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Família de Ksenia está há mais de um mês no Luxemburgo: "É comovente"
Luxemburgo 4 7 min. 13.04.2022
Guerra na Ucrânia

Família de Ksenia está há mais de um mês no Luxemburgo: "É comovente"

Guerra na Ucrânia

Família de Ksenia está há mais de um mês no Luxemburgo: "É comovente"

Fotos: DR
Luxemburgo 4 7 min. 13.04.2022
Guerra na Ucrânia

Família de Ksenia está há mais de um mês no Luxemburgo: "É comovente"

Tiago RODRIGUES
Tiago RODRIGUES
A família de Ksenia foi uma das primeiras a chegar da Ucrânia ao Luxemburgo. Estão há mais de um mês numa casa de luso-romenos em Rumelange, mas continuam sem trabalho e sem escola para a filha.

Ksenia chegou ao Luxemburgo no dia 3 de março, com a mãe e a filha. Tinham fugido da sua cidade, Zaporizhzhya, uma semana antes, quando os russos invadiram a Ucrânia. Percorreram mais de mil quilómetros, a pé e de transportes, até à fronteira polaca, deixando para trás um pai e um irmão, que ficaram para lutar. Dali viajaram até ao Grão-Ducado, à boleia de um voluntário inglês, Gavin, que as deixou com uma família de acolhimento. Foram recebidas na casa de Liliana e Ioan Grigor, ela portuguesa e ele romeno, em Rumelange, onde estão a viver há mais de um mês.

A família de Ksenia foi uma das primeiras famílias de refugiados ucranianos a chegar ao Grão-Ducado. O Contacto contou a história da sua viagem de mais de seis dias e mais de 2.600 quilómetros e continuou a acompanhar a sua integração durante o último mês no novo país. Ksenia tem 29 anos. Fugiu da guerra com a mãe, de 52, a filha, de cinco, e o gato. Na casa dos Grigor encontraram uma nova família. O casal luso-romeno tem três filhos, um menino, de oito anos, e duas meninas, de cinco e três anos. Agora são oito pessoas a viver juntas.

Liliana, Gavin, o voluntário inglês que foi buscar a família ucraniana à fronteira na Polónia, Ioan e a mãe de Ksenia (da esquerda para a direita), convivem na sala da casa dos Grigor.
Liliana, Gavin, o voluntário inglês que foi buscar a família ucraniana à fronteira na Polónia, Ioan e a mãe de Ksenia (da esquerda para a direita), convivem na sala da casa dos Grigor.
Foto: DR

Até agora, tem corrido “tudo bem”, diz Ksenia. “Damo-nos bem e passamos tempo juntos. Fomos apresentados a amigos e familiares [da Liliana e do Ioan]. Houve um divertido churrasco com muitos risos e danças. Assistimos a danças romenas, foi muito interessante”. Uma das principais dificuldades ao início foi a comunicação, uma vez que as ucranianas ainda não falam outras línguas, mas Ksenia consegue ir dizendo algumas coisas em inglês. “Pude até brincar e explicar algumas das piadas da Ucrânia e sobre a situação atual, por exemplo, sobre a palavra-teste ‘palyanitsia’ [é um tipo de pão ucraniano cujo nome os russos têm dificuldade em pronunciar]. E rimo-nos, porque ninguém conseguia pronunciar esta palavra. Eu disse-lhes que agora que não podem ir à Ucrânia, porque não passarão no teste”, recordou ela, entre risos.

Usamos o tradutor e falamos um pouco inglês. Também aprendemos um pouco de russo.

Liliana Madeira Grigor

As ucranianas foram-se “habituando” à nova vida, apesar da dura realidade que continua a chegar-lhes todos os dias através das imagens do seu país a ser destruído pela Rússia. Elas estão a dormir juntas num quarto adaptado que Liliana e Ioan usavam como escritório, no primeiro de três andares, que tem ainda duche e casa de banho. No segundo andar está a sala de estar e cozinha e no terceiro os quartos do casal e dos filhos. No início, elas foram “ativamente levadas” para diferentes locais, para tratar dos registos e das compras, para que não se perdessem. “Agora já nos orientamos e continuamos a explorar a cidade”, contou Ksenia.

As crianças também se adaptaram rápido e têm uma boa relação. “Jogam juntas todos os dias. Há situações engraçadas em que elas não se entendem e esticam as bochechas, dizendo ‘agora já não somos amigos’, mas passados cinco minutos voltam a rir-se. As crianças a ser crianças”, brincou a mãe. A menina de cinco anos ainda não está na escola, porque o “registo não é rápido” e ainda não houve tempo para fazer o exame médico obrigatório. “Fomos ao Ministério da Educação e eles disseram-nos que aqui não é igual à Ucrânia, que não existe um jardim de infância a que estamos habituados, só a escola. Uma vez que a minha filha ainda é pequena, ela não precisa de uma escola multilingue. Por conseguinte, ela irá calmamente para a escola no local da sua residência”.

A mãe, a filha e Ksenia na fronteira polaca, em Dołhobyczów-Kolonia.
A mãe, a filha e Ksenia na fronteira polaca, em Dołhobyczów-Kolonia.
Foto: DR

O Ministério da Educação recebeu pedidos de cerca de mil menores da Ucrânia que precisam de ser integrados nas escolas após as férias da Páscoa. Espera-se que cerca de 500 alunos comecem na primeira semana. As crianças do ciclo 1 frequentam o sistema clássico do Luxemburgo, enquanto os alunos do fundamental têm a escolha entre uma escola luxemburguesa ou uma internacional. Já os alunos do ensino secundário irão todos frequentar uma escola internacional. Irá também haver “aulas ponte” na Escola Nacional de Adultos para os jovens que terminaram o secundário na Ucrânia e ainda cursos de línguas para adultos no Serviço de Formação para Adultos e no Instituto Nacional de Línguas.


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Voltar a aprender para trabalhar

Ksenia é uma entre milhares de refugiadas ucranianas que está à procura de emprego no Luxemburgo. Ainda não conseguiu trabalho, mas continua a tentar. “Nesta fase, respondo e ligo a potenciais empregadores. Uns pedem um bom conhecimento de línguas, como o francês ou o alemão. Outros precisam de especialistas com um foco muito específico. Há muitas nuances diferentes”, explicou. A mulher de 29 anos lembra que depois de ter sido mãe, teve de fazer uma pausa no trabalho e agora precisa de “pôr em dia o material novo”, porque “a informação é atualizada muito rapidamente na área da Tecnologia da Informação”.

Por enquanto, Ksenia vai tentando aprender as línguas e voltar a estudar para poder ter mais oportunidades de emprego. “Uma menina deu-me um curso online no Google, escolhi a via profissional e os estudos ao mesmo tempo, apesar do facto de ter uma educação superior. Nunca é tarde demais para aprender e penso que isto também me ajudará a encontrar em breve o emprego ideal para mim e, consequentemente, a tornar-me uma trabalhadora necessária e útil”, reconheceu.

Damo-nos bem e passamos tempo juntos. Estamos muito gratas pela ajuda.

Ksenia

Quanto à sua mãe, apesar dos 52 anos, também está a tentar integrar-se na sociedade luxemburguesa da melhor forma possível. “Ela também está bem. Estamos a aprender o francês juntas através de uma aplicação. Ao mesmo tempo, tricotamos camisolas, chapéus e discutimos como ela pode ser útil no país, uma vez que ela, como eu, não conhece as línguas”, afirmou Ksenia. “A maior dificuldade é que ela terá de dominar as tecnologias da Internet, muito provavelmente, uma vez que não será aceite sem saber pelo menos uma das línguas. Ou talvez sejamos apenas más a procurar”, brincou a ucraniana.

De resto, a vida tem sido boa, apesar das circunstâncias, para Ksenia e a família no Grão-Ducado. Em grande parte, devido à hospitalidade de Liliana e Ioan, que as acolheram de braços abertos. “Parentes e amigos da família vêm visitar-nos quase todos os fins de semana. É interessante para nós comunicarmos e eles parecem gostar de nós também. Trazem-nos comida, o que é muito agradável, e estamos muito gratas por tal ajuda. Eles são muito simpáticos”, disse a jovem.


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Mil crianças ucranianas vão para a escola depois da Páscoa
O Ministério da Educação está a trabalhar numa oferta escolar para as crianças refugiadas ucranianas. As escolas internacionais desempenham um papel importante.

A ucraniana contou ainda que, recentemente, a mãe da Liliana visitou a casa por ocasião do aniversário da neta e também a puderam conhecer e “celebraram todos juntos”. Também já tiveram a oportunidade de ir passear na capital. “Fomos visitar familiares no centro do Luxemburgo. Temos interesses em comum, como tricotar, divertimo-nos imenso. Isto é surpreendente, uma vez que comunicamos quase com os dedos, mas isto não interfere em nada com a nossa interação”, assegurou Ksenia.

Apesar de já estarem no Luxemburgo há mais de um mês, as ucranianas só visitaram os locais onde foram tratar dos documentos, como o Gabinete Nacional de Acolhimento (ONA) ou o Ministério da Educação, mas também passearam “um pouco nos locais por perto”, sobretudo para ir às compras. “Nas lojas locais, os vendedores já nos reconhecem, sorriem para nós. Muitos exprimem simpatia, desejam-nos paz. É comovente. Deixam-nos em lágrimas”. Uma réstia de esperança para a família de Ksenia, que vai vivendo a nova vida com o sonho de um dia poder voltar à velha casa.

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