Escolha as suas informações

Fia-te na lux e não corras
Editorial Luxemburgo 3 min. 15.03.2019

Fia-te na lux e não corras

Fia-te na lux e não corras

Imagem: Shutterstock
Editorial Luxemburgo 3 min. 15.03.2019

Fia-te na lux e não corras

Paula TELO ALVES
Paula TELO ALVES
Deus disse: "Fiat lux", e a luz fez-se. Veio João Galamba, secretário de Estado da Energia, e mandou: "Consumam mais".

Lê-se e não se acredita. Enquanto por todo o mundo estudantes preparavam cartazes para a greve pelo clima, numa manifestação sem precedentes contra as políticas que lhes roubam o futuro, João Galamba incentivava os habitantes do concelho da Guarda a consumir mais energia, para "justificar" o investimento da EDP na região: "Continuem a consumir, consumam mais". Foi há um mês, mas continua na ordem do dia. É que a injunção vira de pernas para o ar o interesse público: julgávamos que no país com a segunda eletricidade mais cara da Europa, onde ainda se morre de frio em casas mal aquecidas, a prioridade da política fosse baixar a fatura, permitindo a todos o acesso a um bem essencial que suprisse as suas necessidades. Julgávamos que tínhamos de reduzir o consumo de energia, para travar o aquecimento global do planeta. Julgávamos que tínhamos um secretário de Estado da Energia, saiu-nos um secretário de Estado da EDP.

Dentro deste espírito peregrino, aguarda-se que outros governantes falem com a sinceridade desarmante de João Galamba. O ministro da Administração Interna virá assim apelar aos criminosos para que cometam mais delitos, "justificando" o investimento feito na Polícia? O da Justiça, fazendo tábua rasa da separação de poderes, apelará aos juízes para condenarem mais, "justificando" o investimento feito nas prisões? Na Saúde, lamentará o responsável da tutela que as pessoas não adoeçam, para "justificar" o investimento dos privados? Numa crónica publicada no blogue Aventar, compara-se Galamba a Odorico Paraguaçu, o mítico prefeito da telenovela "O Bem Amado" que, depois de construir um cemitério, desespera porque o "povo de Sucupira" se recusa a morrer, impedindo-o de inaugurar - e assim "justificar" - o investimento feito.

E, no entanto, a frase de Galamba é menos excêntrica do que parece, confirmando, de forma canhestra mas iluminadora, a lógica intrínseca ao capitalismo: é preciso produzir mais, sempre mais, e consumir mais ainda, não para suprir quaisquer necessidades, mas para aumentar o lucro. A industrialização, diminuindo o valor da força do trabalho, diminuiu o valor da mercadoria? Produza-se mais mercadoria! Venda-se mais mercadoria!

Num texto publicado no livro "Sobre a balsa da Medusa - Ensaios acerca da decomposição do capitalismo", o filósofo alemão Anselm Jappe identifica a origem da crise ecológica no sistema capitalista. "O discurso ecologista explica-a frequentemente como a consequência de uma atitude errada do homem relativamente à natureza, uma espécie de avidez ou de rapacidade do ser humano enquanto tal. Ou então apresenta-se a ecologia como um problema que pode ser resolvido no interior do capitalismo, através do 'capitalismo verde'. [...] Na verdade, raramente se considera que esta mesma crise ecológica está profundamente ligada à própria lógica do capitalismo". Jappe explica com um exemplo prosaico: se um artesão demora uma hora a fazer uma camisa, um industrial com máquinas que produzem dez camisas numa hora fará camisas mais baratas, e terá de vender mais para manter os lucros. "Toda a história do capitalismo assistiu a um aumento contínuo da produção de mercadorias", com o único fim de compensar  a perda de valor e manter (ou aumentar) os lucros. E alerta: "A crise ecológica não pode encontrar a sua solução no quadro do sistema capitalista, que tem necessidade de crescer permanentemente, de consumir cada vez mais matérias-primas, apenas para compensar a diminuição da sua massa de valor". Já no caso da EDP, não só é a ganância da empresa a ditar o volume da produção, como o consumidor é preso por consumir e por não consumir: se não gastar toda a produção, o Estado indemniza a empresa com dinheiro dos cidadãos, e em qualquer caso a fatura mantém-se sempre alta.

João Galamba, no apelo que fez a mais consumo de energia na Guarda, devia pôr-nos em guarda: não é apenas mais um político em perigosa contra-mão ao sentido da história, é um secretário de Estado extremamente bem adaptado ao sistema absurdo em que vivemos. Seria errado apontar-lhe o dedo, isolando-o como uma exceção burlesca. As suas declarações, se outro mérito não têm, fazem pelo menos luz sobre as causas que conduzem à destruição do planeta, e demonstram a vã esperança de que uma política que serve interesses económicos nos salve.


Notícias relacionadas