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Félix Braz, o lusodescendente a quem já só falta ser primeiro-ministro

Félix Braz, o lusodescendente a quem já só falta ser primeiro-ministro

Foto: Guy Jallay
Luxemburgo 6 min. 04.12.2018

Félix Braz, o lusodescendente a quem já só falta ser primeiro-ministro

Paula TELO ALVES
Paula TELO ALVES
O congresso dos ecologistas deu luz verde à nomeação de Félix Braz para vice-primeiro-ministro, o número dois do governo. Retrato do lusodescendente que subiu degrau a degrau as escadas da política no Luxemburgo.

Tem sido o primeiro lusodescendente nos vários cargos políticos que foi ocupando, mas diz sempre que “espera não ser o único”. É uma frase que repete com frequência, desde que se tornou no primeiro lusodescendente eleito para cargos políticos no Grão-Ducado, em 1994, numa progressão que o levou da política autárquica, em Esch-sur-Alzette, até aos mais altos cargos no Governo.

O ecologista de 52 anos, filho de imigrantes portugueses que chegaram ao Luxemburgo nos anos 1960, foi o primeiro vereador e o primeiro deputado – e até hoje o único – de origem portuguesa no país. Foi eleito pela primeira vez para para a Câmara dos Deputados em 2004, com 38 anos. Em dezembro de 2013, tornou-se também no primeiro lusodescendente a assumir o cargo de ministro no Luxemburgo, para mais com a pasta da Justiça, um dos setores em que foram feitas mais reformas no último mandato, a começar pela lei da nacionalidade.

Esta noite, o congresso do Déi Gréng (“Os Verdes”), convocado para aprovar o programa governamental e os titulares das dez pastas atribuídas aos ecologistas, deverá aprovar a nomeação de Félix Braz para um dos dois cargos de vice-primeiro-ministro da coligação, atribuído “ex aequo” aos Verdes e aos Socialistas. Um feito que, a confirmar-se, tem um valor político simbólico, num país em que quase 17% da população é portuguesa. Mas Félix Braz, ao telefone com o Contacto, momentos antes do início do congresso, agendado para as 18h30, não quis deitar os foguetes antes da festa, lembrando que a nomeação ainda tem de ser aprovada pelo Congresso: "É uma questão de respeito pelos membros e pelo nosso congresso". Mas congratulou-se pelo que isso representa para o partido: "É uma confirmação dos bons resultados eleitorais dos Verdes, que se manifesta na atribuição do cargo de vice-primeiro-ministro ao nosso partido". Os dois cargos de vice-primeiro-ministro, atribuídos aos Verdes e aos socialistas, vão ser exercidos em simultâneo, e não de forma rotativa, confirmou igualmente Félix Braz ao Contacto.

Lex Kleren

Casado e pai de dois filhos, Félix Braz costuma dizer que é “o único estrangeiro” na família, já que os pais e os irmãos continuam a ter nacionalidade portuguesa. O lusodescendente nasceu em 16 de março de 1966 em Differdange, no sul do Luxemburgo, filho de imigrantes algarvios de Castro Marim. Obteve a nacionalidade luxemburguesa em 1984, quando fez 18 anos, num episódio que recordou ao Contacto em abril de 2017, quando entrou em vigor a nova lei da nacionalidade, de que foi responsável. “Eu estava em Portugal a passar férias e estava para voltar ao Luxemburgo, no aeroporto de Faro. Já tinha feito o check-in e estava à espera na porta de embarque. Estava lá um militar, com metralhadora e tudo, a fazer o controlo de passaportes, e quando viu o meu passaporte disse-me: ’Você não pode ir, porque está em idade de ir à inspeção, e para sair do país precisa de um carimbo no passaporte’. Eu expliquei que não estava nessa situação, porque vivia no Luxemburgo, mas ele não me deixou entrar no avião. Aquilo para mim foi um grande choque: um militar a dizer-me o que eu tinha que fazer! Um tio meu lá tratou de arranjar o tal carimbo no passaporte, e dois dias mais tarde já estava no avião para o Luxemburgo. Mas aquilo chateou-me de tal maneira que o avião aterrou pouco antes do meio-dia, o meu pai foi-me buscar, e às duas eu estava na Câmara de Belvaux a pedir para ser luxemburguês. Eu queria voltar a Portugal – ia a Portugal todos os anos passar férias –, e não queria que isso me acontecesse novamente, que um militar me dissesse ’tu ficas cá’.”

Facilitar o acesso à nacionalidade foi o objetivo da lei de que foi responsável, aprovada no ano passado, no rescaldo do chumbo do referendo sobre o direito de voto dos estrangeiros em eleições legislativas. Nessa altura, o ministro admitiu que foi “uma honra” ser o autor da nova lei da nacionalidade e que o diploma também foi importante “a título pessoal”: esteve “a um milímetro” de se comover, disse então ao Contacto. “No final do debate com os deputados, exprimi a minha satisfação por viver num país que acolheu os meus pais e permitiu a um filho de imigrantes fazer uma nova lei sobre uma questão tão fundamental como a nacionalidade”, recordou o ministro. “Isso diz mais da abertura do Luxemburgo [em relação aos estrangeiros] do que sobre mim”, afirmou.


Félix Braz.
Entrevista: Nova lei da nacionalidade “é mais aberta e acessível”
Filho de imigrantes algarvios, o ministro da Justiça esteve “a um milímetro” de se comover quando apresentou a nova lei da nacionalidade no Parlamento. Mas apesar de alguns avanços, o diploma, que entrou em vigor a 1 de abril, foi criticado pelas associações de estrangeiros. Em causa está a exigência do luxemburguês, que transita da lei anterior e continua a ser o maior obstáculo à naturalização. Ao Contacto, Félix Braz disse que voltar a admitir as três línguas oficiais “é hoje politicamente impossível”, mas defendeu que a nova lei “é mais aberta e acessível” e “permite o acesso de todos” à nacionalidade.

Félix Braz frequentou Direito na Sorbonne, em Paris, um curso que não chegou a concluir: convidaram-no para fazer o primeiro programa de rádio em português na RTL, entre 1990 e 1991, e mais tarde propuseram-lhe ser secretário do grupo parlamentar dos Verdes, cargo que ocupou até 2000. Em 1994 foi eleito pela primeira vez para a autarquia de Esch-sur-Alzette, ainda como conselheiro comunal, tendo assumido o cargo de vereador em 1999. Em 2004, tornou-se no primeiro deputado lusodescendente no Luxemburgo. Em 2013, assume o cargo de ministro da Justiça no Governo de coligação formado pelo DP, Socialistas e Verdes. Nessa altura, no dia em que tomou posse no Palácio grão-ducal, este ícone da integração política dos portugueses no Luxemburgo destacou o valor dos imigrantes no país. “Nunca é fácil tentar integrar-se noutro país, e as pessoas que vão para outro país para melhorar as suas vidas são verdadeiros heróis. A integração não se mede só em termos de cargos políticos. Há muitos portugueses, e eu conheço muitos, que têm conseguido coisas valiosas aqui no Luxemburgo”, disse então Félix Braz.

Ele é no entanto o nome mais destacado na política luxemburguesa, e já só aguarda a "luz verde" do congresso para se tornar no número dois do Executivo. Depois disto, já só lhe falta ser primeiro-ministro?, perguntamos-lhe. Félix Braz ri-se. "Não, agora falta trabalhar durante cinco anos". E garante que "os partidos da coligação estão altamente motivados para continuar a modernização do país", defendendo que o acordo governamental assinado ontem "é melhor e mais ambicioso que o acordo de 2013, pelo menos por parte dos Verdes, também devido ao sucesso dos Verdes nas eleições".

Os Verdes foram um dos grandes vencedores das eleições legislativas de 14 de outubro, com mais três deputados do que em 2013, o que representa "os melhores resultados nos últimos 35 anos" para os ecologistas, disse Braz. "É um resultado histórico para o partido", sublinhou na altura o luxemburguês de origem algarvia. Os Verdes subiram de seis para nove deputados. O DP perdeu um deputado, ficando com 12. Os socialistas (LSAP) perderam três, ficando com dez.

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