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Félix Braz. "Para a geração mais antiga eu não sou o ministro, sou o filho do Braz"
Luxemburgo 11 min. 12.12.2018 Do nosso arquivo online

Félix Braz. "Para a geração mais antiga eu não sou o ministro, sou o filho do Braz"

Félix Braz. "Para a geração mais antiga eu não sou o ministro, sou o filho do Braz"

Foto: Gerry Huberty/Luxemburger Wort
Luxemburgo 11 min. 12.12.2018 Do nosso arquivo online

Félix Braz. "Para a geração mais antiga eu não sou o ministro, sou o filho do Braz"

Paula TELO ALVES
Paula TELO ALVES
Félix Braz está bem-disposto. No gabinete do Ministério da Justiça que já ocupava nos últimos cinco anos, mostra a sua nova fotografia na página do Governo, tirada nesse mesmo dia. "Aproveitem que hoje fiz a barba e tenho uma gravata bonita", diz. A gravata tem as cores da campanha de imagem do Luxemburgo, "Let’s make it happen". "Fui eu que a comprei", apressa-se a dizer o recém-empossado número dois do Governo. Uma entrevista em que recorda o pai, fala da infância na escola e admite as dificuldades que teve para se definir como português ou luxemburguês.

(primeira parte da entrevista)

(continuação da entrevista a Félix Braz)

Os seus pais vieram de Castro Marim, no Algarve.

A minha mãe é de Vale do Pereiro, o meu pai era das Furnazinhas [o pai já faleceu].

São aldeias próximas?

Sim, sim, a um quilómetro e meio. Não foram longe [risos].

O que é que os seus pais faziam quando vieram para o Luxemburgo?

A vida inteira do meu pai cá teve alguma coisa a ver com conduzir: foi ’chófer’ de autocarro, foi aliás o primeiro que fez uma viagem de autocarro Luxemburgo-Portugal. Não digo o nome da companhia, que ainda existe, mas na altura o patrão aproveitou a presença de um português com carta de condução de autocarros para ter essa ideia: “E se fizéssemos uma viagem Luxemburgo-Portugal?”. Foi motorista de camião numa empresa de cimento, em Esch e motorista de entregas numa empresa que vendia bebidas. E, finalmente, foi instrutor numa escola de condução, e ajudou milhares de portugueses a tirar a carta. Ainda hoje, quando vou a Esch – ainda hoje fui, com o meu ’chófer’, também de origem portuguesa, costumamos ir uma ou duas vezes por semana almoçar a um restaurante português –, e quando lá vou, essa geração que já cá está há mais tempo, quando falam de mim, não dizem “o ministro”, dizem “o filho do Braz”. A referência para eles continua a ser o meu pai. Ele é que ajudava as pessoas a tirar a carta, e esses ainda hoje dizem “o filho do Braz”. E a minha mãe, enquanto trabalhou, era costureira numa loja que fazia cortinas, em Esch.

Como é que foi ser português na escola luxemburguesa?

Eu nasci cá, os meus irmãos não. Eu fui um dos primeiros portugueses a nascer no Luxemburgo. Na altura havia muito poucos portugueses. Isso explica também por que razão o meu nome é apenas Félix Braz. De vez em quando as pessoas dizem-me: “Tu tens de ter outros nomes, por que é que não utilizas os teus outros nomes?”. “Porque não tenho mais”. Só tenho um apelido, que é Braz, e o meu nome, que é Félix, não tenho mais. Hoje é diferente: os portugueses, quando vão declarar os filhos à Câmara, já é aceite há muito tempo o nome do pai e o nome da mãe. Quando o meu pai foi para me declarar a mim, a resposta na Câmara foi: “Não, não, não. Cá é um nome só, e é o nome do pai”. Por isso é que eu só me chamo Braz, enquanto os meus irmãos têm mais nomes.

Com a nova lei da nacionalidade é possível acrescentar apelidos.

Exatamente. E como na altura havia muito poucos portugueses, a verdade é que eu integrei a escola primária sendo o único português. Os nossos vizinhos eram só luxemburgueses. Os únicos portugueses que nós víamos era ao fim-de-semana, quando o meu pai e a minha mãe não trabalhavam e aproveitavam para ir ver os amigos, que eram todos portugueses. Ia-se então almoçar e jantar na casa dos amigos, matar saudades e cantar em português [risos], mas isso era só ao fim-de-semana. E eu assim fui aprendendo luxemburguês, porque brincava com os meus vizinhos na rua. Em casa falava-se português e lá fora falava-se luxemburguês. Com o resultado de que eu, quando entrei na escola primária, falava luxemburguês praticamente como os luxemburgueses.

Sentiu alguma vez o estigma de ser português, ouvia piadas?

Piadas, sim.

Lembra-se de alguma?

Não, talvez porque nunca me causou problema. Primeiramente, porque quando eu entrei na escola o facto de ser português era uma coisa rara.

Não era visto como um handicap?

Não, pelo contrário. Eu vivi isso mais pelos olhos dos meus professores, porque a opinião deles podia ser determinante. E o sentimento era sempre que o facto de eu ser português tinha, aos olhos dos meus professores, alguma coisa de interessante: “Ah, um português na nossa turma”. Era sempre uma reação positiva a uma coisa nova, e nunca vivi isso como se tivesse um handicap ou algum problema. Mas eu estava consciente disso, era claro que eu era português, e eles viam-me como tal, mas nunca teve um impacto concreto. Eu sentia-me como português, aliás, sentia-me como todos os imigrantes: cá no Luxemburgo sentia-me mais português e quando ia passar férias a Portugal sentia-me mais luxemburguês. E isso, todos os imigrantes lhe vão contar. E levei muito tempo, quando me faziam a pergunta “o que é que tu és, português ou luxemburguês?”, a ser capaz de responder com facilidade. Durante muito, muito tempo – já era adulto –, ainda não conseguia dar uma resposta evidente a isso. Agora já há um certo tempo que consigo.

E qual é a resposta?

Tenho 52 anos anos. Nasci cá, sempre vivi cá. O que é que quer que eu seja? Eu sou luxemburguês com pais portugueses. Finalmente, a frase é muito fácil para descrever o que eu sou, e os dois têm importância, os dois contam, são constitutivos do que eu sou. Não me posso reduzir às minhas raízes. Uma árvore sem raízes não é grande coisa, mas só com raízes não chega a ser nada. Afirmar que sou luxemburguês com raízes portuguesas é uma frase que agora parece simples e evidente, mas demorei muito tempo a ser capaz de dizer as coisas de uma maneira tão fácil. Há 25 anos, a frase era muito mais longa e complicada.

Foto: Gerry Huberty/Luxemburger Wort

Fazia longas férias de Verão quando ia a Portugal, com os seus pais?

E sem eles, que eles não tinham dois meses de férias, porque trabalhavam. Eu passava as férias completas em Portugal, na casa de tias, com os primos e primas e tias e tios. Ia-se da praia para a serra e da serra para a praia.

Quando é que lá foi a última vez?

Este ano já lá fui três vezes, a última parece-me que foi em maio ou junho.

Que memórias tem desse tempo?

As lembranças que eu tenho são anteriores à adesão de Portugal à CEE, na altura. Fomos pela primeira vez no ano a seguir à revolução, até lá nunca tínhamos ido, nos tempos da ditadura, para chamar as coisas com o nome que merece. E a partir daí íamos todos os anos, e as imagens que tenho dessa altura é de um mundo diferente. Lembro-me de nessas primeiras férias, nas aldeias perto do litoral, já haver eletricidade e água canalizada, e quando ia para a serra – que não era longe, era 15 quilómetros mais para dentro –, não havia água, ia-se buscar ao poço, e eu ajudava a minha tia a ir ao poço. Não havia eletricidade, havia lâmpadas a petróleo. Não havia telefone. Depois passou a haver um telefone na aldeia, no café, e quando se queria falar com um tio telefonava-se para o café para o irem chamar e voltava-se a ligar dez minutos depois. Fazia-se tudo a pé ou com a mula, ou, com sorte, de autocarro, quando já havia autocarro, mas só havia dois por dia, um de manhã e outro para a volta. Isso faz parte do Portugal que eu conheci e que teve uma evolução enorme. Mas também mudou no sentido de uma democracia cimentada que nunca mais vacilou desde a liberdade, a seguir à revolução. Dessa mudança fala-se pouco, como se fosse evidente. Nada foi evidente, tudo foi querido pelos portugueses, e sem isso nada teria acontecido.

Disse que só passaram a ir de férias a Portugal depois do 25 de abril. O seu pai veio a salto?

O meu pai deixou Portugal em condições pouco legais, digamos, em condições em que não se poderia deixar um país hoje. Ele chegou a França, que era o país de destino dele, perto da fronteira luxemburguesa, e encontrou o seu primeiro emprego na siderurgia francesa. Chegou sozinho, como os imigrantes chegavam nessa altura, sem nada. Sem dinheiro, sem roupa, sem ideia de onde ia trabalhar, de onde iria dormir a primeira noite, nem onde iria comer, nem com que dinheiro pagar. Sem nada. Hoje parece difícil de imaginar, mas era nessas condições que uma pessoa conseguia sair de lá, e chegou a França sem nada na mão e no bolso, só com esperanças. A única coisa que tinha era esperança.


Contacto. ITV Justizminister Felix Braz,.Foto: Gerry Huberty/Luxemburger Wort
Félix Braz. "Até à idade adulta, não foi fácil dizer se era português ou luxemburguês"
Félix Braz está bem-disposto. No gabinete do Ministério da Justiça que já ocupava nos últimos cinco anos, mostra a sua nova fotografia na página do Governo, tirada nesse mesmo dia. "Aproveitem que hoje fiz a barba e tenho uma gravata bonita", diz. A gravata tem as cores da campanha de imagem do Luxemburgo, "Let’s make it happen". "Fui eu que a comprei", apressa-se a dizer o recém-empossado número dois do Governo. Uma entrevista em que recorda o pai, fala da infância na escola e admite as dificuldades que teve para se definir como português ou luxemburguês.

E agora o Félix Braz é o número 2 do Governo. Tem a ambição de ser o número 1?

Só tenho uma ambição: é fazer o trabalho e assumir a responsabilidade que tenho. Eu nunca tive esse tipo de ambição. Fui trabalhar para os Verdes no dia 1 de janeiro de 1991, depois de ter feito a primeira emissão em português na rádio [RTL]. Fiz essa emissão porque achava importante que existisse. Na altura não existia programa diário em português para informar os portugueses rapidamente sobre o Luxemburgo. E eu interrompi os meus estudos para fazer essa emissão. Hoje digo que foi a minha primeira decisão política. É um bocadinho na brincadeira, mas também é verdade: decidir “não te ocupas agora de ti, vais-te ocupar dos outros”, foi essa a escolha que eu fiz. E sem arrependimentos. Muito boa decisão, aquilo tinha de ser feito, e foi aí que conheci o Eduardo [Dias – responsável do departamento de Imigrantes da OGBL], a quem deixei a emissão. E continuamos a ser amigos. E a seguir fui trabalhar para os Verdes, também andaram atrás de mim para o fazer. Nunca foi com a ideia de participar em eleições, foi porque achei que era uma experiência interessante para quem estava a estudar Direito, ver como as leis são feitas...

A prática em vez da teoria.

Era para ser só um ano, e finalmente fiquei lá. Mas quando fui trabalhar para os Verdes, em 1991, para quem tivesse alguma ambição política, era a escolha mais estúpida que podia existir. Quem tinha ambição de fazer uma carreira política ia para o CSV, para os socialistas ou para os liberais [DP]. Eu fui para os Verdes, não por ter na cabeça uma carreira pessoal política. Era um partido em que eu já tinha votado, mas não por ter a ambição de fazer carreira política. Nunca tive essa ideia. Foi sempre fazer as coisas bem feitas nas oportunidades que eu tinha. Foi o que fiz quando fui secretário parlamentar, conselheiro comunal, vereador, primeiro vereador, deputado, ministro e agora vice-primeiro-ministro. A única ambição que eu tenho é fazer o meu trabalho.

Uma medida importante para os próximos cinco anos.

Neste Ministério, sem dúvida nenhuma, a criação do Conselho Nacional de Justiça e a revisão constitucional que vai formalizar a independência da magistratura e da Justiça no Luxemburgo. Essa reforma é sem dúvida a reforma mais fundamental, que eu fui preparando na legislatura passada e que, espero, poderá ser formalizada agora no contexto da revisão constitucional.

Da legislatura anterior, uma medida que tenha sido importante para si.

Há muitas em que objetivamente foram feitas reformas que já deviam ter sido feitas há muito tempo, mas há duas que destaco. Uma foi a lei da nacionalidade, porque foi uma reforma que eu fiz com uma certa emoção. E quando o projeto-lei foi votado no Parlamento, permiti-me no fim do debate exprimir uma pequena emoção que aliás me ia ganhando, porque acho que realmente, como filho de imigrantes, poder fazer uma reforma da lei da nacionalidade, no país que acolheu os meus pais e onde eu nasci, não é muito habitual. Isso não diz grande coisa sobre mim ou sobre os meus pais, mas diz bastante sobre o Luxemburgo. Tudo pode ser criticado e melhorado, mas o facto é que este Luxemburgo permitiu que um filho de imigrantes pudesse reformar as condições de acesso à nacionalidade.

E a outra?

A outra reforma foi votada no fim da legislatura, com os direitos das pessoas LGBTI [Lésbicas, Gays, Bissexuais, Transexuais e Intersexo]. Poucas pessoas são afetadas, mas para essas é uma reforma vital. Isso também diz muito sobre o Luxemburgo: uma sociedade mede-se realmente pela sua maneira de tratar as minorias. Trabalhámos a noite inteira para conseguirmos que a lei fosse votada antes do fim da legislatura, e ela diz muito sobre a tolerância neste país.

Apesar disso, na sexta-feira uma questão parlamentar do ADR defendia que a heterossexualidade é "tradicional e natural". Quer comentar?

Eu comento essencialmente as reações, praticamente unânimes [de condenação da questão parlamentar]. Provocar todas essas reações foi positivo e mostra uma sensibilidade e reatividade na população luxemburguesa para defender os direitos das minorias. Essas pessoas são menos em números, mas são igualmente importantes em dignidade e em direitos.

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