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Estudo: Preconceitos dos professores podem prejudicar alunos portugueses no Luxemburgo

Estudo: Preconceitos dos professores podem prejudicar alunos portugueses no Luxemburgo

Foto: Marc Wilwert (Arquivos CONTACTO)
Luxemburgo 7 min. 20.04.2016

Estudo: Preconceitos dos professores podem prejudicar alunos portugueses no Luxemburgo

Chamar-se Carlos ou Roger pode influenciar o percurso no ensino e o sucesso escolar dos alunos. Segundo um estudo da Universidade do Luxemburgo, os preconceitos dos professores em relação à nacionalidade dos alunos podem levá-los a tomar decisões erradas, prejudicando os portugueses. O estudo indica que os docentes cometem mais erros de avaliação com alunos portugueses do que com os estudantes luxemburgueses, quando decidem quem vai para o ensino secundário técnico ou para o clássico.

Na hora de decidir quem vai para o ensino técnico e para o clássico, considerado "a via rápida para a universidade", os professores são influenciados "por preconceitos involuntários" quando os alunos são portugueses. As conclusões são de um estudo da Universidade do Luxemburgo que avaliou as decisões de orientação tomadas pelos professores no final do ciclo primário (ensino fundamental).

O estudo apresentou perfis fictícios de alunos luxemburgueses e portugueses a 38 professores do ensino primário no Luxemburgo. Os boletins fictícios incluíam os resultados escolares dos alunos, mas também a sua nacionalidade e informações sobre o seu estatuto sócio-económico. Os professores eram depois convidados a decidir se o aluno devia ingressar no secundário técnico, vocacionado para o ensino profissional, ou no ensino clássico, considerado "a via rápida para a universidade".

O estudo conclui que os professores tomaram a decisão mais correcta com 90% dos alunos luxemburgueses, contra apenas 67% quando os avaliados eram portugueses. Neste caso, o estudo indica que os professores "subavaliam e sobreavaliam a capacidade académica dos alunos".

Os resultados não surpreenderam as investigadoras da Universidade do Luxemburgo. Este não é o primeiro estudo a demonstrar a influência dos preconceitos dos professores na avaliação de filhos de imigrantes – caso dos turcos na Alemanha ou dos hispânicos nos Estados Unidos.

No Luxemburgo, os portugueses foram escolhidos por representarem "o maior grupo étnico" no país. Uma comunidade que "tem tido tendência a obter níveis de sucesso académico abaixo da média", sublinha o estudo. No Grão-Ducado, só 11% dos portugueses chegam ao clássico, o ramo mais elitista do ensino secundário.

"Os estudos mostram que os alunos de minorias étnicas e de famílias com baixo estatuto sócio-económico são particularmente prejudicados" pelos preconceitos dos professores, levando-os "a orientar estes alunos para ramos mais baixos" do ensino, apontam as investigadoras Ineke Pit-ten Cate, Sabine Krolak e Sabine Glock.

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RESPONSABILIZAR PROFESSORES PODE REDUZIR DESIGUALDADES

Um estudo anterior das três investigadoras, publicado em 2014, já apontava para o papel dos preconceitos dos docentes na avaliação dos portugueses.

"Apesar de os resultados escolares mais baixos dos portugueses serem um dos factores que contribuem para a sua sobre-representação nos níveis inferiores do ensino, os professores encaminham-nos mais frequentemente para vias mais baixas que a alunos luxemburgueses com o mesmo percurso académico", indicava o estudo de 2014.

Agora, as investigadoras quiseram ir mais longe e investigar mecanismos para reduzir o impacto dos preconceitos. No estudo agora divulgado, os professores foram instados a avaliar o seu grau de segurança em relação à decisão tomada. A seguir, os docentes tiveram de avaliar novos alunos. Aqui, as decisões "foram correctas, independemente da origem étnica dos alunos", conclui o estudo.

"Pedir aos professores para avaliarem a sua responsabilidade parece despoletar uma atitude mais baseada na reflexão durante o processo de decisão", sublinha a investigadora Ineke Pit-ten Cate. Por outras palavras, a responsabilização dos professores pode contribuir para diminuir a influência dos preconceitos na orientação dos alunos.

PROCESSO VAI MUDAR, DIZ MINISTÉRIO DA EDUCAÇÃO

O CONTACTO questionou o Ministério da Educação Nacional sobre o estudo da Universidade do Luxemburgo. Em resposta, aquele Ministério diz que as conclusões "não são novas", apontando estudos internacionais e nacionais "que mostram que outros factores além da performance escolar propriamente dita (por exemplo, o estatuto sócio-económico e o contexto de migração do aluno) podem influenciar a decisão de orientação dos alunos".

Apesar disso, o Ministério defende que "estas conclusões não põem em causa o profissionalismo dos professores nem dos restantes membros dos conselhos de orientação", que fazem "o seu trabalho de boa fé e em consciência, no interesse do aluno".

O Ministério da Educação diz que "as conclusões destes estudos foram tidas em conta" no ante-projecto de lei que altera o processo de selecção dos alunos para o ensino secundário, aprovado em Conselho de Ministros a 25 de Março.

A partir do próximo ano lectivo, altura em que o novo sistema deverá entrar em vigor, a decisão sobre a via de ensino dos alunos vai deixar de ser tomada por um conselho de orientação com base no parecer do professor e dos pais. Em vez disso, o professor e os pais do aluno deverão tomar uma decisão de comum acordo. Só na falta de acordo é que os pais poderão recorrer a uma comissão de orientação. Mas ao contrário do que acontecia até aqui, se a comissão decidir contra a via de ensino escolhida pelos pais, o aluno deixa de poder fazer testes para tentar entrar no liceu que escolheu.

O Ministério da Educação defende que a decisão tomada em conjunto pelo docente e os encarregados de educação reforça "o papel dos pais na decisão" e "a responsabilização do professor", já que "uma decisão tomada em grupo" no conselho de orientação, como até aqui, "pode levar à difusão da responsabilidade entre os seus membros".

CONFEDERAÇÃO DA COMUNIDADE PORTUGUESA CRITICA REFORMA

Para José Coimbra de Matos, porta-voz da Confederação da Comunidade Portuguesa no Luxemburgo (CCPL), é pior a emenda que o soneto.

"Isto é descarregar a responsabilidade completamente para os pais", acusa Coimbra de Matos. "Os pais portugueses muitas vezes não têm os mecanismos intelectuais necessários para avaliar a orientação sugerida pelo professor", defende o dirigente associativo, "e vão continuar a ter as mesmas dificuldades que têm agora, mas o ónus passa a estar mais a cargo deles".

O porta-voz da Confederação teme que em muitos casos os pais se conformem com a decisão, mesmo quando esta contraria os resultados escolares dos filhos.

"Na cultura portuguesa, o padre, o professor e o advogado continuam a ser vistos como autoridades", o que torna difícil questionar as suas orientações, defende o porta-voz. Para mais quando a língua continua a ser uma barreira para os encarregados de educação portugueses.

"Algumas escolas têm o cuidado de fazer tradução em simultâneo [durante as reuniões com os encarregados de educação], mas ainda há muitos casos em que se faz a reunião completamente em luxemburguês, e no fim faz-se um resumozinho em francês", aponta o porta-voz.

O dirigente associativo defende que a solução passa por dar "formação cívica" aos professores, que incluam "as diversas culturas existentes no Luxemburgo".

Uma solução preconizada também pelas investigadoras da Universidade do Luxemburgo. "Um factor que produziu frutos em estudos anteriores é a motivação intrínseca [dos professores] para evitar estereótipos", apontam, defendendo a promoção de "valores igualitários". "Pode ser útil fornecer aos professores informação sobre os efeitos negativos dos estereótipos", pedindo-lhes para "adoptarem a perspectiva do grupo social vítima dos preconceitos", defenderam no estudo de 2014.

Paula Telo Alves

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Pais concordam com decisão dos docentes em mais de 80% dos casos

Segundo dados do Ministério da Educação Nacional, no último ano lectivo as decisões de orientação dos alunos para o ensino secundário coincidiram com o parecer dos pais em 81,8% dos casos.

A decisão sobre o futuro dos alunos é tomada por um conselho de orientação, que tem em conta o parecer do professor e o dos pais, além dos resultados escolares no ensino primário e nos testes nacionais. Quando os pais não concordam com a decisão do conselho de orientação, os alunos podem candidatar-se a exames de acesso à via de ensino que preferem.

Em 2015, 357 alunos que preferiam o ensino secundário clássico foram orientados para o técnico. Destes, só 130 realizaram provas de acesso para o clássico, e apenas 4,6% passaram no exame.

No último ano lectivo, 280 alunos que pretendiam ir para o técnico foram orientados para o ensino modular (reservado aos estudantes que não atingiram os níveis mínimos no final do ensino primário). Destes, só 130 se candidataram às provas de acesso para o ensino secundário técnico, e apenas 3,1% foram admitidos.

Os testes de acesso em caso de discordância vão ser suprimidos a partir do próximo ano lectivo, quando a reforma do processo de orientação entrar em vigor.

Ao abrigo do novo regime, os pais devem tomar uma decisão comum com o professor. Caso não haja acordo, a decisão é tomada por uma comissão de orientação, de que não há recurso.

P.T.A.

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