Europeias. Carole Thoma diz que “faz falta mais solidariedade na UE"
Europeias. Carole Thoma diz que “faz falta mais solidariedade na UE"
Colocam o trabalho e as questões sociais no centro da vossa mensagem. Parece-lhe que a União Europeia também o tem feito?
Em alguns casos a política da União já é progressista, existe alguma segurança para quem trabalha, mas é preciso fazer mais, e reparamos nisso sobretudo num pequeno país como o Luxemburgo ao qual chega muita gente de diferentes países e que tem necessidade de não sofrer com um dumping social como já sucede com o dumping fiscal. É preciso que haja um salário mínimo social europeu, por exemplo, para que as pessoas possam viver do seu salário na União.
No vosso programa referem um pacto de desenvolvimento económico, social e ecológico que seja solidário, uma mudança face aos pactos de estabilidade. Porquê mudar? Por causa dos efeitos da austeridade?
Há, de facto, demasiadas políticas de austeridade, incluindo no Luxemburgo e, quando estamos nessa lógica, não há lugar a uma política social por parte do Estado. Quem tem dinheiro vive sem problemas, mas os mais pobres não têm oportunidades. É preciso investir nos serviços públicos para que toda a gente possa beneficiar com eles. Quanto ao desafio ecológico, precisamos de um outro sistema económico e social, porque tudo funciona em conjunto e o atual não pode continuar, precisamos de um que seja mais sustentável. As desigualdades sociais também representam um papel na questão ecológica. É preciso castigar as multinacionais e grandes empresas que mais poluem. Além disso, para lá das energias renováveis, devemos sobretudo poupar energia e não consumir cada vez mais, porque as otimizações técnicas não chegam.
Vê a União cada vez mais distante dos cidadãos?
Não sei se isso tem mudado muito desde o início, não sei se a União alguma vez esteve próxima das pessoas. Acima de tudo começou por ser uma União económica e não tanto social. Com o tempo, a entrada de mais países e a existência de mais pessoas com dificuldades isso tornou-se mais evidente. Claro que é um problema e vimos isso em iniciativas cidadãs com abaixo-assinados que tiveram mais de um milhão de assinaturas, mas sem sucesso. E isso vai gerando frustração.
Isso contribui para altas taxas de abstenção...
Sim, as pessoas não veem soluções na política, pensam que esta se afastou delas e muita gente não vê qual é o interesse da União. Fala-se pouco e vê-se pouco do Parlamento Europeu, quem tenta entrar no site não encontra a informação que procura e não querem que as pessoas entendam, os dados estão escondidos e as pessoas não percebem qual é o interesse de votarem.
Defendem o acolhimento dos refugiados em condições respeitáveis: a União deve definir regras que sejam para todos nesse âmbito?
Na nossa opinião, é preciso repartir melhor o acolhimento aos refugiados e aos migrantes, porque um dos grandes problemas em países como a Grécia e a Itália foi terem ficado sós nesse assunto ao mesmo tempo que sofriam com políticas de austeridade. Não sei se a melhor solução é falar a uma só voz, mas devemos ter critérios equilibrados na repartição das pessoas por países e fazê-lo de forma solidária. E perceber que não podem ser colocados em países como a Hungria porque ficarão em risco. Faz falta mais solidariedade na União Europeia e que os países assumam responsabilidades. Por exemplo, o Luxemburgo poderia atribuir a sua bandeira aos barcos que cruzam o Mediterrâneo cheios de refugiados, porque não se trata de uma questão de repartir as pessoas por países ou de direito de asilo, mas humanitária, não podemos deixá-los morrer. É horrível que estejam a criminalizar quem tenta salvar essas pessoas e vale a pena lembrar que a União recebeu o Prémio Nobel da Paz há poucos anos.
Como avalia a possibilidade de subida de populistas e extremistas nestas eleições?
Isso varia de país para país. Aqui, felizmente, não temos extrema-direita e esperamos ter melhor resultado do que o ADR. Vejo esse perigo mais em países como a Itália e no Leste, depende do grau de frustração das pessoas. Mas cabe à União contrariar isso com a definição de políticas sociais que mostrem a importância de votar mais à esquerda e não à direita.

