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“Eu trabalho. Passo fome. Isto não é o paraíso”

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“Eu trabalho. Passo fome. Isto não é o paraíso”

“Eu trabalho. Passo fome. Isto não é o paraíso”

“Eu trabalho. Passo fome. Isto não é o paraíso”


12.03.2020

O comboio para Wiltz, a comuna mais pobre do LuxemburgoFoto: Ricardo J. Rodrigues

Há cada vez mais gente que tem emprego mas não ganha o suficiente para pôr comida na mesa. O país mais rico da Europa é também o segundo da UE onde os trabalhadores correm maior risco de pobreza – e aquele onde a taxa mais cresce. Viagem a Wiltz, a comuna mais pobre do Luxemburgo, para perceber a fome dos nossos vizinhos do lado.

Reportagem de Paula Cravina de Sousa e Ricardo J. Rodrigues


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A fome mora ao lado
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Marie e Robert são franceses, têm uma filha, falta-lhes dinheiro para pôr comida na mesa. Ela está inválida mas faz biscates a engomar roupa, ele trabalha toda a semana mas precisa de emprego ao sábado e domingo.
Foto: Ricardo J. Rodrigues

 “O Luxemburgo é um país rico? Oh la la la la”, e Marie abana a cabeça num misto de riso e desolação. É uma mulher baixa, tem 64 anos, nas mãos traz os sacos para as compras que vai fazer hoje na mercearia social da Cruz Vermelha, em Wiltz. Aqui vende-se comida a baixo custo para famílias carenciadas. Então ela veio encher a despensa de arroz e massa, os produtos mais baratos de todos, que também são os que enganam melhor a fome.

Ao seu lado tem Robert, 48 anos, o marido. É um tipo alto, de sorriso aberto, a barba escanhoada porque hoje é dia de folga. São franceses, conheceram-se em Paris quando ela era chef de cozinha e ele segurança no restaurante. Viveram uma paixão intensa mas nada convencional. “Casámos com toda a gente a criticar a nossa diferença de idades, mas ainda hoje somos o amor da vida um do outro”, diz ela e ele anui.

Trabalho a efetivo há 13 anos, nunca fui aumentado. Agora procuro também emprego aos sábados e domingos. Não posso pensar em folgas se não puser comida na mesa.

Robert, francês

Já estavam casados e tinham uma filha quando se mudaram para o Luxemburgo. Foi em 2004. Ele empregou-se numa loja e ela nas limpezas, a vida corria bem e compraram uma casa na cidade. Em 2008, ela caiu à cama com duas hérnias discais e o trabalho começou a escassear. Foi quando começou o aperto. “A partir daí entrámos numa espiral de que nunca mais conseguimos sair”, confessa o homem.

Apesar de trabalhar há 13 anos na mesma fábrica, Robert nunca foi aumentado. Ganha o ordenado mínimo, e esse é o único dinheiro que entra em casa. Como nunca descontou no Grão-Ducado, Marie só recebe de França uma pensão de invalidez de 200 euros, e quando consegue contornar as dores faz biscates a engomar roupa – sempre dá para comprar mais um pacote de farinha, ter café ao pequeno-almoço, ou açúcar para temperá-lo. “Agora ando à procura de segundo emprego ao fim de semana”, diz ele. Pensar em folgas é um luxo quando a comida falta em casa.

O orçamento mensal de 2.342 euros é curto para três bocas. Na renda da casa vai-se metade do gasto, o aquecimento é controlado com rigor de cientista e depois há que apoiar a filha de 19 anos – está a estudar para educadora de infância em Arlon, precisa de livros, de cadernos, do almoço. Do carro livrou-se, tornou-se despesa que não podem suportar. As contas da casa atrasavam-se sempre que surgia um imprevisto. E o imprevisto às vezes era só este: adiantar o dinheiro para os medicamentos de Marie, fazer a revisão da viatura, um livro que a miúda precisava mesmo de comprar.

“Tudo é demasiado caro no Grão-Ducado”, lamenta-se Robert. Há seis anos chegaram ao fundo do poço e começaram a racionar a comida: “Ou almoçávamos ou jantávamos, as duas coisas é que não podia ser”, conta ela. Foi então que perderam a vergonha e decidiram pedir ajuda aos assistentes sociais. “Agora temos acesso à mercearia social. Aqui fica por 40 euros o que no supermercado custava 150.” As privações seguem, mas pelo menos agora a comida voltou à mesa.

Os trabalhadores do Luxemburgo estão correm maior aperto de pobreza do que os que vivem em Portugal, Grécia, Itália, Espanha ou Bulgária, o país mais pobre da União.

Eurostat

Ter trabalho mas não conseguir suportar as despesas está a tornar-se um fenómeno cada vez mais comum no Luxemburgo. No final de janeiro, o Eurostat divulgou os dados sobre o risco de pobreza entre os trabalhadores europeus e revelaram um facto alarmante. O Luxemburgo, país com maior rendimento per capita da Europa e maior salário mínimo da União, não só é o segundo onde o risco de cair em situação de pobreza é maior como é aquele onde essa possibilidade mais cresce. De 9,4% em 2017, o número aumentou para 13,5% em 2018. Só a Roménia tem uma percentagem superior – 15,3%. Mas quando se olha para o salário mínimo do país (466 euros), verifica-se que ele é apenas um terço do luxemburguês (2.141 euros). Os trabalhadores do Grão-Ducado estão em maior aperto do que os que vivem em Portugal, Grécia, Itália, Espanha ou Bulgária, o país mais pobre da União.

O economista do instituto luxemburguês de estatística, Fofo Ametepe, diz que “apesar de tudo, não se pode comparar a pobreza do Luxemburgo com a da Roménia”. Mas também frisa que, entre aqueles que mais dificuldades têm, a casa é dos principais fatores de risco. “A renda e tudo o que está ligado à casa, as faturas mensais de que as pessoas não podem prescindir como a eletricidade, os seguros, o telemóvel, mas também as despesas de saúde”, representam os maiores fardos financeiros para quem tem baixos rendimentos.

Ao Contacto, o Eurostat adianta que, no Luxemburgo, 9,6% da população vive numa situação de sobrecarga com o custo da habitação – isto é, cujas despesas com a casa representam mais de 40% do rendimento disponível da família. Então é por aqui que normalmente começa o sufoco. Quando aparece um imprevisto, a angústia torna-se rapidamente tragédia. Como aconteceu a Marie e Robert.


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Próxima estação: Paraíso
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Segundo o Statec, Wiltz é a comuna mais pobre do Luxemburgo
Foto: Ricardo J. Rodrigues

Quando se entra no pequeno comboio que faz a linha para Wiltz, um mostrador luminoso indica a próxima estação: Paradiso. O apeadeiro deve o nome a um centro escutista que existe na periferia florestal da cidade e há centenas de pessoas que passam ali diariamente, no percurso para o trabalho. O paraíso mora ao lado de Wiltz, sim, mas também lhe é forasteiro. Em 2017, quando o Statec divulgou o último estudo sobre o indíce socio-económico dos municípios luxemburgueses, determinou que esta era a comuna mais pobre do país.

Entre as dez autarquias pior classificadas, oito situam-se no norte do país (Wiltz, Ettelbruck, Vianden, Reisdorf, Kiischpelt, Bettendorf, Troisvierges e Clervaux), duas no centro-leste (Echternach e Berdorf) e cinco no sudoeste (Esch-sur-Alzette, Differdange, Rumelange, Pétange e Schifflange). O estudo levou em conta fatores como o rendimento médio dos habitantes, número de famílias monoparentais, beneficiários do rendimento mínimo garantido (o atual REVIS), a taxa de desemprego e o índice de emprego menos qualificado. Wiltz não só apresenta a pior performance geral como tem os piores números em todas as categorias. Se esta reportagem fala de pobreza, então a conversa tem de começar aqui.

Gastamos mais de metade do orçamento comunal a apoiar a população que não consegue pagar as contas. A pobreza em, Wiltz já era grave, mas está a piorar.

Frank Ardnt, burgomestre de Wiltz

“A situação já era estruturalmente grave, mas está a piorar nos últimos anos”, admite Frank Ardnt, burgomestre de Wiltz. “Estamos a assistir a um novo fenómeno. Há um grande movimento de gente com baixos rendimentos a vir do sul do país e instalar-se aqui por não conseguir suportar os custos de vida lá em baixo.” Em oito anos, a população do município aumentou 20% – de 5.758 habitantes em 2011 para 7.066 em 2019. “E os problemas aumentaram proporcionalmente”, admite o autarca.

A verdade é que o risco de pobreza não é uma propriamente uma novidade em Wiltz. “A cidade desenvolveu-se à volta da indústria do couro e, apesar de ser invadida duas vezes pelas tropas de Hitler, os anos da II Guerra Mundial foram generosos para a produção,” diz Ardnt. Em 1960, quando a fábrica fechou, 1.200 pessoas perderam subitamente os empregos. “A recuperação foi lenta e deve-se em grande medida à chegada de imigrantes, que trouxeram pequenos e médios negócios e ajudaram a diversificar a economia”, continua o burgomestre.

Frank Ardnt, burgomestre da comuna de Wiltz
Frank Ardnt, burgomestre da comuna de Wiltz
Foto: Ricardo J. Rodrigues

Agora há uma nova pobreza e, na opinião de Ardnt, nada contribui mais para o fenómeno do que o preço das habitações: “O orçamento comunal é de 30 milhões de euros anuais e mais de metade temos de gastá-lo a apoiar as pessoas em situação de grande vulnerabilidade. Na maior parte dos casos, tudo se deve aos preços da habitação – por isso é aqui que gastamos mais.” A comuna tem 40 casas sociais, vai agora abrir portas a mais nove, e gastou agora três milhões de euros em terrenos, que venderá a baixos custos aos cidadãos.

“As pessoas vêm para aqui por causa das casas baratas, mas também aqui elas estão a deixar de ser acessíveis”, opina o presidente da câmara. “Quem aufere do subsídio de desemprego, do rendimento mínimo ou está de alguma forma protegido pelo estado não pode viver fora do país, por isso os problemas vão-se agravando.” No centro da cidade, há um agente imobiliário que materializa precisamente essa ideia: “Em 2017, vendi uma casa antiga, de 80 metros quadrados, por 223 mil euros. Em 2019, vendi uma habitação nas mesmíssimas condições e com o mesmo espaço por 290 mil”, diz Yohan Jost. “A procura para vendas e alugueres tem crescido de forma exponencial nos últimos anos. Então os preços aumentam da mesma forma. E, para cada vez mais gente, é simplesmente incomportável.” É então que se começam a reduzir refeições, poupar nos ingredientes, cortar no que não se pode. É então que vem a fome.


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Manhas para o estômago
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Para trazer a mulher e os filhos para o Luxemburgo, Alhashimi Ridha precisava de emprego e casa. O dinheiro era curto, então teve de cortar na comida.
Foto: Ricardo J. Rodrigues

“Se puseres mais água na massa e a deixares cozer mais tempo ela engrossa, então enches mais com menos”, diz Alhashimi Ridha, um iraquiano de 41 anos que chegou ao Luxemburgo há ano e meio. Tem todo um tratado sobre as técnicas de engodo ao estômago: acumular pacotes de ketchup nos restaurantes de fast food, pedir no talho a carne que habitualmente se dá aos cães, guardar pacotes de açúcar e natas nas cafeterias.

Ridha veio como refugiado, da Turquia embarcou para a Grécia e daí chegou ao Grão-Ducado, que conhecia pelo estatuto abastado. “Quando foges do teu país passas mal, mas não há nada pior do que querer comer e não poder. Nunca pensei que fosse no Luxemburgo que uma coisa destas me viesse acontecer. E o mais irónico de tudo é que me aconteceu depois de arranjar emprego. Eu trabalho, eu passo fome e isto afinal não é nenhum paraíso.”

Numa outra vida, a que deixou em Bagdade, era engenheiro mecânico. “Quando cheguei ao Luxemburgo, tratei logo de pedir a equivalência. Fiquei com grau de bacharel em vez da licenciatura, mas estou certificado na minha profissão.” Hoje, no entanto, é como servente de pedreiro nas obras que Ridha ganha a vida.

Se cozeres a massa muito tempo ela engrossa e enche mais. Fiz isso muitas vezes. Acumulava os pacotes de ketchup nos fastfood, comprava no talho carne para cães, guardava os pacotes de açúcar e natas nas cafeterias."

Alhashimi Ridha

Chegou em junho de 2018, pediu estatuto de refugiado e passou os meses seguintes a fazer cursos de integração. “Fui colocado num centro de refugiados em Diekirch, depois em Grevenmacher, e aí as coisas corriam bem. Em fevereiro de 2019 deram-me oficialmente asilo”, diz. A primeira coisa que fez foi meter os papéis para o reagrupamento familiar, queria trazer a mulher e os dois filhos do Oriente. 

A segunda coisa foi inscrever-se no ADEM para arranjar trabalho. Como precisava de habitação para quatro, encontrou-a no lugar mais barato de todos: Wiltz. “Trabalho como engenheiro nunca apareceu, só nas obras, e apenas ao fim de uns meses – como mudei de comuna, houve um atraso na mudança do registo Mas foi precisamente quando comecei a trabalhar que as coisas pioraram.”

Ordenado tinha o mínimo, com descontos ficava com pouco mais de 1.800 euros ao fim do mês. “A casa de dois quartos, com taxas, luz e internet ficava quase nos 1.500 euros – mas nunca poderia pedir o reagrupamento familiar se não pudesse acolhê-los.” Ficava com orçamento curto, mas o diabo foi quando teve de apresentar as certidões de casamento e nascimento dos filhos.

“Eles precisavam de pelo menos dois mil euros para obterem e traduzirem aqueles papéis no Iraque”, conta Rhida. “Então começei a encolher onde podia: na comida. Sabia que, se fosse pedir ajuda ao estado, tornar-me-ia dependente e a minha família já não podia vir.” Aguentou a fome até ao limite das forças. Em agosto de 2019, a mulher e os filhos finalmente chegaram. No mesmo dia, dirigiu-se ao escritório da Assistência Social de Wiltz. “E fiz-lhes um único pedido: comida.”


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Pão para a boca
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Fernando Ferreira, carpinteiro, recupera móveis para famílias carenciadas. "Podia ser eu a estar naquela posição." Podíamos ser todos.
Foto: Ricardo J. Rodrigues

Para uma cidade pequena, Wiltz tem um número significativo de estruturas de apoio aos mais carenciados. Um dos primeiros sítios a que as pessoas recorrem é ao centro de apoio social regional, em Wiltz, que engloba seis comunas (Boulaide, Esch-sur-Sûre, Goesdorf, Lac de la Haute-Sûre, Wiltz e Winseler). O centro de assistência social adianta o dinheiro e as famílias reembolsam depois à medida das suas possibilidades. Estas ajudas podem complementar medidas sociais e prestações financeiras de que os beneficiários já usufruam.

O número de pedidos de ajuda tem subido a par do aumento da população da cidade. Só no ano passado, tiveram 573 dossiers em mãos, “pedidos reais de ajuda financeira”, como explicou ao Contacto o presidente do centro, Henri Besenius. Aquele valor representa mais 56 dossiers do que em 2018. “As pessoas endividam-se até ao momento em que não podem mais”, afirma. “E a ajuda começa por aqui, ajudar as pessoas a organizarem-se”.

“O principal problema é a habitação, este é o motivo número um pelo qual aqueles que passam por dificuldades se dirigem ao centro. Logo a seguir vêm os pedidos para comprar comida, seguindo-se os medicamentos e, quando faz frio, o ‘mazout’ [combustível para aquecimento]”, diz Besenius. Um terço do orçamento do centro destina-se ao apoio para comprar comida, no entanto os responsáveis não quiseram adiantar valores concretos relativos a este ano e a 2019.

Henri Besenius presidente da Assistência Social de Wiltz.
Henri Besenius presidente da Assistência Social de Wiltz.
Foto: Ricardo J. Rodrigues

Quem está aflito telefona, manda um email a pedir apoio, marca uma reunião. Os pedidos de socorro vêm um pouco de todo o lado: famílias monoparentais, pessoas sozinhas com problemas financeiros, famílias com poucos rendimentos e de todas as nacionalidades. Há casos de pessoas que precisam de ajuda durante um determinado período de tempo, mas rapidamente se recompõem e saem. Um dos exemplos é quando se compra uma casa – que inicialmente já é cara – e que depois, quando é preciso, não se consegue vender ao mesmo preço.

É também do centro social que vem o cartão necessário que dá acesso à mercearia social da Cruz Vermelha em Wiltz, à porta da qual o Contacto encontrou Marie, Robert, e Alhashimi Ridha. Sem este ‘passe’ não é possível fazer compras a baixo custo no ‘minimercado’, isto é, as famílias têm de vir referenciadas do centro de apoio social.

Estas mercearias nasceram em território luxemburguês durante os anos de crise financeira, em 2009. A de Wiltz abriu uns anos mais tarde em 2012. Segundo a coordenadora do departamento de apoio social, Nadine Conrardy, a procura tem vindo a subir ao longo do tempo. “Estávamos abertos durante 20 horas por semana, agora estamos 30 horas”, diz. Os horários diferem com os dias da semana e há um dia em que está aberta até às 19h, para permitir que quem trabalha e sai mais tarde do seu emprego vá comprar mantimentos.

Há de tudo nas prateleiras distribuídas pelos escassos metros da mercearia social: papel higiénico, leite, massa, arroz, farinha, azeite, óleo, enlatados. Mas há também pão, fruta, legumes. Há alguma carne “que muito poucos compram, por ser dos produtos menos baratos”, explica a responsável pela loja, Marie-Jeanne Bausch. Peixe só congelado e é também dos bens menos procurados. “O que tem mais saída são mesmo o arroz, massa e batatas”, acrescenta. Aqui um quilo de tomate, que custa dois euros ou mais no supermercado, fica a 0,87 euros, um quilo de bananas é vendido a 0,42 euros. Os clientes desta loja também podem também levar roupa gratuita.

No total, a mercearia social de Wiltz apoiou 217 famílias em 2019, abrangendo 653 pessoas. Deste bolo, a maior fatia diz respeito a pessoas que vivem sozinhas (33%), seguida de perto pelos casais com filhos (31%) e pelas famílias monoparentais (25%). No fim da tabela surgem os casais sem filhos, com 11%. Marie-Jeanne Bausch destaca as pessoas que vivem sozinhas, “são as mais vulneráveis porque têm de pagar tudo sozinhas”.

33% das pessoas que pedem ajuda alimentar em Wiltz vivem sozinhas. Estão mais vulneráveis porque têm de pagar as contas sozinhas.

Marie-Jeanne Bausch, coordenadora da mercearia social de Wiltz

Também aqui estão presentes todas as nacionalidades. “Portugueses, franceses, mas também luxemburgueses; as pessoas não querem crer, mas também há”, afirma Marie-Jeanne. E até são a maioria. De acordo com os dados avançados por Nadine Conrardy ao Contacto, 33% das pessoas que se dirigem à mercearia de Wiltz têm nacionalidade luxemburguesa, logo seguida pela portuguesa (18%), síria (9%), iraquiana (7%), como Alhashimi Ridha. Depois – em percentagem menor – vêm outras nacionalidades: belgas, alemães, cabo-verdianos, italianos, montenegrinos…

“Há de tudo”, reforça Marie Jeanne Bausch. “Há muita gente pobre, mas também muita gente que não quer mostrar que precisa de ajuda”, acrescenta. Por sua vez, Nadine Conrardy explica que a questão da procura por parte de sírios espelha a crise migratória e ressalva esta percentagem tem tendência a desaparecer daqui a uns anos, à medida que as pessoas se forem integrando.


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Arroz com arroz
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Há cada vez mais gente a recorrer à mercearia social de Wiltz.
Foto: Ricardo J. Rodrigues

No terreno está também o Centro de Iniciativa de Gestão Regional de Wiltz (CIGR Wiltz Plus), associação sem fins lucrativos de promoção e manutenção do emprego que gere várias atividades. Uma delas é o Atelier Klimbim, oficina onde se faz a recuperação de móveis para revenda a preços acessíveis. Foi ali que Fernando Ferreira, português de 54 anos, encontrou a estabilidade laboral que precisava. A crise em Portugal e a viuvez fizeram com que viesse para o Luxemburgo em novembro de 2016. No seu país, deixou duas filhas – “uma já tem emprego, a outra está a estudar”. No início trabalhou“por interim” (contratos temporários), numa situação “muito instável”: chegou a trabalhar durante seis meses nas linhas do elétrico de Kirchberg por “interim”.

Depois surgiu a oportunidade de entrar para o CIGR através da ADEM, lugar onde acabou por ficar, passando a efetivo em julho de 2019. Em Portugal pintava móveis, mas aqui no atelier do GIGR anda “mais tempo fora, é responsável por ver e avaliar os móveis, ver o que pode fazer com eles e ir buscá-los”. Ele e Marc Theisen, responsável do espaço, identificam a clientela: “Nos compradores há muita gente em grandes dificuldades, que encontra aqui solução para coisas tão simples como ter uma cama ou um sofá”, diz Theisen. Ferreira responde que ele próprio poderia estar na mesma situação. “Se não tivesse este emprego a minha vida seria agora muito complicada.”

O Atelier Klimbim não é a única estrutura gerida pelo CIGR Wiltz Plus. Há também o Re-naissance, loja que se destina a vender roupa de criança em segunda mão. Há o Botzkëscht, serviço de limpezas destinado a pessoas idosas e com deficiência ou o Eise gudden Noper, estrutura que presta serviços de pequenas reparações e jardinagem a pessoas com mais de 60 anos e pessoas portadoras de deficiência.

Matei a fome com arroz. Era arroz com arroz, uma mão cheia por dia, e não foram os poucos os dias em que quase desmaiava de fome no trabalho.  

Francisco, português

Em frente à Gare de Wiltz encontra-se a Fundação Oasis, da Caritas, gerida por duas imigrantes, Nena Kuc e por Caty Diop, a primeira vinda da ex-Jugoslávia, a outra senegalesa. A instituição fundada há 20 anos começou por dar apoio a imigrantes vindos da ex-Jugoslávia, mas depressa alargou a sua ação. Hoje ajuda quem a procura e oferece cursos de línguas, informática, costura, culinária, tricot, organiza mesas redondas, presta apoio para acompanhar as crianças a fazer os trabalhos de casa.

Kuc e Diop lidam diariamente com a carência: “hoje o salário não permite a uma família viver condignamente, sobretudo quando há um só salário”. Acrescenta-se o facto de muitas mulheres trabalharem apenas a meio-tempo porque têm de tratar das crianças. “Depois é um ciclo vicioso”, afirma Caty Diop.

E depois há casos como o de Francisco, que não dá a cara e apresenta nome falso porque não quer que a família em Portugal saiba pelo que passou. Veio há quatro anos com promessa de contrato efetivo, trabalhava a tempo inteiro mas recebia como se estivesse a parcial. “Só me chegava para pagar o quarto, para comer tinha de pedir à minha mulher que me mandasse dinheiro”, conta à beira das lágrimas. “Eu deixei o país para melhorar a vida e afinal só estava a complicá-la a toda a gente.”

Marc Theisen diz que os móveis que recuperam em Wiltz para vender a baixo custo são muitas vezes a única forma de uma família ter cama para dormir.
Marc Theisen diz que os móveis que recuperam em Wiltz para vender a baixo custo são muitas vezes a única forma de uma família ter cama para dormir.
Foto: Ricardo J. Rodrigues

Matou a fome com arroz. Era arroz com arroz, uma mão cheia por dia, e não foram os poucos os dias em que quase desmaiava de fome no trabalho.

“Eu estudei, sou especializado no que faço, e afinal vim para um país riquíssimo passar fome”, e Francisco olha para o chão. A vida compôs-se quando arranjou outro ofício, mas ele repete uma e outra vez que viu muito mais gente a vasculhar caixotes de lixo e apanhar restos que foram deixados em esplanadas. A história que ele conta em Wiltz é a história de centenas de pessoas que trabalham e passam fome. São os nossos vizinhos do lado, é o empregado que nos serve o café, é a mãe de um colega de escola dos nossos filhos. E nós nem sequer reparámos.


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