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Família de português que morreu em acidente de trabalho quer respostas
Luxemburgo 5 min. 07.11.2018

Família de português que morreu em acidente de trabalho quer respostas

Família de português que morreu em acidente de trabalho quer respostas

Foto: Chris Karaba
Luxemburgo 5 min. 07.11.2018

Família de português que morreu em acidente de trabalho quer respostas

Paula TELO ALVES
Paula TELO ALVES
O acidente em 10 de novembro de 2016 nas obras do centro comercial Auchan, em Gasperich, "podia ter sido evitado se tivessem sido seguidas todas as normas de segurança", considerou na altura o ministro do Trabalho. Dois anos depois, a família do trabalhador português que morreu continua sem saber a causa do acidente.

Dois anos depois da morte de um trabalhador português nas obras do centro comercial Auchan em Gasperich, a família continua sem saber as causas do acidente, que feriu gravemente também outro português. Eram 10h20 quando se deu o acidente, a 10 de novembro de 2016. Paula Almeida, viúva de Mauro, não vai esquecer esse dia. Amigos ligaram-lhe "a perguntar se o Mauro estava bem", conta ao Contacto.

A trágica notícia só chegaria mais tarde, quando Paula se dirigiu ao local onde o marido estava a trabalhar, no centro comercial Auchan, a ser construído em Gasperich. O português, de 32 anos, morreu no local. Outro ficou gravemente ferido. O acidente deu-se quando uma placa de betão desabou e "atravessou vários andares", segundo fonte da Polícia. A vítima mortal trabalhava "há muitos anos" na empresa de construção CBL, era casado e deixou dois filhos gémeos, com cinco anos.

Passaram-se dois anos, e a família continua sem resposta sobre as causas do acidente. Há um inquérito em curso, mas a juíza de instrução continua sem receber o relatório pericial sobre a origem do acidente que vitimou Mauro. "Ao fim de dois anos, não temos nada, nem notícias da juíza responsável pelo inquérito, a não ser que ainda está à espera do tal relatório", conta Paula. "Não saber o que se passou também não nos ajuda", lamenta a viúva. "Eu queria saber o que é que se passou".

Ministro disse que houve falhas de segurança

A família está ainda mais perplexa com a demora na conclusão do inquérito, tendo em conta que o ministro do Trabalho, Nicolas Schmit, considerou que tinha havido falhas de segurança, logo na altura do acidente, em declarações ao Contacto. Nessa altura, o ministro disse a este jornal que o acidente que provocou a morte do trabalhador português e feriu outro gravemente "podia ter sido evitado se tivessem sido seguidas todas as normas de segurança". E precisou que poderia ter havido negligência na forma como foram tratadas as lajes de betão. "Os acidentes podem ser evitados se não houver negligências que, ao que parece, ocorreram e estiveram na origem deste acidente", disse então Nicolas Schmit ao Contacto.

Segundo o ministro disse nessa altura, os primeiros elementos do inquérito "mostra[va]m, manifestamente, que houve negligência na forma de tratar as lajes [de betão]", mas recusou avançar mais informações até às conclusões do inquérito serem tornadas públicas. "Não posso dar precisões técnicas, mas em qualquer caso este acidente podia ter sido evitado se tivessem sido seguidas todas as normas de segurança", afirmou então Nicolas Schmit.

Não saber o que se passou também não nos ajuda. Viúva de trabalhador português

Poucas horas após o acidente, o ministro do Trabalho enviou condolências aos familiares da vítima, uma mensagem sem precedentes no Luxemburgo. "Quero transmitir as minhas condolências à família e às pessoas próximas da vítima e [desejar] um rápido restabelecimento aos trabalhadores que ficaram feridos", disse o ministro em comunicado.

Um dia depois, o Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa, também lamentou a morte do cidadão português. Numa nota divulgada na página da Presidência na Internet, o chefe de Estado acrescentou que "acompanha[va] a situação clínica de outro cidadão português, ferido com gravidade no mesmo acidente" e expressou "às famílias das vítimas a sua solidariedade nesta hora de angústia".

Esse foi um ano negro no setor. Morreram seis trabalhadores em acidentes na construção, o dobro das vítimas mortais registadas no ano anterior, segundo dados da Association Assurance Accident. Pelo menos três eram portugueses. Ao Contacto, o ministro disse na altura que o número de vítimas era "inaceitável". "É um escândalo que as pessoas morram no local de trabalho", disse então Nicolas Schmit, garantindo que o inquérito ao acidente em Gasperich iria "até às últimas consequências", para apurar as causas e "evitar outros acidentes no futuro".

"Uma laje não cai do nada", acusa família

Dois anos depois, silêncio rádio. E Paula Almeida não se conforma com a ausência de respostas, sem as quais também não poderá ser determinada uma indemnização à família. "A questão financeira é importante para os meninos, mas isso não é o mais importante. É não darem resposta, não sabermos o que se passou, e sobretudo continuarem como se nada fosse, como se nada tivesse acontecido", lamenta. "A gente vive todos os dias com uma falta, com uma dor. Os filhos não vão ter um pai, e ele era um pai muito bom", diz Paula Almeida. "Ele perdeu a vida e era preciso eles tirarem alguma consequência do que se passou", insta a viúva.

"Aquilo não foi um erro qualquer, não foi uma pessoa que escorregou e caiu, uma laje não cai do nada", acrescenta o pai de Paula, Armando Almeida, que é chefe de equipa noutra empresa de construção e conhece bem o ramo. Sem saber as causas do acidente, não é possível fazer com que outros sejam evitados, defende Paula. "Era [preciso] eles aprenderem com este acidente."

Obras sob pressão

Mauro era um dos muitos trabalhadores que estavam nas obras do centro comercial, a "trabalhar muitas horas". "Aquilo era uma pressão enorme", recorda Paula Almeida. No local, trabalhadores por turno sucediam-se dia e noite, entre as 6h da manhã e as dez da noite. "Ele na semana anterior [ao acidente] tinha estado a trabalhar das 14h às dez da noite", conta Paula. Na semana em que o acidente se deu, Mauro cumpria o turno "das 6h da manhã às 14h". Estava a trabalhar há quatro horas quando a laje ruiu, custando-lhe a vida.

Paula Almeida gostava que o acidente que vitimou o marido servisse para impedir que as obras se realizem com uma pressão tão grande, já que, quanto mais depressa, mais riscos há de acontecerem acidentes. Para a viúva, a Inspeção do Trabalho (ITM, na sigla em francês) deveria avaliar se os prazos estabelecidos para a conclusão da obra são razoáveis. "O que eu gostava é que o ITM, quando uma empresa propõe um prazo, avaliasse se é possível fazer a obra naquele espaço de tempo. Não era dizerem que fazem num ano e serem precisos dois".

Para obter respostas sobre o acidente é que vão ser precisos mais de dois anos. Para a família, ainda é difícil ver o local onde Mauro perdeu a vida. "A gente ainda não consegue lá passar." O Contacto tentou ouvir o advogado da família, mas não foi possível em tempo útil.

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