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Europeias. Isabel Wiseler-Lima diz que "Europa precisa de mais imigrantes"
Luxemburgo 5 min. 22.05.2019 Do nosso arquivo online

Europeias. Isabel Wiseler-Lima diz que "Europa precisa de mais imigrantes"

Europeias. Isabel Wiseler-Lima diz que "Europa precisa de mais imigrantes"

Foto: Gerry Huberty/Contacto
Luxemburgo 5 min. 22.05.2019 Do nosso arquivo online

Europeias. Isabel Wiseler-Lima diz que "Europa precisa de mais imigrantes"

Nuno RAMOS DE ALMEIDA
Nuno RAMOS DE ALMEIDA
A candidata do CSV às próximas eleições europeias defende uma política que combata as desigualdades. Só melhorando a vida das pessoas é possível combater a extrema-direita.

Ser eurodeputada vai significar uma mudança grande no seu trabalho?

No dia 26 é que são as eleições. No Luxemburgo não são os partidos que decidem quem vai ser eleito. Se for eleita claro que vou com todo o gosto, mas não é por ser cabeça de lista que tenho a garantia de ser eleita. Agora quero dizer que o simples facto de estar a fazer esta campanha já está a valer a pena. Há muitas pessoas que ainda não sabem a importância que o Parlamento Europeu e as instituições europeias têm nas suas vidas. Dá-se muitas vezes como adquirido, sem se valorizar suficientemente, o papel que a Europa tem em vivermos sem guerras e termos um Estado de Direito. 

Esperemos que não voltem outra vez os monstros que tivemos na Europa. Infelizmente, a situação não está para termos toda a segurança que gostaríamos a esse respeito, devido a esta subida da extrema-direita a que assistimos um pouco por todo o mundo. Recuso-me a dizer que tenho medo. Esta situação dá-me é energia, indignação e determinação para combater aquilo que está a acontecer.

No vosso grupo há partidos de extrema-direita, como o partido de Viktor Orbán (Fidesz), que governa na Hungria.

É verdade. Mas o CSV desde há cinco anos que começou a agir contra Viktor Orbán. Foi por iniciativa dos luxemburgueses e do CSV que se tomaram medidas contra esse partido, que neste momento está suspenso.

A passagem eventual do Fidesz para um grupo europeu de extrema-direita não pode ter como efeito colateral ainda reforçar mais esta sensibilidade no Parlamento Europeu e enfraquecer o PPE?

Até pode haver esse risco. Mas não são aceitáveis as posições desse partido. Não queremos ter nada a haver com esse senhor. A gente viveu em ditadura em Portugal. Sabemos o que significa não ter liberdade, haver polícia política e não existir liberdae de imprensa. Há momentos em que não se pode continuar calado sem agir. É preciso ser forte. Se for necessário deve haver sanções económicas contra quem não respeita a democracia, os direitos humanos e a liberdade na União Europeia.

Uma situação cada vez mais difícil de fazer cumprir com dez partidos de extrema-direita no poder na UE. Até Marine Le Pen já diz que é possível mudar a UE por dentro. A Europa não é corresponsável pelo crescimento desses partidos, pela forma como as decisões são tomadas e pela forma como se geriu a crise das dívidas soberanas?

Se formos ver o caso de países que estiveram no centro da crise das dívidas soberanas como Portugal, Irlanda e até a Grécia, a extrema-direita ou não existe ou está longe de ser maioritária. Não foi aí que cresceram mais essas forças políticas. Tenho muito orgulho que o Luxemburgo e Portugal, com a Irlanda e Malta, sejam os únicos países da UE onde não há extrema-direita.

Orgulho-me de ter nascido em Portugal, ser luxemburguesa e até ter um filho e um neto na Irlanda. Não somos perfeitos e o mundo não está fácil. Mas quando se lê o compromisso de 20 pontos sobre o pilar social da Europa, que foi assinado pelo presidente da Comissão Europeia e pelo presidente do Conselho, que aborda muitos aspetos, desde a igualdade da mulher até ao necessário equilíbrio entre o tempo de trabalho e de lazer, sabemos estar no caminho certo.

Não queremos ter nada a haver com esse senhor [Viktor Orbán]. A gente viveu em ditadura em Portugal.  

Mas isso não é apenas uma declaração simpática de intenções?

É muito mais do que isso, marca um rumo. Um rumo que é preciso concretizar e aprofundar. É claramente por não termos ainda conseguido uma vida decente para todas as pessoas que se criou uma situação em que há espaço para o crescimento da extrema-direita. Isto, associado à dificuldade de gerir certos fenómenos, como o afluxo de refugiados e migrações em massa, que não foram devidamente resolvidos pelos países da União Europeia. Estes erros e insuficiências permitiram às forças de extrema-direita explorar a insegurança das pessoas, fazendo uma mistura falsa e demagógica entre os refugiados e a prática de atos terroristas. 

O que as pessoas não estão a perceber, até porque felizmente viveram sempre em liberdade, é que não há coisa pior que viver sem democracia. E aqueles que prometem tirar a liberdade para dar segurança, estão no fundo a acabar com a segurança e a liberdade.

Numa recente sondagem aos europeus revela-se que uma dos primeiras preocupações dos eleitores são a imigração e segurança, enquanto as questões do emprego e sociais estão relegadas para o fim da tabela. Isso não é uma vitória da extrema-direita?

Sim, até quando se vê que a Europa precisa de imigrantes. É por isso que é preciso combater a desinformação. Apostar em ter médias de qualidade, e conseguir que os políticos usem uma linguagem que as pessoas compreendam, que permita que estejam próximos das pessoas e conheçam os seus problemas. A extrema-direita simplifica e atinge as pessoas com respostas demagógicas que não respondem à complexidade das coisas. É preciso uma linguagem que permita às pessoas discutir e abarcar essa complexidade. É preciso maior transparência e participação no processo europeu.

No vosso programa está o objetivo de uma maior igualdade e de haver um orçamento europeu mais reforçado. Acham que é necessário alterar a moeda única?

A moeda única é muito positiva. Mas é preciso aumentar o orçamento europeu e melhorar a política de investimento dos fundos europeus. Isto apesar de a UE já participar em milhares de projetos de beneficiação das populações. É preciso tornar visível até que ponto a Europa já ajuda o desenvolvimento. Sem esquecer de fazer mais coisas para combater as zonas de pobreza existentes. Agora pôr em causa aquilo que trouxe uma grande estabilidade e desenvolvimento é que é completamente errado.