Escolha as suas informações

Europeias. Goerens "surpreendido" pelos extremistas não estarem "mais fortes"
Luxemburgo 5 min. 24.05.2019 Do nosso arquivo online

Europeias. Goerens "surpreendido" pelos extremistas não estarem "mais fortes"

Europeias. Goerens "surpreendido" pelos extremistas não estarem "mais fortes"

Foto: Chris Karaba
Luxemburgo 5 min. 24.05.2019 Do nosso arquivo online

Europeias. Goerens "surpreendido" pelos extremistas não estarem "mais fortes"

Paulo Pereira
Paulo Pereira
Charles Goerens, o experiente cabeça de lista pelo DP, destaca as apostas do programa eleitoral e fala na vantagem de ter Mónica Semedo ao seu lado.

É eurodeputado em períodos diferentes (82/84, 94/99 e desde 2009): como compara o tempo atual com o começo?

A diferença é substancial, desde logo porque, quando comecei, a assembleia parlamentar tinha conotação académica, isto é, tomávamos conhecimento de diversos assuntos e trocávamos ideias entre representantes de dez países, cujo passado era prestigioso. Em 1983 lançaram-se as bases da União como a conhecemos hoje, sobretudo por intermédio de Altiero Spinelli, um comunista italiano e antigo prisioneiro de guerra na ilha de Ventotene, que escreveu com outro prisioneiro, Eugenio Colorni, um manifesto que seria base para a criação de uma Europa federalista, tornando-se um dos mais influentes deputados do Parlamento Europeu. Depois o Parlamento ganhou poderes, primeiro com base num compromisso com a presidência italiana do Conselho em exercício, na altura sobre um pequeno aspeto da política orçamental então designado como despesas não obrigatórias, decididas por todos os países, em relação ao qual o Parlamento obteve a codecisão. Foi o início de uma bola de neve, de tal forma que hoje temos codecisão com o Conselho em 95% da legislação.

Também no âmbito político houve alterações...

No plano político, no início dos anos 80 a União era o motor da integração e agia para lá das suas fronteiras. Quisemos fazer mais, mas fomos bloqueados pela rigidez na relação com o Leste europeu em tempo de Guerra Fria. Agora não existem obstáculos, mas em tudo o que aplicamos a lógica intergovernamental, não se avança – são os casos da política externa e da defesa, muito longe de um Exército europeu. A globalização determina o modo como nos deslocamos e são os gigantes que influenciam a vida em conjunto da União, ou seja, estamos numa americanização da sociedade com o desaparecimento do multilateralismo, porque os Estados Unidos procuram acordos bilaterais em que sejam os mais fortes. Isto é um convite à Europa que deve ser campeã do multilateralismo.

O DP aposta num programa centrado em temas do clima, de índole social e da integração. Quais se destacam no primeiro caso?

No caso do clima, há uma notícia má e outra boa: a primeira é que estamos à beira do abismo; a segunda é que podemos fazer alguma coisa para impedir que a temperatura média global aumente 1,5%. Temos elementos para desenvolver a economia sem recurso a combustíveis fósseis como a tecnologia do hidrogénio, a produção de eletricidade a partir da energia solar e das eólicas. No plano técnico é possível, mas precisamos do acompanhamento político. Como os Estados Unidos se retiraram dos Acordos de Paris, a Europa deve assumir a iniciativa. O próximo Presidente da Comissão Europeia deve, antes de ser eleito, refletir sobre isto e definir a estratégia, porque temos cerca de 15 anos para inverter a tendência. E vamos enviar uma carta aberta aos diversos candidatos ao cargo para os sensibilizar neste sentido. A produção de energia elétrica é realizável e temos de falar com a China, que representa 33% das emissões de CO2, com a Índia, com a Rússia, com o Médio Oriente, com África, e organizemos um pacto contra as alterações climáticas.

E no plano da política social?

Temos como prioridade rever tratados para reforçar o âmbito social da União, rejeitando o dumping social e fiscal de forma clara. Há 100 milhões de pessoas que vivem abaixo do limiar da pobreza ou da precariedade e a competência social nunca se desenvolveu nos tratados da União, mas deve haver uma política dos Estados-membros no sentido de uma convergência neste campo.

Que proposta salienta em matéria de integração?

Aí falamos de dignidade primeiro. É essencial que a União, fundada em valores como tolerância, liberdade, responsabilidade ou solidariedade, esteja à altura dessa fundação. Polónia e Hungria estão sob procedimento da Comissão por desrespeito às regras do Estado de Direito e a sua atitude é inaceitável, ignorar o que têm feito seria o princípio do fim da União. Como é preciso mudar tratados para que as sanções deixem de ser decididas por unanimidade e passem a sê-lo por maioria, defendemos que não haja alargamentos até que isto mude, mesmo que os países interessados em aderir possam beneficiar de quase tudo menos de questões institucionais. É uma forma de pressão sobre quem não respeita as regras e nunca trabalhou sobre o seu passado.

Receia a subida dos extremistas nestas eleições?

Quando se conhece a União, não se deve ter medo dos extremistas, mas dou um parecer negativo a todos os disparates e às lacunas da política europeia e só me surpreende que não estejam já mais fortes. Exploram fatores da política europeia como a ausência de emoção social num contexto em que a globalização acabe por penalizar as populações. E, como a classe média foi a mais atingida, quanto mais sofre mais se radicaliza e o elevador social deixou de funcionar. Tudo porque a globalização nos expôs a uma concorrência brutal recheada de desigualdades e em função da digitalização que cria inúmeras vítimas e enormes danos colaterais.

Ter Mónica Semedo como segunda cabeça de lista é uma vantagem suplementar para o DP?

É muito salutar, porque Mónica é muito competente, fez estudos políticos e a imagem da menina apresentadora de programas de TV é redutora. As suas origens cabo-verdianas permitem-lhe desempenhar papel de relevo no capítulo da integração, não só pela sua total identificação com o país, mas também porque é um motivo de orgulho para a comunidade cabo-verdiana e lusófona. Com ela temos um meio de ligação a essa comunidade muito ativa e original, e sei bem do que falo porque fui ministro da Cooperação. E dá garantias a quem tenha medo do exterior.

Siga-nos no Facebook, Twitter e receba as nossas newsletters diárias.