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Europeias. Há portugueses no Luxemburgo que votaram pela primeira vez em muitos anos
Luxemburgo 8 6 min. 26.05.2019

Europeias. Há portugueses no Luxemburgo que votaram pela primeira vez em muitos anos

Europeias. Há portugueses no Luxemburgo que votaram pela primeira vez em muitos anos

Foto: Guy Jallay
Luxemburgo 8 6 min. 26.05.2019

Europeias. Há portugueses no Luxemburgo que votaram pela primeira vez em muitos anos

Paula TELO ALVES
Paula TELO ALVES
O recenseamento automático dos portugueses no estrangeiro é a novidade nestas eleições europeias. Cerca de 48 mil imigrantes no Luxemburgo podiam escolher os candidatos de Portugal ao Parlamento Europeu.

"Primeira vez em 16 anos". Foi há 16 anos que António Ferreira chegou ao Luxemburgo, e desde que imigrou, nunca mais votou nas eleições em Portugal. "Como a gente não estava muito a par disto...", justifica o português. 

Este ano, com o recenseamento automático dos portugueses no estrangeiro, António e a mulher não tiveram de fazer nada para poderem votar nos candidatos portugueses nestas eleições europeias. "Estávamos em casa, em Esch, e dissemos: 'Temos de ir votar'. Já há 16 anos que não votávamos [nas eleições portuguesas]. Nas autárquicas [no Luxemburgo] já estamos inscritos, foi logo que fez cinco anos", o prazo de residência na altura em que chegaram ao país. Mas António está preocupado com a abstenção. "O Presidente da República disse que era bom virmos votar, porque é bom para Portugal e para a comunidade europeia. Então a gente ouviu isso, e foi uma boa lição que ele deu".


Marcelo muito preocupado com a abstenção nas europeias
Insistindo na preocupação, Marcelo Rebelo de Sousa deixou um apelo ao voto: "Os portugueses têm ainda cerca de seis horas para votar. Arrumem a sua vida, os que foram passear, os que foram para o campo, foram para a praia, que voltem a tempo de votar ainda"

Nestas eleições europeias decidem-se os 751 deputados ao Parlamento Europeu, e os portugueses no estrangeiro podiam optar por votar nos candidatos luxemburgueses ou participar nas eleições em Portugal. A novidade é que, para votar nos candidatos portugueses, o recenseamento passou a ser automático, tendo o número de portugueses inscritos nos cadernos eleitorais do Consulado de Portugal no Luxemburgo passado de 2.163 para cerca de 48 mil. Para eleger os candidatos no Luxemburgo, havia cerca de sete mil portugueses.

Manuel Barbosa veio votar nos candidatos portugueses, enquanto a filha foi hoje votar nos luxemburgueses, em Dalheim. Ele chegou ao Luxemburgo em 1985 e já votou em eleições anteriores, e defende que votar "é um dever". "Devíamos vir todos". Mas se não fosse o recenseamento automático, alguns dos que hoje passaram pelo Consulado não teriam ido votar - caso de Vítor Simões, chefe de equipa no setor da construção, e Ana Andrade, enfermeira. "Já estamos aqui há sete anos e foi de facto a primeira vez", conta Ana Andrade, que admite que "nem sabia o que era preciso" para se recensear. "O facto de o recenseamento ser automático ajudou, porque provavelmente não teríamos pensado nisso", concorda Vítor. A enfermeira portuguesa está preocupada com o futuro da Europa. "Começou com o Brexit e agora estamos a ver uma Europa muito de extrema-direita, populista e com políticas radicais, nomeadamente em relação à emigração", lamenta Ana Andrade.       

Francisco Sassetti, o responsável pela programação de música do mundo na Philharmonie, interrompeu a corrida de domingo para vir votar. "A maratona é daqui a uma semana, e nós temos sempre uma equipa na Philharmonie. E como eu não costumo correr, tenho de me preparar", explica. De calções e auscultadores, depois de ter feito três quilómetros, votar levou pouco tempo, até porque foram poucos os portugueses que votaram esta tarde no Consulado de Portugal no Luxemburgo, em Merl. "É pena, sobretudo numa altura em que a Europa está a desviar-se para partidos extremistas, e é uma obrigação de cidadania. Votar é um dever e um privilégio. E aqui votar é facílimo: o facto de não haver gente a votar faz com que se vote em 30 segundos".

A chanceler do Consulado e presidente de uma das mesas, Elisabete Soares, disse ao Contacto que foram "menos de uma dezena" os portugueses que vieram ao engano e não puderam votar, durante os dois dias em que as duas secções de voto estiveram abertas, no sábado e no domingo. "Houve algumas pessoas que não estavam recenseadas, porque fizeram o cartão de cidadão [com a morada do Luxemburgo] já depois do fecho dos cadernos eleitorais. E tivemos alguns cidadãos que pensavam que podiam votar nos dois lados, que vieram para votar mas que estavam inscritos para votar no Luxemburgo", explica. "Não houve muitos, e a maior parte das pessoas compreenderam", diz, lamentando que "algumas pessoas sejam relapsas" e não tenham consultado os cadernos eleitorais para saber se estavam recenseadas.

Emília Soares foi um desses casos. A engenheira de Braga chegou ao Luxemburgo em 2012 e ainda tem a morada portuguesa no cartão de cidadão, mas veio votar acreditando que estava recenseada, por estar inscrita no Consulado. À saída, visivelmente desiludida, admite que deste vez achava mesmo importante votar. "Este pólo contra a Europa está a tornar-se fortíssimo, e eu sou pró", diz a engenheira, que trabalha numa fábrica de componentes para baterias. "Estou com receio que daqui a uns anos mais países queiram continuar a sair". Emília já usufruiu de algumas das vantagens de ser europeia: fez Erasmus em Inglaterra e garante que "ir para fora" a fez subir uns pontos no mercado de trabalho em Portugal. "Logo que voltei consegui emprego". E só se mudou para o Luxemburgo para acompanhar o marido, que veio trabalhar numa das instituições europeias.

As consequências do Brexit também preocupam Sílvia Cid, dentista, de 31 anos. "Nesta altura, é muito importante, mais do que nunca, demonstrarmos enquanto cidadãos que pertencemos à Europa e que participamos nas decisões que são tomadas".  

Maria da Glória veio de Esch-sur-Alzette com o marido, os dois chegados em 2016. "Foi uma voltinha que a gente veio dar. Faz bem apanhar sol e faz bem à democracia". O marido, Paulo Soares, também está preocupado com "o assunto do momento, o Brexit". "É uma união desunida", lamenta. "Nós estamos aqui porque há Europa. Se não estivéssemos, era muito mais difícil", defende este serralheiro. 

O casal chegou há três anos ao Luxemburgo e Paulo diz que o país "já não é um mar de rosas". "Os mais velhos dizem que dantes conseguia-se juntar, e neste momento está tudo muito espremido". Sobretudo com "as rendas das casas, que são um balúrdio", acrescenta Maria da Glória. Mas se o Luxemburgo já não é um Eldorado, "Portugal é bem pior", critica a imigrante. "Já viu os ordenados lá? O ordenado mínimo não chega a 600 euros". Paulo acha que a desigualdade económica é um dos maiores problemas da União Europeia. "Há uma discrepância no salário mínimo: no Luxemburgo são mais de dois mil euros, na Bulgária são menos de 300. Havia de haver um equilíbrio".

Dina Diamantino está há oito anos no Luxemburgo e esta foi a primeira vez que votou, "em qualquer eleição". A empregada de escritório veio de Esch-sur-Alzette neste domingo, de transportes públicos. Vários autocarros e um comboio depois, estava visivelmente satisfeita por ter participado nestas eleições. "Acho que é muito importante a situação do clima. Temos que começar a olhar mais para a natureza e menos para a economia", defendeu.

Segundo informações de uma das mesas de voto, no sábado terão votado no Consulado menos de 150 portugueses no Luxemburgo. Hoje, a chanceler do Consulado confirmou ao Contacto que a afluência não foi grande, e se concentrou sobretudo "ao fim da manhã e à hora de almoço", mas recusou divulgar o número de pessoas que votaram até à contagem final.


Só votaram 460 portugueses no Consulado do Luxemburgo, PS vence eleições
Com o recenseamento automático, o número de imigrantes no Luxemburgo nos cadernos eleitorais subiu de dois mil para quase 48 mil. Mas só 460 pessoas votaram nos candidatos portugueses ao Parlamento Europeu.


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