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Eurodeputada Monica Semedo enfrenta novo castigo por assédio moral
Luxemburgo 7 min. 25.11.2022
Parlamento Europeu

Eurodeputada Monica Semedo enfrenta novo castigo por assédio moral

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Eurodeputada Monica Semedo enfrenta novo castigo por assédio moral

Foto: Guy Jallay/Luxemburger Wort
Luxemburgo 7 min. 25.11.2022
Parlamento Europeu

Eurodeputada Monica Semedo enfrenta novo castigo por assédio moral

Diego VELAZQUEZ
Diego VELAZQUEZ
Uma nova investigação interna conduzida pelo Parlamento Europeu pede que a eurodeputada do Luxemburgo seja novamente punida, avança o Wort.

Depois de, no final de 2021, um antigo assistente da equipa de Monica Semedo ter denunciado a má conduta persistente da eurodeputada aos serviços competentes do Parlamento Europeu (PE), queixa que motivou a abertura de uma investigação interna, o veredicto já foi dado e terá, agora, de ter uma aprovação final. Segundo o Luxemburger Wort, Monica Semedo deverá voltar a ser suspensa por algumas semanas  — durante este período, não poderá assistir às reuniões do Parlamento nem receberá ajudas de custo diárias.

Questionado pelo Wort, o Parlamento Europeu não quis, para já, tecer comentários sobre o assunto. De acordo com um porta-voz, a decisão final será tomada pela Presidente Roberta Metsola. Depois de um encontro com Semedo, a decisão deverá ser anunciada na abertura de uma sessão plenária em dezembro ou janeiro. Ainda não se sabe se a avaliação de Metsola irá ou não coincidir com a proposta da comissão responsável pela investigação.


Moncia Semedo.
Monica Semedo. Eurodeputada do Luxemburgo suspensa por assédio moral
Suspensão é válida por 15 dias.

Há dois anos, o então Presidente do PE, David Sassoli, decidiu suspender a eurodeputada luxemburguesa por 15 dias por "assédio moral dos seus assistentes". Segundo sabe o Luxemburger Wort, o novo castigo vai bem mais longe.

Desta vez, as acusações são quase idênticas àquelas que valeram a Monica Semedo a suspensão no início de 2021. Em causa estão exigências irrealistas que faz aos seus funcionários e o constante desgaste mental que provocaram. Em entrevista ao Wort, ex-assistentes da equipa da eurodeputada explicam em que é que isto se traduziu concretamente. 

Eurodeputada perdeu oito membros da sua equipa

"Ao longo do seu mandato, a Sra. Semedo já perdeu oito membros da sua equipa, que se despediram antes do fim do contrato. Frequentemente, a troca de assistentes é um sinal claro de gabinetes parlamentares com uma má atmosfera de trabalho e uma gestão incompetente", dizem, sob a condição de anonimato.

"As exigências impossíveis e constantemente alteradas, muitas vezes complicadas pela falta de compreensão da Sra. Semedo relativamente ao contexto e procedimentos políticos, prejudicaram muitas vezes a relação de trabalho entre ela e os seus antigos funcionários", continuam. Entre outros problemas, apontam "a realização de reuniões improdutivas, que muitas vezes se arrastavam por várias horas e requeriam, injustificadamente, a presença de toda a equipa, muitas vezes noitro dentro".

Por outro lado, acrescentam, "a Sra. Semedo muitas vezes organizava reuniões para as quais não estava, ela própria, preparada. Como resultado, muitas vezes atacava tudo o que a equipa tinha alinhavado, de acordo com orientações específicas dadas por ela, muitas vezes porque não percebia o seu conteúdo. Muitas vezes passava essas reuniões a gritar ao(s) assistente(s), a interromper as suas explicações sem os ouvir, e a culpá-los por coisas que estavam fora do seu controlo".


Monica Semedo deixa o DP
A decisão surge após o caso de assédio moral a três membros da sua equipa no cargo de eurodeputada.

A pressão psicológica era prevalente na interação entre a eurodeputada e os seus assistentes, segundo contam. "Era muito importante para os assistentes esconderem a sua vida privada dela, porque muitas vezes parecia que ela tinha ciúmes dos seus sucessos pessoais ou dos momentos de felicidade privados. Era largamente sabido entre a equipa que se devia fazer segredo da vida privada e, mesmo, mentir sobre ela se necessário. Senão, podia acontecer a Sra. Semedo reagir mal e, em casos extremas, tentar ativamente interferir com a vida privada dos seus funcionários."

Monica Semedo não comenta, mas rejeita acusações 

Adicionalmente, houve outros problemas que ficaram evidentes para lá do gabinete: "Em eventos públicos, era importante que a Sra. Semedo fosse sempre o centro da atenção. Isto ia tão longe que, se algum dos seus assistentes estivesse a falar com outras pessdioas, ela achava que estavam a conspirar contra ela."

As mesmas fontes dizem que os seus esforços nunca eram reconhecidos e que o conhecimento dos funcionários era posto em causa à mínima oportunidade. O resultado: "uma demissão atrás da outra, um esgotamento atrás do outro. Um sabor azedo do tempo passado no Parlamento Europeu. Como se vê pela imagem que passa nas redes sociais, a Sra. Semedo continua a achar que não fez nada de errado e que as sanções que sofreu em 2021 não foram legítimas".

Questionada pelo Wort, Monica Semedo não quis, por um lado, comentar "um processo que ainda está a decorrer e cujo arranque é confidencial", mas por outro rejeitou as alegações feitas contra si.

Se for novamente penalizada pelo mesmo delito, Monica Semedo fica com cada vez menos margem de manobra a nível político. Depois do primeiro caso, no início de 2021, saiu do DP devido à falta de apoio do partido. Contudo, manteve-se como membro do grupo parlamentar Renew Europe, do qual o DP faz parte. Na altura, conseguiu manter-se no grupo devido à intervenção do romeno Dacian Ciolos, líder do grupo que menorizou a importância do caso, alegadamente para evitar mais perdas e controvérsia para o Renew Europe, que tinha perdido um outro membro, lituano, por declarações homofóbicas.

Mas, se da primeira vez, ficou decidido que a suspensão seria suficiente, desta vez a eurodeputada já não conta com a proteção política de Ciolos, já que o Renew Europe é encabeçado, desde outubro de 2021, pelo francês Stéphane Séjourné. Além disso, agora Semedo será vista como uma infratora repetente. E, como não se tem propriamente destacado pelo trabalho parlamentar nos últimos anos, dificilmente será considerada indispensável entre os liberais. Segundo duas fontes próximas do partido, não estão descartadas, agora, consequências dentro do grupo parlamentar. Até porque o Renew Europe se apresenta, normalmente, como uma força progressista que insiste em condições de trabalho justas para todos.


Monica Semedo. "Não pretendo, de forma alguma, renunciar ao meu mandato"
Numa altura em que volta da suspensão de duas semanas do Parlamento Europeu, após acusações de assédio moral, a eurodeputada assume erros, aponta o dedo ao ex-partido DP, garante que tem muito trabalho pela frente.

Que futuro para a carreira política da eurodeputada?

O impacto das novas sanções na carreira política de Mónica Semedo no Luxemburgo continua a não ser claro. Recentemente, a eurodeputada reuniu-se com Frank Engel para discutir uma possível cooperação com o recém-formado partido Fokus. Engel confirmou ao Wort que "houve contactos".

O antigo líder parlamentar do CSV está atualmente a tentar fortalecer a sua equipa e a integração de uma figura conhecida como Semedo seria algo conveniente. Mas o veredicto do Parlamento Europeu ainda poderá pesar na decisão de uma futura colaboração. "Antes de falarmos numa colaboração concreta, é preciso que Mónica Semedo esclareça este caso e dê a sua versão dos factos de forma clara e pública", refere o co-fundador. Por seu turno, Mónica Semedo sublinha que não pretende deixar a política, por agora.

Todavia, o caso Semedo continua a ser representativo de um problema mais amplo em Bruxelas e Estrasburgo. As sanções formais contra eurodeputados, como as que Semedo enfrenta, são raras, mas as relações problemáticas entre os parlamentares e as suas equipas são bem mais comuns.

Os jovens políticos inexperientes são, muitas vezes, deixados sozinhos com as suas responsabilidades após o seu sucesso eleitoral junto do seu partido e grupo parlamentar — a nível político e pessoal, diz uma fonte parlamentar, o que muitas vezes os leva a descarregar as frustrações da sobrecarga nos seus funcionários, e muitas vezes o grupo e o partido decidem fechar os olhos, apesar de estes problemas serem conhecidos por toda a gente. 

Esta análise aplica-se, indubitavelmente, ao caso Semedo. Mesmo durante a campanha de 2019, teve uma presença reduzida em termos de conteúdo nos meios de comunicação ou dentro do partido. Mais importante para o DP foi, provavelmente, o seu estatuto enquanto celebridade, ainda criança, e apresentadora da RTL

A sua eleição foi um sucesso e o DP ganhou, com ela, um segundo assento no Parlamento Europeu. Mas, depois disso, teve de se desenvencilhar sozinha e vários membros da sua equipa pagaram o preço aotrabalhar com Mónica Semedo, descrita como "uma chefe insuportável", em Bruxelas e Estrasburgo.


Do Parlamento Europeu à caixa de supermercado, assédio laboral deixa marcas no Grão-Ducado
Em situação frágil, são às centenas os trabalhadores que apesar das denúncias continuam sem qualquer resposta da Inspeção do Trabalho. Apesar de evidente, o bullying avança sem travão.

Desde 2014, existe um gabinete especialmente criado para a denúncia destes casos. Em 2019, os seus poderes foram ampliados. Mas apresentar uma queixa continua a ser um caminho longo e árduo para os funcionários, que pedem, acima de tudo, ajuda na prevenção e formação dos eurodeputados, para evitar que casos como este se repitam.

(Este artigo foi originalmente publicado no Luxemburger Wort e adaptado para o Contacto por Maria Monteiro.)

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