Escolha as suas informações

Fernanda Batalau. "Estou mais preocupada com os meus empregados do que comigo”
Luxemburgo 3 min. 29.04.2020

Fernanda Batalau. "Estou mais preocupada com os meus empregados do que comigo”

Fernanda Batalau, empresária portuguesa, chegou ao Luxemburgo há 30 anos.

Fernanda Batalau. "Estou mais preocupada com os meus empregados do que comigo”

Fernanda Batalau, empresária portuguesa, chegou ao Luxemburgo há 30 anos.
Foto: DR
Luxemburgo 3 min. 29.04.2020

Fernanda Batalau. "Estou mais preocupada com os meus empregados do que comigo”

Álvaro CRUZ
Álvaro CRUZ
Fernanda Batalau chegou ao Luxemburgo em 1990, exatamente há 30 anos. Conhecida empresária no setor da restauração, possui vários estabelecimentos na capital (os cafés Relax e Boogy-Boogy e os restaurantes Puits Magique, Flor de Sal e Um Lomperang) e está, como toda a gente no setor, a viver momentos dramáticos devido à pandemia.

"Já tenho passado várias noites sem dormir devido a esta crise que nunca imaginei poder um dia viver", diz angustiada. "Na restauração, as coisas estavam a ficar cada vez mais complicadas nos últimos anos, mas sempre consegui equilibrar as contas e estabilizar a situação. Agora, tornou-se um pesadelo. Não apenas pelo dinheiro que não se ganha, mas sobretudo por aquele que se vai perdendo dia após dia, sem vislumbrarmos uma solução para a crise sanitária que está a fundar completamente a economia do país", diz.

As perdas vão-se aculumando e a situação torna-se cada vez mais crítica para toda a gente, sem exceção. Fernanda estima que "se o confinamento se prolongar por mais algumas semanas, a grande maioria dos restaurantes e cafés não vão aguentar, e muitos milhares de trabalhadores poderão ir para o desemprego, definitivamente".

Com cerca de 50 empregados e prejuízos mensais a rondar os 100.000 euros, a conhecida empresária portuguesa faz contas à vida e teme o pior. "Não sei onde isto vai parar. Os estabelecimentos fecharam de um dia para o outro, não pudemos fazer nada e ninguém sabe o que vai acontecer no futuro", lamenta com a voz embargada.

"Estou muito preocupada com os meus empregados. Coloco-me na pele deles e sei que não deve ser nada fácil viver neste clima de instabilidade. Mantemo-nos em contacto e eles dão-me força, mostrando-se positivos, mas imagino como devem estar os seus corações. Alguns deles trabalharam sempre para mim e não conhecem outro patrão desde que chegaram ao Luxemburgo. É uma situação muito difícil e que realmente me preocupa imenso", confessa.

"O Estado compaticipa com 80% dos salários e 5.000 euros por cada empresa com 9 trabalhadores, mas como tenho cinco estabelecimentos apenas posso beneficiar uma vez, o que é manifestamente pouco. As despesas são grandes e sem entrar dinheiro nenhum, as coisas vão piorando de dia para dia. Há os alugueres para pagar e só de um restaurante pago quase 10.000 euro por mês. Felizmente, alguns dos estabelecimentos tenho-os há já alguns anos e por isso as rendas não são das mais altas. No entanto, constituem uma despesa fixa que tem de ser paga, entre muitas outras", sublinha.


Remy Manso
Remy Manso. "Estou a perder muito dinheiro, mas vou dar a volta por cima"
É português e uma das maiores referências da restauração no Luxemburgo. Tem 34 anos, possui dez restaurantes e apesar da crise, garante que vai abrir mais um por cada mês que estiverem fechados.

Sem respostas sobre um futuro que avizinha incerto, Fernando teme pelo que se vai passar após a crise, mas reconhece que há gente em muito piores situações. "Se a vida não voltar à normalidade rapidamente, uma grande maioria não se vai aguentar. Receio mesmo que muitos não voltem a abrir as portas. Conheço algumas pessoas que estão em total desespero. Felizmente, eu ainda me conseguir orientar e como alguns tenho um pé de meia para fazer face às dificuldades, mas aqueles que começaram a vida no ramo há pouco tempo e investiram avultadas somas, estão, infelizmente, em grandes dificuldades".

Sem solução à vista para responder à crise, ainda pensou em confecionar refeições 'take-away', mas acabou por desistir, justificando que o "empate de capital em produtos e mercadorias não justificava" perante uma concorrência preparada para esse mercado específico.

Tem 25 pessoas a viver em quatros nos cafés e restaurantes aos quais garante almoços e jantares, e reclama a falta de estratégia por parte do governo. "Ninguém nos diz nada e desta forma ficamos sem saber o que fazer em relação ao futuro. O Governo podia contactar os comerciantes e dar umas pistas sobre o pós-crise para nos podermos orientar, mas infelizmente, não se passa nada e continuar na dúvida é complicado". 

Entretanto vai aproveitando o tempo de confinamento para passar com a filha de nove anos à espera de melhores dias.

Siga-nos no Facebook, Twitter e receba as nossas newsletters diárias.


Notícias relacionadas

Covid-19. Despedimentos em massa no final da crise?
Num confinamento que não se sabe quando terminará, muitos se questionam sobre o futuro pós-covid-19 e o consequente regresso à normalidade. As questões relacionadas com o emprego e como se vai portar a economia do país são de particular pertinência sobre os próximos tempos que muitos temem vir a ser sombrios.