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Fissuras no paraíso
Editorial Luxemburgo 2 min. 25.09.2019

Fissuras no paraíso

Fissuras no paraíso

Foto: Tiago Figueiredo
Editorial Luxemburgo 2 min. 25.09.2019

Fissuras no paraíso

Nuno RAMOS DE ALMEIDA
Nuno RAMOS DE ALMEIDA
Luxemburgo é um país rico mas que infelizmente os filhos dos emigrante ainda não têm igualdade de oportunidades com os nacionais do Grão-Ducado.

Uma mãe, com dores que a impedem quase de respirar, escolhe pagar os livros de escola ao filho porque não tem dinheiro para pagar simultaneamente o médico e o material escolar.

Um jovem deixa de ter vontade de estudar porque o professor o força com sucessivos insultos a deixar de continuar a estudar.

Nesta edição do Contacto são publicadas duas excelentes reportagens, dos jornalistas Ricardo J. Rodrigues, Paula Cravina de Sousa e Sibila Lind, que revelam algumas das fragilidades do Luxemburgo. As páginas que vão ler mostram situações que são intoleráveis para uma sociedade desenvolvida que tem de ter a ambição de dar a todas as pessoas uma vida melhor.

Fiquemos pelas frases tiradas das reportagens que revelam algumas fissuras no paraíso:

“Uma pessoa não espera que uma associação como a nossa tenha de intervir no país mais rico da Europa. Uma pessoa não espera que, num estado onde a Segurança Social dá lucro, haja centenas de pessoas impedidas de aceder a cuidados médicos. Uma pessoa não espera que este problema exista, e muito menos que ele esteja a crescer a uma velocidade tão alarmante,” diz a diretora da ONG Médicos do Mundo.

“Quando chegas aqui, a primeira coisa que eles fazem é mandar-te para uma escola francófona, para uma turma de acolhimento”, garante Dúnia. Foi colocada no Liceu Técnico de Kirchberg, nas infraestruturas provisórias que existiam na altura – ou os “contentores” – como prefere chamar. “Tu chegas e eles metem-te em vários ateliês, que eles escolhem: cabeleireiro, cozinha, metalurgia, madeira... Como se fossem apenas estes os trabalhos que nós podemos ter”

Dominique Rocha tem pais cabo-verdianos, nasceu em França e veio para o Luxemburgo com cinco anos e meio. Quando ia para o secundário, o diretor da escola queria encaminhá-la para a via técnica. Mas as pretensões do responsável da escola contaram com a oposição do seu professor, que acreditava nas capacidades de Dominique. “Felizmente, o meu professor na altura bateu-se verdadeiramente por mim e a minha mãe também. O professor explicou à minha mãe que ela tinha o direito a opor-se à intenção de me enviarem para o técnico, já que as minhas notas davam para ir patra o clássico. E ela fê-lo”, diz. “Se temos capacidade para fazer qualquer coisa por que é que nos travam?”

O Luxemburgo é um país rico mas que infelizmente os filhos dos emigrante ainda não têm igualdade de oportunidades com os nacionais do Grão-Ducado. O ensino e a educação são os grande elevadores sociais que permitem as sociedades reduzir as desigualdades e impedir que um filho de pobre seja obrigatoriamente um pobre. Mas por vezes, o sistema de ensino e de saúde transformam-se em instrumentos numa engrenagem de reprodução da estratificação social. Isso não pode acontecer.

Nota: a fotografia deste texto faz parte da reportagem sobre o trabalho dos Médicos do Mundo para ajudar a prestar cuidados de saúde às pessoas mais desfavorecidas no Luxemburgo. 

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