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Funcionários do lago onde Puto G se afogou demoraram quase uma hora a chamar o 112
Luxemburgo 1 35 min. 16.08.2018

Funcionários do lago onde Puto G se afogou demoraram quase uma hora a chamar o 112

Funcionários do lago onde Puto G se afogou demoraram quase uma hora a chamar o 112

Foto: Pierre Matgé
Luxemburgo 1 35 min. 16.08.2018

Funcionários do lago onde Puto G se afogou demoraram quase uma hora a chamar o 112

Paula TELO ALVES
Paula TELO ALVES
O 'rapper' português Puto G tinha acabado de chegar ao lago de Remerschen quando se afogou. Eram 15h40 quando Inês Varela, uma das amigas, o viu mergulhar e desaparecer à sua frente. Os amigos pediram insistentemente ajuda aos funcionários do lago, mas estes só ligaram para o 112 quase uma hora depois de o português se afogar.

"Ninguém me ouve". Inês Varela perdeu a conta às vezes que teve de contar como o amigo se afogou, primeiro aos funcionários do lago, depois aos bombeiros e à polícia, e agora ao Contacto, "para contar como tudo aconteceu".

Era um sábado, dia 30 de junho, e os termómetros prometiam aquecer. Inês tinha combinado com um grupo de amigos ir passar o dia ao lago de Remerschen, no sul do Luxemburgo, uma estância balnear explorada pela autarquia de Schengen, que cobra quatro euros de entrada. A portuguesa e o namorado faziam parte do primeiro grupo, que chegou ao lago por volta do meio-dia. Ao todo, no final, seriam cerca de duas dezenas de pessoas, a maioria de origem cabo-verdiana. Inês trabalha numa empresa de limpezas e é uma das poucas brancas do grupo: tem tatuagens nos braços e piercings no rosto, tal como o namorado, negro, com rastas como as que usava Puto G.

O músico chegou ao lago de carro com amigos. Foram os últimos a chegar, "por volta das 15h30". Na água, junto à margem, já estava Inês Varela com o namorado e alguns amigos. "Eles viram-nos logo", conta Inês, "vieram todos a correr por ali abaixo". Alguns já vinham de chinelos e calções e entraram logo na água, mas Puto G sentou-se a tirar os sapatos e a roupa. "Ele ria-se e só dizia: 'Eu já não vejo o rio há dois anos, eu já não vejo o rio há dois anos!", recorda Inês, que não nada "muito bem" e estava apenas com as pernas dentro de água. "Inês, guarda as minhas coisas que eu vou entrar", pediu Puto G. "Ele não tinha calções, entrou de boxers", recorda a portuguesa.

O 'rapper' entrou no lago, deu umas braçadas e mergulhou na vertical, os pés primeiro. "Ele levantou as mãos para cima, como quem ia para dizer olá ou 'tchau', de olhos abertos, com um sorriso na cara, e deixou o corpo ir para baixo", conta Inês. Foi a última vez que a portuguesa viu o amigo com vida. "15h39, mergulhou. 15h40, nunca mais subiu". Inês começou a ficar aflita. De olhos fixos no local onde viu o 'rapper' desaparecer, começou a cronometrar os minutos no relógio de pulso, "para não ter aquela coisa de achar que já tinha passado muito tempo e afinal eram só cinco segundos". "É por isso que eu consigo dizer que foi às 15h40 que ele desapareceu dentro de água. Porque eu estava: 'Um minuto já passou, dois minutos, ninguém aguenta três minutos na água, não pode ser, não pode ser', e foi quando eu comecei a gritar: 'O Puto G não vem, o Puto G não vem! Soraia, sabes nadar? Vai ali!'". Soraia Borges estava com a filha de cinco anos e o irmão, de sete, numa bóia perto da margem. "Largou tudo" e nadou em direção ao local em que o rapper desapareceu. Tem 1,83m "mas não tinha pé, era fundo, fundo, fundo", conta a enfermeira, que não conseguiu ver nada. "O meu outro irmão tem quase dois metros [1,97m] e também não tinha pé".

Minutos antes, Jorge, o namorado de Inês, tinha nadado com os restantes amigos até à zona de jogos aquáticos, de acesso pago, a poucos metros de onde tudo aconteceu. Sentou-se nas bóias gigantes, a recuperar o fôlego para voltar, quando um dos vigilantes do lago lhe veio dizer que não podia estar ali. "Eu disse: 'Deixe só a gente ganhar ar e já vou'. Quando estava a meio do caminho foi quando me apercebi".

Do outro lado da enseada, Inês Varela gritava e esbracejava na direção dos amigos. "Eu dizia: 'É ali onde está o Jorge!', para os rapazes que sabem nadar irem lá. Eu não podia ir, eu se fosse era para lá ficar. Eles foram lá todos, mas não conseguiam ver". Jorge mergulhou várias vezes e "ia lá ficando", a vomitar água quando voltou à superfície. "É só algas, não dá para ver nada". As plantas e a falta de visibilidade também impediram os outros de encontrar Puto G. "Inês, não vemos nada, tens a certeza que ele está lá?" "Tenho!" Apesar dos gritos e do desespero do grupo, nenhum dos vigilantes da autarquia - os mesmos que minutos antes afastaram Jorge da zona de acesso pago - os foi ajudar.

Os socorros que não vieram

Jorge e Inês decidiram então ir pedir ajuda aos funcionários do lago. Os dois correram até à entrada do recinto, onde fica a bilheteira, mas em vez da ajuda esperada, as funcionárias tentaram convencê-los que Puto G tinha ido dar uma volta. "Elas na receção disseram: 'Chamem aí nos altifalantes', e eu disse: 'Não senhora, ele entrou na água'", recorda Inês. Uma funcionária insistiu: "Mas se calhar você distraiu-se, ele pode ter saído da água". "Não! Foi à minha frente". Por insistência da funcionária, Jorge foi mesmo obrigado a chamar Puto G num microfone, apesar de estarem certos de que o amigo estava no fundo do lago. "Depois diziam-nos: 'Querem água?'. E nós: 'Não, não queremos água, queremos que alguém vá dentro da água tentar ir buscá-lo!'", conta Inês. Para desconcerto do casal, uma das funcionárias terá sugerido que fossem pedir ajuda aos vigilantes que estavam na zona de jogos. "Se não se importam, vão ali aos insufláveis dar o alerta também". Houve mesmo quem sugerisse que o 'rapper' podia estar a fumar um charro e os ameaçasse com o preço da ambulância. "Vocês sabem os custos que isso vai ter, chamarem as ambulâncias, se ele aparece aí a passear?", terá dito uma das funcionárias. "Uma rapariga que lá trabalha ainda se chegou à minha beira e disse: 'O teu amigo não esteve a fumar cannabis? Porque ele pode ter ido fumar e pode estar aí a dormir, e isso vai-vos sair muito caro'". Desesperada, Inês insistiu: "Não, não vai sair caro, porque ele está lá dentro! Peço-vos que procurem por ele lá dentro! Chamem os bombeiros, chamem a ambulância, façam qualquer coisa!".

A indiferença das funcionárias contrastava com o desespero do grupo. Durante uma hora, os amigos insistiram para que o pessoal do lago chamasse socorros. "Eles não diziam que não, diziam 'Tenham calma, que já estamos a resolver, os bombeiros já estão a chegar'", recorda Inês. "E nessa frase de 'os bombeiros já estão a chegar' é quando passa uma hora e vinte".

Com o tempo a escoar-se e sem sinal de socorros, os ânimos começaram a exaltar-se. "Não gritem, olhem a polícia", terão ameaçado as funcionárias. Alguns voltaram a mergulhar para tentar encontrar o amigo e as funcionárias ameaçaram ligar para os guardas. Vanda Almeida ouviu a ameaça e explodiu. "Desculpa?! Telefona, porque a polícia e a ambulância já deviam estar aqui!" Vanda diz que pensava que o lago tinha nadadores-salvadores e que os socorros eram "automáticos quando uma pessoa se afoga". Em vez disso, "demoraram para sempre até chegar".

Inês não tem dúvidas: os serviços de emergência só chegaram "uma hora e vinte" depois de o amigo se afogar, cerca das 17h. Até lá, "entrar na água, ninguém entrou", garante Jorge Gomes. "Fomos nós outra vez para tentar ver alguma coisa, já que ninguém o fez. Disseram para sairmos da água, e a gente disse: 'Vocês não entram na água, ao menos entramos nós'."

Tanto Inês como Jorge acham que os funcionários do lago não ligaram para o 112 quando os dois pediram ajuda. É a única explicação que encontram para os socorros terem demorado cerca de hora e meia a chegar.

Socorros só foram despachados uma hora depois

Só às 16h43 é que o 112 deu ordens aos bombeiros, ambulâncias e mergulhadores para se dirigirem ao local - uma hora depois de Inês Varela ter visto o amigo sumir-se no lago. A informação é do Corpo Grão-Ducal de Incêndio e Segurança (CGDIS), mas inicialmente a central de socorros recusou dizer ao Contacto a que horas foi dado o alerta, alegando tratar-se de informação "confidencial" e "sem mais-valia" informativa. Isto apesar de, no caso do búlgaro de 53 anos que se afogou no mesmo local, 29 dias depois, essa mesma informação ter sido divulgada. O jornal só conseguiu saber a que horas foi dado o alerta depois de apresentar um protesto por escrito ao ministro da Administração Interna, Dan Kersch (ver artigo "Os segredos do Luxemburgo").

Em resposta a novas questões do Contacto, a central de socorros disse que a primeira chamada para o 112 a alertar para o afogamento foi feita às 16h36, pelo pessoal do lago. Foi quase uma hora depois de Inês Varela ter visto o amigo desaparecer no lago, às 15h40. A portuguesa disse ao Contacto que pediram ajuda aos funcionários "uns dez minutos depois". Mas o pessoal da estância balnear, que emprega uma dezena de pessoas - todos identificados por T-shirts vermelhas com a palavra 'staff' escrita nas costas - tê-los-ão ignorado.

Quando o Contacto esteve no lago em 30 de julho, um dia depois do segundo afogamento no espaço de um mês, a responsável do recinto, Dominique Fagny, alegou que, no caso de Puto G, os amigos "estavam todos embriagados" e só deram pela falta do músico "por volta das 16h30", "uma hora e meia" depois de ele ter desaparecido. "Uns diziam que o tinham visto nos jogos [aquáticos], outros no bar, havia 25 pessoas a dizer coisas diferentes", afirmou a funcionária contratada pela autarquia de Schengen. Inês Varela não esconde a revolta: "Mentira, mentira, como é que ela pode dizer isso, como é que ela pode dizer isso?".

Tom Weber, o vereador responsável pela gestão do lago, contou uma versão diferente de Dominique Fagny, quando o jornal o questionou sobre a falta de segurança no recinto e sobre os riscos de afogamento colocados pelas algas que invadiram o lago. Numa entrevista gravada na autarquia de Schengen a 1 de agosto, o vereador disse ao Contacto que "os dois mortos não tiveram problemas com as algas", afirmando que, em ambos os casos, as vítimas desapareceram na água sem voltarem à tona, invocando testemunhas no local. No caso do búlgaro, o vereador disse que se teria tratado de "uma crise cardíaca", apesar de admitir que não conhecia os resultados da autópsia. Já sobre Puto G, cujo corpo não foi autopsiado, defendeu que se terá tratado também de "uma crise", justificando a conclusão com os testemunhos dos amigos. "Ele estava com os amigos, juntos, e eles viram-no mergulhar, mas não o conseguiram encontrar", disse Tom Weber. Um relato que contraria a versão de Dominique Fagny de que os amigos só deram conta do desaparecimento "uma hora e meia mais tarde" e que não sabiam dizer onde estava.

Mas há mais coisas que não batem certo na versão da responsável do lago. Segundo a central de socorros, o pessoal da autarquia telefonou para o 112 às 16h36, dizendo que "uma pessoa tinha desaparecido". Terá sido apenas durante o telefonema que a pessoa que telefonou "recebeu a confirmação das testemunhas no local de que a vítima tinha ido nadar", informou o CGDIS, precisando que "a situação de afogamento" só foi confirmada às 16h39. Não se percebe por que razão o lago ligaria para a central de socorros por causa de um adulto desaparecido, como indicou o CGDIS: o desaparecimento de um adulto não causa habitualmente alarme suficiente para ativar o 112. "Eu não disse a ninguém que ele desapareceu. Mesmo lá na receção, nunca disse 'o nosso colega está desaparecido', eu sempre disse 'o nosso colega entrou na água e não saiu, ele entrou lá para baixo e não saiu!'", repete Inês.

O comunicado da Polícia, divulgado nessa noite, também contraria a versão da responsável do lago. A nota aponta que o jovem "foi dado como desaparecido pelos seus amigos" às 16h. Mesmo aceitando essa hora como boa - Inês Varela diz que alertou os funcionários ainda antes disso -, por que razão o pessoal do lago só ligou para o 112 às 16h36, trinta e seis minutos depois?

Os amigos também não têm dúvidas sobre a hora a que tudo aconteceu. Milton Mendes, que chegou de carro com Puto G, confirma que o 'rapper' se afogou pouco depois das 15h30. Milton filmou um vídeo quando estavam a caminho do lago, a cerca de um quarto de hora do destino, e o telemóvel registou a hora e o local da filmagem: foi entre Hellange e Frisange, às 14h59. O 'google maps' indica que, até ao lago, são mais 17 a 20 minutos, dependendo do trajeto. Contas feitas, deverão ter chegado ao lago com Puto G cerca das 15h20. Depois de passarem a bilheteira, correram todos para a enseada em que já se encontravam os restantes amigos e foram todos para a água. "Esse vídeo foi filmado uns 25 minutos, meia hora, antes de eu ver o meu amigo pela última vez", disse Milton ao Contacto.

Desespero

Exasperados com a inércia dos funcionários e com a longa espera pelos serviços de socorros, os amigos do 'rapper' voltaram a mergulhar, contrariando as ordens do pessoal do lago. Francelino Oliveira Alves acabou mesmo algemado. Os socorros, diz, demoraram hora e meia a chegar, e ele não quis ficar parado. "Subi para cima dos insufláveis e gritei o nome dele, 'Puto! Puto!', gritei 'socorro', e não se passou nada. Então voltei a mergulhar e a procurar por ele".

Nessa altura, tinha-se passado tanto tempo que Francelino sabia que a busca para encontrar Puto G com vida "era em vão". "Mas eu não queria ficar ali a olhar, como os mirones que sacaram dos telemóveis. Havia uns tipos a andar de barco, a olhar, e era tudo".

Quando a Polícia o mandou sair da água, Francelino obedeceu, mas acabou a barafustar, e foi detido e algemado. Mesmo assim, continuou a dar murros dentro do carro da Polícia. "Nós estávamos com medo que ele levasse uma surra", conta Vanda Almeida. Cíntia, irmã de Vanda, diz que viu um agente empurrá-lo contra o vidro. Francelino desvaloriza o incidente e garante que a Polícia não o agrediu, mas os seus tormentos nesse dia não acabaram ali. O carro policial em que seguia teve um acidente, já nos arredores da cidade do Luxemburgo, em Strassen, provocando-lhe ferimentos na cabeça.

Francelino perdeu a cabeça e continuou a procurar Puto G mesmo depois de o mandarem sair da água. Acabou algemado e detido pela Polícia.
Francelino perdeu a cabeça e continuou a procurar Puto G mesmo depois de o mandarem sair da água. Acabou algemado e detido pela Polícia.
Foto: Pierre Matgé

O comunicado da Polícia diz que o veículo tinha "as luzes e a sirene ligadas" e se preparava para ultrapassar outro carro, quando este virou à esquerda numa estação de serviço, provocando a colisão. "Felizmente, ninguém ficou gravemente ferido", aponta a nota. Segundo o comunicado, o carro "já ia a caminho do hospital" quando se deu o acidente, porque "levava um homem a bordo que deveria receber tratamento médico". O homem era Francelino. Na colisão, bateu com a testa no vidro e ficou a sangrar, e teve de ser assistido no hospital. Depois, foi levado para a esquadra de Bonnevoie. "O polícia insistia para saber como o Puto G se chamava, e eu disse que não sabia, que não o conhecia assim tão bem. E ele perguntou-me: 'Como? Estavas lá a procurá-lo e não o conhecias assim tão bem?'." Francelino respondeu que "esse não era o ponto". "Havia pessoas só a olhar, e se estou num grupo e alguém desaparece, mesmo que não o conheça bem, sou uma pessoa que se põe a tentar encontrá-lo". Os agentes verificaram a identidade de Francelino "no computador" e viram que é irmão de um agente da Polícia. "Comportas-te dessa maneira e és irmão de um polícia, não te preocupas com a imagem dele?", ter-lhe-ão dito, antes de o libertarem. Escapou com um sermão e o ferimento na cabeça.

As algas e os perigos não assinalados

Entretanto, no lago, a longa espera dos amigos de José Carlos Cardoso, que todos conheciam pelo pseudónimo Puto G, continuava. Os bombeiros e a Polícia tinham chegado finalmente ao local, mas seria preciso aguardar pelos mergulhadores até começarem as buscas dentro de água, seguindo as indicações dadas por Inês Varela. "Com o meu relato desenharam um perímetro e depois foram todos juntinhos para lá", conta a portuguesa.

Antes, a Polícia quis evacuar a estância balnear, mas os funcionários recusaram, conta Inês: "Não, como é que vamos evacuar o parque? E as pessoas que acabaram de entrar e de pagar o seu 'ticket'?". O agente terá então dito que as pessoas podiam ficar, mas tinham de se afastar da margem. "Eles continuaram a deixar as pessoas entrar, e estava toda a gente a filmar, e a ver, é como se não tivesse desaparecido ninguém. Quando os mergulhadores entram na água, à nossa frente estão pessoas a nadar tranquilamente", critica Inês Varela. Vanda Almeida ficou tão revoltada com a cena que não contem as lágrimas. "Queriam continuar a vender? Têm um corpo lá, eles estão-se pouco cagando!".

As fotos tiradas no dia da morte de Puto G mostram a multidão que assistiu ao resgate. Os responsáveis do lago terão recusado evacuar o recinto, alegando que havia visitantes que tinham acabado de comprar bilhete.
As fotos tiradas no dia da morte de Puto G mostram a multidão que assistiu ao resgate. Os responsáveis do lago terão recusado evacuar o recinto, alegando que havia visitantes que tinham acabado de comprar bilhete.
Foto: Pierre Matgé / Contacto

Eram 18h50, segundo o comunicado da Polícia, quando os mergulhadores conseguiram encontrar o corpo sem vida de Puto G. Jorge Gomes diz que o amigo estava coberto de algas da cabeça aos pés. "Tinha algas no corpo todo, tiraram algumas, e mesmo assim, na perna, era só algas". As plantas são conhecidas por "wasserpest" (literalmente, "peste de água"), o nome dado na Alemanha a esta espécie invasora com o nome científico de "Elodea canadensis", e para os amigos de Puto G, foram elas as responsáveis pela tragédia. Um dos agentes da Polícia terá dito a Inês Varela que não era preciso autópsia, porque a causa do acidente "foi a luta com as algas". Quando foi autorizada a ver o corpo do amigo, a portuguesa ficou chocada. "Quando eu chego vejo ele todo cheio de sangue, na barriga, no peito, na perna. E eu disse assim: 'Por que é que o meu colega tem tanto sangue?' E ele disse assim: 'Porque o seu colega teve uma disputa com as algas, é essa a causa da morte dele. Teve uma disputa para se salvar delas'".

Cíntia Almeida também ouviu a mesma justificação. Uma psicóloga no local perguntou-lhe se queria falar, e Cíntia disse que só queria saber como Puto G tinha morrido. A psicóloga disse que ia informar-se e voltou com a resposta. "Ela disse que eles não podiam dizer exatamente o que tinha sido, mas que o cérebro dele apagou, e que ele provavelmente ficou entalado nas algas, porque o encontraram com o pé pegado nas algas, e não conseguiu sair. Pensavam que talvez ele tivesse tido um choque térmico e que tivesse ficado com a perna nas algas e que, a tentar lutar, o coração parou".

O triste cortejo para ver o corpo de Puto G continuou. Soraia Gomes, que é enfermeira, lembra-se de ver os típicos sinais de afogamento descritos pelos manuais de patologia, incluindo espuma na boca. Um dos pés, diz, "estava torto, virado para dentro", e o corpo "tinha muitos arranhões". Sem autópsia, fica a dúvida sobre se as lesões foram antes da morte ou causadas pelo resgate dos mergulhadores.

No meio da comoção, uma das funcionárias do lago terá pedido aos serviços de socorros para ficar com a pulseira que o 'rapper' ainda trazia no pulso, a mesma que prova que pagou a entrada no recinto, para "ficar com uma recordação". "Achei tão estranho, uma recordação de uma pessoa que não conheces", diz Soraia. "Eles abusaram da nossa dor. Se fosse agora, não tínhamos deixado fazer nada disso". Os irmãos de Puto G que vieram ao Luxemburgo para buscar o corpo confirmaram ao Contacto que a bracelete desapareceu, e temem que tenha sido uma manobra para invocar que o 'rapper' entrou sem pagar e afastar responsabilidades, caso a morte chegue a tribunal. "A Polícia disse que não encontraram nenhuma pulseira, mas é mentira, todos os amigos tinham a pulseira. Alguém cortou a pulseira", insurge-se um dos irmãos, Adérito da Rocha Cardoso. Vítor, o irmão mais velho, diz que no local onde foi buscar o corpo lhe confirmaram que o cadáver ainda tinha a bracelete quando foi retirado da água.

José Carlos Cardoso, aliás Puto G, era um dos mais populares 'rappers' em crioulo.
José Carlos Cardoso, aliás Puto G, era um dos mais populares 'rappers' em crioulo.
Foto: Instagram

No lago, a Polícia recolheu as roupas e pertences de Puto G de onde estiveram toda a tarde, durante a longa agonia dos amigos: à beira da água, no mesmo sítio em que entrou para tomar banho, mergulhou e não voltou à tona. A Polícia ficou com os contactos de Inês Varela e disse-lhe que seria chamada "noutro dia" para dar o seu testemunho, mas até hoje, nada.

Família continua sem explicação oficial para o afogamento

Vítor Rocha Cardoso, o irmão mais velho de Puto G, vive há sete anos na Suíça, onde é relojoeiro, e soube do incidente com o irmão ainda antes de o corpo ser encontrado, através de um amigo que ligou para uma prima em Portugal. Ele e outro irmão emigrado em Genebra passaram o final da tarde a ligar para os hospitais no Luxemburgo, a proteção civil e a Polícia. A confirmação da morte chegou às 20h45.

Os dois irmãos vieram ao Luxemburgo no dia seguinte e foram a uma esquadra na capital. A explicação que lhes deram é a mesma da responsável do lago. "Disseram-nos que o meu irmão e os amigos foram para o lago, e eles mergulharam, e estavam todos bêbedos, e tentaram falar com os amigos e eles não estavam a conseguir falar. Estavam embriagados, tinham fumado, e não explicaram lá muito bem onde é que o corpo estava", contou Vítor. Só mais tarde é que falou com Inês Varela e esta lhe contou "que viu tudo".

Sete semanas depois, a família continua sem receber o relatório toxicológico, que a Procuradoria também recusou divulgar ao Contacto, nem tem explicações oficiais para o afogamento. Quando esteve no Luxemburgo, a polícia disse a Vítor que o irmão "tinha bebido e que estava alcoolizado, e que se calhar até tinha fumado" marijuana. "Fizeram um exame de sangue, mas não me deram os resultados".

Vítor quis ver o local onde o irmão morreu e ficou chocado. "Eu fui ao lago, porque pensei que era mesmo perigoso, e quando vi... Ninguém pensa que é um lago perigoso. Não tinham nadadores-salvadores. E no dia seguinte as pessoas continuavam lá a tomar banho como se não tivesse acontecido nada", contou ao Contacto. "Um lago que se paga para entrar e não tem condições, não se vê nada do que está no fundo. Tem que se fazer alguma coisa, não é normal", insurge-se. "Se não têm responsabilidades, não devem cobrar entrada e fazer negócio lá dentro. Se fosse um lago selvagem, era uma coisa. Mas se é pago, já é da responsabilidade deles".

Puto G afogou-se a poucos metros dos jogos aquáticos explorados pela autarquia. A responsável do lago tinha dito ao Contacto que foi no local onde se vê um colchão com adolescentes, à direita dos insufláveis, mas os amigos de Puto G afirmam que foi mais perto da margem, do lado esquerdo dos jogos, na foto.
Puto G afogou-se a poucos metros dos jogos aquáticos explorados pela autarquia. A responsável do lago tinha dito ao Contacto que foi no local onde se vê um colchão com adolescentes, à direita dos insufláveis, mas os amigos de Puto G afirmam que foi mais perto da margem, do lado esquerdo dos jogos, na foto.
Foto: Henrique de Burgo / Contacto

O lago explorado pela autarquia de Schengen, a localidade onde foi assinado o tratado de livre circulação na União Europeia, é tudo menos selvagem, e em vez de se poder circular livremente, paga-se quatro euros para entrar. No recinto há um restaurante projetado pelos arquitetos Hermann & Valentiny em 2010 (autores do pavilhão luxemburguês na Exposição Universal de Xangai, na China, nesse mesmo ano). Inspirado nas palafitas, habitações lacustres construídas em cima de estacas, o edifício fica a poucos metros da piscina para crianças e tem vista para a enseada onde Puto G se afogou, na enseada para adultos onde também estão os jogos aquáticos, uma série de insufláveis com acesso pago, explorados pela autarquia. Apesar disso, a autarquia rejeita responsabilidades, alegando que tem cartazes onde avisa que o espaço não é vigiado (ver caixa).

No laguinho infantil há repuxos, um escorrega em forma de elefante e uma cadeira como a usada pelos nadadores-salvadores, perto da esplanada do bar que fica por baixo do restaurante, concessionado pela autarquia a privados. Quando o Contacto lá esteve, um dia depois de o búlgaro se ter afogado, a empregada ainda estava perturbada com o incidente. "Foi um dia triste, ontem", lançou. Quinze dias antes, a luxemburguesa diz que teve de ligar para o 112, a pedido de um banhista, mas que os vigilantes do lago gritaram consigo. "Um senhor pediu-me para chamar uma ambulância e eu chamei. Eles ralharam-me e disseram que eram eles que chamavam as ambulâncias, mas a mim, se me pedirem para ligar para o 112, eu ligo", contou. Em causa não teria estado um afogamento, mas a empregada não soube precisar o incidente na origem do pedido de ajuda.

Poucas horas após o corpo do búlgaro ter sido resgatado por mergulhadores, a página oficial do lago na rede social Facebook publicou um post em que dizia:  "Continua a estar calor! Venham depressa refrescar-se no lago". A mensagem, que termina com um "smiley", foi publicada no dia seguinte ao afogamento, às 13h06, e não faz qualquer referência à tragédia.

Ambulância já tinha estado no lago nessa manhã

"Cena tristi, vida é foda." Esse é um dos versos de "Zoo", uma música de Puto G com mais de um milhão de visualizações no Youtube, e é também como Tony Monteiro resume o que lhe aconteceu. Algumas horas antes de o amigo perder a vida, na manhã de 30 de junho, Tony ia morrendo afogado na mesma enseada. Estava a nadar com um amigo, Ronny, em direção aos insufláveis, quando sentiu que "já não conseguia mais". "Ainda tive a presença de espírito de avisar o meu amigo", contou ao Contacto. De cima dos insufláveis, Ronny gritou a pedir ajuda aos vigilantes que gerem os jogos aquáticos, mas sem resultado. "Chamou, chamou, andou a gritar, a gritar, mas não vinha ninguém e ele teve de entrar na água para me ir buscar", conta Tony. Quando recuperou a consciência, Tony viu o amigo em cima dele e os vigilantes a olhar. "Eles não fizeram nada, nada, nada! Se não fosse o meu amigo, eu hoje não estava aqui a falar consigo".

O pessoal do lago chamou uma ambulância. O CGDIS confirmou ao Contacto que "uma ambulância foi enviada" na manhã de 30 de junho ao lago de Remerschen, mas indicou que se tratou de "intoxicação alcóolica de duas pessoas". Tony admite que tinha bebido, mas diz que foi o único a ser transportado na ambulância. No hospital de Esch, fizeram-lhe radiografias "para ver se tinha água nos pulmões", e os médicos ter-lhe-ão dito que pode ter sofrido um choque térmico, mas o cabo-verdiano não esperou pelo resultado das análises e foi-se embora do hospital. "Eu não tinha nada e estava a demorar muito tempo", justifica. Em casa, tinha a Polícia à espera. "Queres voltar connosco?", perguntaram-lhe. Recusou. "Eu não tenho nada, estou-me a sentir bem e bazei", explicou aos agentes. Não ficou com documentos do hospital, mas mais tarde recebeu as facturas em casa da mãe, disse ao Contacto (uma informação que o jornal não conseguiu confirmar).

Nessa noite, quando ainda não se sabia que a vítima no lago era Puto G, andaram a dizer que o morto era Tony. "Foram dizer à minha irmã: 'O Tony morreu'", conta o cabo-verdiano. Tony Monteiro conhecia bem Puto G, com quem se encontrava muitas vezes em Esch, nos bares da cidade. Soube da notícia da morte nessa mesma noite, quando estava a festejar o aniversário da sobrinha, que fazia nesse dia um ano. "Eu faço anos no dia 28 de maio e ele no 29. Ele tinha-me dito: 'Nem fizemos uma festa, temos de fazer uma festa, Tony'", recorda. "Fiquei chocado. A vida é mesmo foda".

A revolta

Sempre que Soraia Borges abre a boca, tem a atenção da sala inteira: cabeleira afro, 1,83m de altura, fala com a voz tonitruante de quem está habituada a convencer os pacientes do lar onde trabalha, na Holanda, com uma mistura de doçura e autoridade. A enfermeira foi a primeira a tentar procurar Puto G no lago e está indignada. "O que a mim me revolta é que, quando isto tudo aconteceu, nós pensámos: 'Temos de procurar ajuda'. E a maneira como eles reagem quando uma pessoa vai lá, em pânico, dizendo: 'Olha, aquela pessoa afogou-se, está dentro da água', a calma, a tranquilidade com que eles reagem... As perguntas erradas que eles fazem: em vez de perguntarem: 'Onde é que ele se afogou?', pediram-nos I.D. [documento de identificação, em inglês] dele", conta Soraia, que trabalha na Holanda mas veio ao Luxemburgo visitar a mãe e os irmãos, a viver em Esch-sur-Alzette. "Achei tão estranho! Pediu I.D.! Eu disse à mulher: ele está lá dentro da água", conta. "Eles não acreditaram em nós, e eu estava a chorar e tudo, mas a tentar falar como deve ser. Eu tive a sensação que ela [a funcionária do lago] não estava a acreditar. Ela dizia: 'Vocês vão achar ele'". Como é possível?, questiona. "Veem uma pessoa a chorar de aflição pelo amigo e deviam vir com um grupo logo, isso já devia estar organizado", defende. "Não têm nada, é isso que me revolta: não têm um nadador-salvador numa cadeira, como na Holanda. Eu confio que, quando eu pago, é seguro", diz a enfermeira, que foi pela primeira vez ao lago e não se apercebeu que o local não era vigiado, nem que os chamados "vigilantes" da autarquia - vestidos com T-shirts vermelhas, como na série "Marés Vivas" ("Baywatch") - não têm formação de salva-vidas, como o Contacto revelou em 2 de agosto.

Inês Varela também estranha que não tenha sido feita autópsia, ao contrário do que aconteceu com o búlgaro que se afogou um mês depois. O porta-voz da Procuradoria, Henri Eippers, disse ao Contacto que os dois casos tinham "circunstâncias diferentes" e que a causa da morte de Puto G era conhecida, mas recusou divulgá-la. "Eles podiam dizer com uma autópsia que ele morreu com um enfarte, por exemplo, ou por causa da temperatura, ou choque, que nadou muito e o coração não aguentou, mas esclarecer. Mas deviam na mesma limpar [as algas]. A partir do momento em que nos dizem que a causa da morte dele é algas, vai outro, é algas, o meu namorado ia lá ficando, é algas... Por amor de Deus! Parem, fechem dois dias, para limpar!", insta Inês.

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Vanda Almeida também está revoltada com o silêncio em torno da morte de Puto G e com a falta de explicações das autoridades. "É um segredo", acusa, emocionada, à procura das palavras. E faz as contas ao número de pessoas que estavam nesse dia no recinto (três mil visitantes, segundo o lago). "É muito dinheiro que eles fazem, 12 mil euros por dia". "É o dinheiro que conta", acusa Vanda, "eles abafam tudo". Ri-se quando lhe perguntamos se sentiu que houve discriminação ou racismo no lago. Puto G era negro, tinha rastas, tatuagens e piercings, tal como muitos dos amigos no grupo. Estudos nos Estados Unidos mostram que os preconceitos raciais têm impacto no acesso a cuidados de saúde, e até Serena Williams teve dificuldades para se fazer ouvir nas urgências. Em França, o caso de Naomi Musenga, de origem congolesa, que ligou para os serviços de emergência (SAMU), queixando-se de fortes dores abdominais, mas foi ridicularizada pelos operadores e acabou por morrer, provocou polémica, em maio deste ano, levando o procurador a abrir inquérito por "não-assistência a pessoa em perigo" (um crime também previsto no Código Penal luxemburguês).

"Racismo?", repete Vanda, em tom de escárnio, como se a pergunta fosse chover no molhado, tão óbvia lhe parece a resposta. "O teu amigo afoga-se e vêm-te perguntar: 'Ele fumou? Ele bebeu?' É como uma mulher que é violada e perguntam: 'Tinha mini-saia'?".

"Kel strela k ta bilha maz é dimeu"

O memorial efémero foi posto no local onde o músico entrou na água.
O memorial efémero foi posto no local onde o músico entrou na água.
Foto: Cíntia Almeida

Antes de se estrear na música, Puto G participou no filme "A Esperança está onde menos se espera", do realizador Joaquim Leitão, rodado na Cova da Moura, onde viveu até emigrar. A residir em Athus, na Bélgica, perto da fronteira com o Luxemburgo, trabalhou nas obras no Grão-Ducado, com contratos de agências de trabalho temporário. "Ele veio para o Luxemburgo para tentar encontrar um melhor futuro e depois a vida dele foi levada. Hoje estamos todos a sofrer, sem resposta. Até hoje, nunca a Polícia nos ligou para nos dar alguma informação", lamenta Cíntia Almeida. Cíntia tem 23 anos mas podia ser uma adolescente de 15, alternando entre a timidez e o discurso em catadupa de quem não está habituada a ser ouvida. A jovem de origem cabo-verdiana nasceu em Lisboa, foi para a Holanda com dois anos e veio para o Luxemburgo há dez, e também acha que os preconceitos explicam a forma como foram ignorados. "Nós somos estrangeiros, somos emigrantes".

Oito dias depois da morte de Puto G, Cíntia fez parte dos amigos que foram ao lago para lhe prestar homenagem, no mesmo local em que o português deixou as roupas e entrou na água. Levaram velas, fotos do amigo e a letra de uma canção escrita numa folha A4. Foi Cíntia Almeida quem escolheu os versos, que fazem parte do seu tema preferido, "Hey". "Essa música sempre me tocou, mesmo antes de ele falecer. Chorei a primeira vez que a ouvi, porque senti a mágoa com que ele escreveu os versos". Para Cíntia, "essa música diz tudo". "Fala de esse mundo ser injusto, de o dinheiro ser sujo, de o dinheiro ter poder, de os pobres sempre ficarem pobres, de os ricos sempre ficarem ricos. E de continuar sempre a lutar, porque no fim do túnel você vê a luz". A jovem recita o seu verso preferido, em crioulo: "Kel strela k ta bilha maz é dimeu" ("essa estrela que está a brilhar mais é minha"). Para Cíntia, que frequenta a "escola da segunda oportunidade" (um liceu para adultos), o significado é claro. "Quando se olha para o céu escuro, há uma estrela que te atrai mais. Acho que o que ele quer dizer com esse verso é que, estando vivo, ele também tem um lugar nesse mundo". Cíntia não se conforma com a falta de ajuda no lago para salvar o amigo. "Ele deixou algo para trás neste mundo, e nós não devíamos calar a boca, nós devíamos fazer alguma coisa".

Inês Varela e Jorge Gomes regressaram ao lago um mês depois, para prestar nova homenagem ao músico, mas foram mal recebidos pelos funcionários. "Levávamos a T-shirt com a fotografia e o nome do Puto G", conta Inês. "Eu disse que era porque fazia um mês que ele morreu, e a gente queria fazer uma homenagem", acrescenta Jorge. Com o casal estavam mais duas pessoas. "Ela [a funcionária] estava-nos a pedir o dinheiro da entrada, e eu disse-lhe: 'Você não se lembra de mim?'. E ela olhou para a T-shirt e disse: 'Ai, lembro, mas isto agora também não é assim, cada vez que querem vir aqui não pagam nada?'", recorda. "Nós nem respondemos, entrámos logo", conta Inês. "Eu nunca mais pago, vou pagar para quê?", insurge-se a portuguesa. "Pagámos para deixar lá um amigo nas algas".

Paula Telo Alves


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