Escolha as suas informações

Exercício de previsão sem ajuda astrológica
Luxemburgo 8 min. 30.12.2020

Exercício de previsão sem ajuda astrológica

Exercício de previsão sem ajuda astrológica

Florin Balaban
Luxemburgo 8 min. 30.12.2020

Exercício de previsão sem ajuda astrológica

António Raúl VAZ PINTO DA CUNHA REIS
António Raúl VAZ PINTO DA CUNHA REIS
O ano que vem vai ser difícil (a gente diz sempre isto, não é?) mas ficaria um bocado irritado se, do ponto de vista da Humanidade como um todo, fosse pior que este.

O chefe de redação telefonou-me na semana passada e disse-me que gostava que eu escrevesse alguma coisa sobre como vai ser 2021. Respondi-lhe que não sou o Zandinga e muito menos a Maya. Ele riu-se e interrogou-se se o Zandinga já tinha morrido. Respondi que se tiver morrido isso prova que o homem era uma fraude; a não ser se tiver adivinhado o dia da sua morte.  Perguntei-lhe: posso fazer uma lista de desejos? Ele disse que não. Que isso se faz no Natal e que no Natal não há nenhum especial para eu poder dizer o que queria ver no sapatinho.  

Convidei-o para almoçar: nada melhor do que um belo prato do dia para convencer um chefe de redação. Eh pá, não posso que isto está uma loucura com gente de férias e uma edição especial. Fica para o ano. OK, fica para o ano. Depois, um dia, quando um de nós não tiver nada melhor para fazer, vai enviar uma mensagem e perguntar: almoçamos para a semana?

 Fiquei sem tempo para debater o conteúdo do artigo que agora está a ler. Não me meti logo ao trabalho e agora estou a escrever umas curtas horas antes do momento de publicação.  Isto dos jornais em formato papel é terrível. Há verdadeiras datas de fecho: se não se respeitam não há jornal ou, pelo menos, não sai o artigo que chegar atrasado. 

 Já sei o que desejo mesmo para 2021: Mais tempo!

Tempo

Quando o confinamento nos caiu em cima, na primavera deste famigerado ano de 2020 que todos querem ver pelas costas, pensei que o facto de ficar fechado em cada ia aumentar a minha produtividade. 

Pensei que ia escrever aqueles livros que quero publicar desde 1989. Pensei que ia ver os filmes todas da wishlist da Netflix; e se calhar também os da Apple e mesmo os da Amazon Prime. Pensei ainda que desta vez é que ia fazer exercício físico organizado e inscrever-me num ginásio. Infelizmente o Governo também fechou os ginásios e, apesar de eu querer mesmo muito passar duas horas a correr numa passadeira, não foi possível. 

 Nada mas nadinha daquilo que previ para os confinamentos sucessivos se realizou. Nem sequer consegui limpar as 52.397 fotos que tenho no telemóvel, o que parecia ser uma tarefa fácil, exigindo apenas solidão para que ninguém veja algumas imagens e screenshots menos aconselháveis a mentes sensíveis.  

Por isso para 2021 peço tempo. Peço que as empresas percebam que um empregado pode trabalhar a partir de casa e que não é por isso que vai produzir menos. E peço que isso nos permita a todos uma vida mais saudável e um trânsito mais fluido, para que eu possa ir ao escritório sem me levantar tão cedo. Ou então que eu também possa teletrabalhar muitas mais vezes, já que durante quase todo este ano o fiz e o mundo não se desmoronou (se o meu chefe ler isto espero que recorde os meus esforços durante os confinamentos e que aproveite para me dar uma promoção).  

E ora aí está! Outra coisa que desejo para 2021: Mais dinheiro.

Dinheiro

Outra das grandes desilusões de 2020 foi o falhanço total da minha estratégia de poupança. Quando percebi que ia ficar fechado em casa pensei: vou poupar uma fortuna em restaurantes. Eu, que não sei estrelar um ovo sem rebentar a gema, passo a vida - ou melhor passava - em restaurantes.  

Os confinamentos criaram-me assim um imenso problema: como vou comer em termos se não posso ir ao restaurante? Graças a algumas almas caridosas, que não queriam que eu perdesse peso, comi bem nuns dias e nos outros fui inventando receitas meias feitas em que o microondas desempenhava um papel central. Entretanto, o mercado adaptou-se a casos perdidos como eu e os restaurantes começaram a organizar entregas e teicauei. 

A outra grande despesa aqui do je são as viagens. E sobretudo os hotéis. Gosto de hotéis melhores e mais confortáveis do que o lar doce lar onde vivo. E de preferência com melhores vistas do que o apartamento onde vivo, cujo jardim dá para as traseiras da quintarola do senhor Schmitz e onde um galo canta todos os dias de verão às cinco da manhã.  Os hotéis estão pela hora da morte. O euro já tinha disparado os preços lá para cima e, desde então, os destinos mais turísticos da Europa viveram um permanente upa-upa. 

Como não podia sair de casa, o coronavírus tinha todo o potencial para ser o meu melhor aliado nas poupanças e um bom amigo da Mme Albertini da Caisse d’Épargne que tem uma paciência enorme para me ligar quase todos os meses a dizer que vai ter de bloquear o Mastercard, que o senhor Reis entende mas já ultrapassou bastante o limite... 

Apesar de não haver restaurantes nem hotéis, consegui gastar tanto como antes da pandemia. Se calhar não devia ter comprado aquele carro duas semanas antes do confinamento. É verdade que ainda não serviu muito...  E também podia ter evitado encher a casa de novos aparelhos de som, mas o raio das colunas têm uns baixos que não lembram. E sinceramente eu estava mesmo a precisar de um novo ecrã para ligar ao laptop. Ninguém consegue trabalhar naquele ecrãzinho. E tendo em conta o tempo que passei a teletrabalhar convém salvaguardar os olhos. 

A mesma lógica se aplicou à compra de uma impressora e de outros acessórios essenciais para fazer da casa um escritório.  Pois. Muito dinheiro voou através da Amazon e de outros comércios em linha que, apesar da pandemia e do confinamento, me apareciam à porta com belas caixas quase todas as manhãs. Muito prático até porque em 2020 eu até estava em casa para receber os pacotes. Acho que em março foi a primeira vez que vi as fardas dos senhores da UPS em vez de ir ao depósito em Sanem ou noutro sítio para lá do sol-posto (reconhecem o snobismo de quem vive na cidade do Luxemburgo não reconhecem? Pois. Eu vivo na Stad...).  

E não se esqueçam que os confinamentos tiveram interrupções. Soltaram a malta sem nenhum apoio psicológico e a malta que fez? Tomou decisões péssimas, como a de ir para aquele hotel de sonho em Cascais ou para um hotel menos de sonho, mas duas vezes mais caro, em St. Tropez. E já me estava a esquecer da Madeira onde a hotelaria é suposto ser mais barata mas, ó cromo, se fores para o hotel mais caro do Funchal já se sabe que até o pão do caco é barato. Ah e o saco da Chanel nos anos da Maria Rita. É foi carito, mas ela gostava mesmo de ter um... 

É por estas e por outras que desejo mais dinheiro em 2021. O meu sincero objetivo para o ano que vem é que eu, e muitas outras pessoas, os caros leitores incluídos, possam ter mais dinheiro para gastar nas lojas e nos negócios daqueles que em 2020 perderam muito. A minha vontade, puramente altruísta e acertada do ponto de vista macroeconómico, pode resolver a crise que a pandemia veio trazer. Podendo paralelamente satisfazer os irritados do Facebook que acham que tudo está mal, que os políticos não deviam existir e que a democracia devia ser posta em standby para tomar medidas sérias como diminuir os deputados ou deixar de ajudar quem precisa.  

Ora aqui está outra coisa que desejo para 2021: Mais democratas. 

Juizinho, inteligência e democracia

Nunca pensei dizer isto na minha vida. Não é por não ser democrata ou não acreditar na democracia tal como a conquistámos na Europa, mas porque ela está em risco e eu tenho medo. Muito medo.

Gosto tanto, mas tanto, das liberdades de expressão, de escolha e de votar regularmente em quem me apetece, que fico angustiado quando me dizem que, se expulsarmos umas quantas pessoas de uma minoria qualquer para outro sítio, o mundo vai ficar melhor. Não vai. Se calhar o teu bairro vai ficar menos colorido e muito menos interessante, mas a Humanidade vai ficar muito pior. 

 Não sei se o que quero para 2021 são mais democratas ou simplesmente mais compaixão e respeito pelo próximo. Mais abertura de espírito, mais inteligência, na verdade. 

 O ano que vem vai ser difícil (a gente diz sempre isto, não é?) mas ficaria um bocado irritado se, do ponto de vista da Humanidade como um todo, fosse pior que este. Mas ninguém se iluda, nós, pessoas, somos capazes de nos melhorarmos constantemente, mas somos também muito capazes de fazer merda, como não lembra ao mais criativo argumentista cinema de terror. 

Quem podia ter imaginado que, algures na China, um gajo ia comer um pangolim e dias depois começar a tossir (esta ideia por acaso até tinha dado origem a um filme e tudo). 

Seria certamente tratado de imbecil quem dissesse: e que tal se voltássemos a ter um militar à frente do Brasil? 

E quem poderia acreditar que metade dos eleitores de um país que tanto deu à democracia e ao mundo, poderiam achar bem que um empresário mal educado daria um bom presidente? 

A vida é maior do que o cinema. E os filmes de 2021 ainda estão por escrever. Dê lá a sua ajudinha para que 2021 seja melhor do que 2020 e, já agora do que 1917 ou 1933...


Siga-nos no Facebook, Twitter e receba as nossas newsletters diárias.