Escolha as suas informações

Eu escondo a guerra
Editorial Luxemburgo 3 min. 21.05.2020

Eu escondo a guerra

Eu escondo a guerra

Foto: ARD Degeto
Editorial Luxemburgo 3 min. 21.05.2020

Eu escondo a guerra

Hugo GUEDES PINTO
Hugo GUEDES PINTO
Podemos acreditar no que vemos nos media ou estamos constantemente a ser manipulados?

Quase todos os cinéfilos incluem “Citizen Kane” como um dos melhores, ou o melhor, filme de todos os tempos. Menos conhecido é o facto do filme ter sido inspirado por um dos maiores mitos da história do jornalismo: o magnata da imprensa William Hearst enviou a Cuba um repórter-ilustrador (em 1897 as máquinas fotográficas eram pouco portáteis) para que este cobrisse, para o New York Journal, a violenta revolta dos cubanos contra a sua metrópole colonial, a Espanha. O ilustrador, Edward Remington, telegrafou de Havana: “Tudo está calmo aqui, sem problemas. Não haverá uma guerra. Desejo voltar”. A resposta de Hearst, desejoso de vender muitos milhares de jornais, foi fulminante: “Fique aí. Forneça as imagens que eu forneço a guerra”.

As imagens de Remington tiveram um enorme impacto, e a guerra efectivamente chegou no ano seguinte – em apenas dez semanas, os “desinteressados” Estados Unidos infligiram uma humilhante derrota a Espanha, apropriando-se dos últimos pedaços do seu império colonial. Esta parte é factual. Mas os telegramas, desde sempre apresentados como exemplo gritante do cinismo e parcialidade dos media, e apesar de serem uma boa história... nunca existiram. Na realidade, Remington voltou mesmo a casa, as suas ilustrações tiveram impacto porque eram tudo menos pacíficas, e o jornal de Hearst não tinha capacidade para criar – nem tinha muito a ganhar com – a existência de uma guerra, desejada sim pelos políticos de então como meio de expandir o poderio americano pelas Caraíbas (para começar; o mundo viria mais tarde).

Podemos acreditar no que vemos nos media ou estamos constantemente a ser manipulados? Ao invés de simbolizar a ganância da imprensa e – pior – a sua falta de verdade, o mito do “forneço a guerra” talvez sublinhe algo bem diferente, geralmente descrito como um “jornalismo de causas”. Hearst estava verdadeiramente escandalizado com os relatos sobre a fome em Cuba e as atrocidades cometidas durante a repressão espanhola, e decidiu usar o poder que detinha na opinião pública para encorajar uma intervenção americana numa causa que considerava justa.

Tudo isto vem a propósito da nova edição 2020 do índice Liberdade de Imprensa no Mundo, onde o alerta é claro: a situação está a deteriorar-se significativamente e próxima década vai ser fulcral para preservar essa liberdade. Sob pretexto da “segurança nacional”, a presente crise está a ser usada pelos líderes deste mundo para colocar ainda mais mordaças a uns media já bem domesticados. Abafar informação útil e, ao mesmo tempo, lançar campanhas de desinformação e propaganda são tácticas que têm resultado lindamente para cobrir os falhanços governamentais e fazer passar a mensagem que é preciso escolher entre liberdade e segurança. Ah, e que os nacionalismos totalitários são a melhor resposta à pandemia.

Nenhum lugar representa esta estratégia melhor que a China, agora considerada pelos italianos um “país amigo”. Amarga ironia, porque o lema do governo de Pequim foi “eu escondo a guerra”; a censura imposta pelo governo chinês a toda a informação relacionada com Covid-19 no início da epidemia em Wuhan destruiu todos os esforços da comunidade médica para combater e conter a doença. Bem pelo contrário, a existência de media livres no país teria ajudado a evitar que o vírus fugisse de controlo e se transformasse na catástrofe global em que hoje vivemos. Eis quando nos apercebemos que, além das implicações óbvias que tem sobre a liberdade de expressão e a democracia, a censura também influi sobre a nossa saúde. A liberdade dos media é, às vezes, questão de vida ou morte.

Siga-nos no Facebook, Twitter e receba as nossas newsletters diárias.