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Franz Fayot. "O sistema de ensino luxemburguês discrimina os lusófonos"
Luxemburgo 9 min. 12.06.2019

Franz Fayot. "O sistema de ensino luxemburguês discrimina os lusófonos"

Franz Fayot. "O sistema de ensino luxemburguês discrimina os lusófonos"

Foto: Matic Zorman
Luxemburgo 9 min. 12.06.2019

Franz Fayot. "O sistema de ensino luxemburguês discrimina os lusófonos"

Nuno Ramos de Almeida
Nuno Ramos de Almeida
O novo líder do LSAP colocou a tarefa de “modernizar os socialistas” luxemburgueses, apostando na igualdade social, no ensino na luta contra o aquecimento global. O Contacto quis entender como é possível inverter o enfraquecimento dos socialistas no Grão-Ducado.

Há uma espécie de crise geral dos partidos socialistas e sociais-democratas. Concorda?

Penso que é uma afirmação verdadeira em geral, mas com importantes diferenças a nível das várias regiões e nações. Na Europa do sul, nomeadamente em Portugal e Espanha, a esquerda aguenta-se relativamente bem, o que provavelmente tem que ver com um contexto determinado nesses países. É também visível um certo regresso aos bons resultados eleitorais dos partidos socialistas nos países escandinavos. No entanto, em França e na Alemanha essa crise é bastante visível. Há, inegavelmente, um enfraquecimento geral dos partidos socialistas na Europa. Nas últimas eleições europeias, embora o grupo socialista continue a ser o segundo grupo mais importante no Parlamento Europeu, perderam-se cerca de 40 eurodeputados. Penso que mais que uma crise da social-democracia ela pode ser lida como uma crise dos grandes e históricos partidos populares. O mesmo que se passa com os sociais-democratas passa-se com as maiores formações políticas da direita. Veja-se o caso de França, em que o Partido Republicano e corrente gaulista, que dominou grande parte da política francesa, perdem grande parte do seu peso.

Qual é a origem dessa crise?

A crise dos grandes partidos populares tem um conjunto de razões comuns: a globalização e o capitalismo globalizado produzem uma crescente pobreza, aumentam as desigualdades, aprofundam a crise ecológica e multiplicam as crises financeiras. Perante isto tudo, os partidos tradicionais não foram capazes de dar as respostas necessárias. É preciso constatar que em muitos países as pessoas começaram a votar noutro tipo de partidos, como as forças populistas e os partidos extremistas de direita. Existe um retorno à ideia de nação, ao isolacionismo, fenómeno que não se esgota na Europa, como se pode ver pelos casos de Donald Trump nos Estados Unidos e de Bolsonaro no Brasil. As pessoas parecem ter deixado de acreditar nos partidos tradicionais, porque estes falharam no encontrar das soluções dos problemas face a um capitalismo globalizado.

Há alguma alternativa a esse capitalismo globalizado?

Há uma alternativa que não é simples nem fácil. Os partidos socialistas europeus tentaram apresentá-la durante a campanha para as eleições europeias, em que o Partido Socialista Europeu tinha propostas muito interessantes. Nomeadamente, a partir do relatório europeu sobre a igualdade durável, que pretende definir à escala europeia um reforço do Estado Social e uma transição ecológica que seja justa num plano social. Penso que há coisas para fazer e existe uma verdadeira alternativa que precisa de soluções bastante radicais.

Não existe também um problema de democracia? Há um mercado europeu mas não existe uma verdadeira democracia europeia…

As pessoas sentem-se perdidas com esta globalização e é verdade que é um pouco desencorajador o pouco entusiasmo nestas últimas eleições europeias. Participei em várias iniciativas de campanha, e se há gente que está motivada, temos a impressão que em geral o entusiasmo é bastante fraco em relação a este assunto, quando é ao nível europeu que as coisas são em grande parte decididas. Há bastantes coisas que será preciso fazer para aprofundar a democracia europeia, mas é preciso dizer que o Parlamento Europeu hoje tem já vários poderes.

Não há uma questão que mina a democracia europeia, independentemente das escolhas políticas dos eleitores, que é que as verdadeiras escolhas políticas não estão já ditada pelos tratados europeus, que impedem qualquer outro caminho?

É verdade. É uma questão de orientação da Europa. E esteve em cima da mesa nestas eleições, em relação ao que era proposto pelo candidato socialista à presidência da Comissão Europeia, Frans Timmerman, e o que era proposto pelo candidato do Partido Popular, Manfred Weber. Para este último, a Europa apenas pode funcionar no quadro destas regas do chamado rigor orçamental e disciplina financeira, segundo obriga o tratado orçamental. Para a direita, honrar os critérios de convergência do euro obriga a que a Europa não respeite os critérios sociais, ecológicos e os valores europeus. É verdade que houve sempre uma visão que a UE é sobretudo um mercado e que só de uma forma muito secundária tem uma dimensão social e ambiental. Isto é o que estava em causa nas últimas eleições europeias e vamos ver em que direção se vai andar. É preciso ver que consenso vai ser possível construir entre socialistas, verdes e liberais.

O seu pai, Ben Fayot, que foi também líder do Partido Socialista escreveu vários livros sobre a história dos socialistas no Luxemburgo e do movimento operário. Perante essa história, o que pensa que é eterno na ideia socialista?

Há valores muito fortes do movimento socialista que são válidos através do tempo: é a ideia da justiça em termos globais e sociais; é uma maior equidade ao nível da repartição da riqueza; a ideia da solidariedade; a ideia de humanismo e da emancipação pela educação e pela cultura. São tudo aspetos que sempre estiveram presentes nas ideias socialistas ao longo das várias épocas.

Quando foi eleito presidente afirmou que o Partido Socialista tinha a necessidade de se modernizar. O problema dos partidos socialistas não foi que, desde Blair, se modernizaram demasiado e perderam as suas raízes?

Não era uma modernização deste tipo que eu tinha na cabeça quando fiz essas declarações. É verdade que os partidos socialistas e sociais-democratas acomodaram-se demasiado ao modelo económico dominante a partir dos anos 80 e 90. Mas isso para mim não é uma modernização mas a adoção, sem resistência, de um modelo económico que se impôs. E a aceitação que o mercado vai regular tudo. Coisa que foi sobejamente desmascarada pela crise mundial de 2008. Estes líderes, como Blair, são provavelmente uma das razões da nossa fraqueza atual. Devíamos ter contestado esta doutrina económica mais cedo. O problema é que indo nesta direção liberal perde-se grande parte da identidade e do respeito dos valores socialistas essenciais.

Participam num governo que é dirigido por um partido liberal. É coerente com essas preocupações?

Não é sempre fácil. Não podemos esconder que vivemos num país liberal. As ideias económicas estão aqui muito ligadas ao crescimento e aos lucros. O que torna o nosso papel de contra-corrente muito mais difícil. Mas apesar disso, o DP não é tão radical no seu liberalismo como as conceções que podemos encontrar nos EUA, Reino Unido, ou em outros sítios. É um partido que é certamente conservador nas questões fiscais e económicas, mas com o qual se pode discutir produtivamente sobre questões sociais e direitos humanos.

A política de habitação dos governos não tem resultado na exclusão de grande parte dos estrangeiros e dos luxemburgueses mais pobres da possibilidade de viverem no sítio em que trabalham?

É a consequência mais de uma não-política de muitos anos, do que o resultado de uma política determinada.

Mas essa não política reiterada não pode ser considerada intencional?

Não penso que seja intencional, talvez seja resultado de uma política que é cómoda para alguns partidos e determinados interesses. Há, por exemplo, na cidade do Luxemburgo um fenómeno de gentrificação que pode vir no sentido das políticas do partido liberal, mas é um fenómeno que acontece também nas principais cidades da Europa. E pode ter resultados que não foram pensados e queridos. São apenas a consequência de políticas ultra-liberais que deixam a questão da habitação apenas ao mercado.

Como se compreende que não haja uma construção pública de habitação para tentar minorar essas dificuldades?

Porque isso nunca foi feito. Não há tradição desse género de políticas públicas no Grão-Ducado. Nós defendemos no nosso programa um conjunto de medidas que impeçam a especulação e que promovam a intervenção do setor público na questão da habitação. Mas há muito para fazer. A situação é muito complicada e de difícil resolução. Para já ela não abarca só os estrangeiros, mas afeta grande parte dos jovens luxemburgueses que são obrigados a procurar casa cada vez mais longe. Depois é muito difícil combater este imenso aumento de preços, quando todos os anos chegam milhares de pessoas ao Luxemburgo, em número mais elevado do que são construídas novas habitações. Um aumento de preços que é agudizado por um conjunto de pessoas, como as que trabalham no setor financeiro, que têm um forte poder aquisitivo e fazem, por isso, aumentar os preços ainda mais. A isso juntam-se os proprietários de terrenos, que os estudos dizem que estão altamente concentrados num pequeno número de pessoas, e que têm grandes interesses neste negócio.

Neste momento há uma política?

Temos um governo que tem um conjunto de medidas que se propõe fazer. Se são suficientes é uma outra questão. Não creio que a curto prazo o problema seja passível de ser resolvido. Há uma procura tão grande com 12 mil novas pessoas por ano que chegam ao Luxemburgo, que a oferta da habitação é muito insuficiente para colmatar esta situação. A própria ministra da Habitação já alertou contra expetativas demasiado elevadas.

Uma das prioridades do seu projeto de modernização dos socialistas no Luxemburgo é dar uma maior importância ao ensino. Aqui no Luxemburgo o ensino é uma ferramenta que funciona como um elevador social que pode empoderar os mais pobres ou é ainda um sistema que permite uma reprodução social e faz com que a desigualdade social se mantenha?

Infelizmente, há demasiado da segunda hipótese no nosso sistema de ensino. Ele reproduz mais as desigualdades que as colmata. Temos um sistema educativo que funciona bem para um certo tipo de crianças, que dominam as três línguas do país, mas que tem resultados bastante menos positivos para os outros. O que faz que muitas escolas reproduzam os esquemas sociais existentes. E é óbvio que o sistema de ensino luxemburguês discrimina os lusófonos. Isso parece-me muito claro.

E o que se pode fazer?

Tem que se analisar este modelo de línguas. Refletir se o trilinguismo funciona para todos os públicos que vão à escola pública. E ver se não é necessário criar seções linguísticas diferentes para alunos francófonos, lusófonos ou germanófonos. O que fizemos nos últimos anos foi alargar a oferta linguística. Mas ainda não se refletiu sobre isso. Mas é uma mudança muito complicada que exige o consenso de muitos setores. Temos que ir dando pequenos passos.

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