu sair. Esteve três horas à minha espera em frente à porta. Seguiu-me até ao carro e a minha sorte foi que veio um senhor que me ajudou porque senão, se o senhor não tivesse vindo não sei o que podia ter acontecido". Foi a primeira vez que se sentiu completamente sozinha. Se gritasse, não havia polícia. Desvaloriza as cameras de videovigilância instaladas na Gare. Explica que "não estão em todo o lado" e que foram instaladas "onde eles pensavam que iam acontecer os crimes". Estarem ou não estarem "é a mesma coisa".