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Estudo: Novos emigrantes são mais qualificados mas têm mais dificuldade para encontrar emprego

Estudo: Novos emigrantes são mais qualificados mas têm mais dificuldade para encontrar emprego

Foto: Pierre Matgé
Luxemburgo 7 min. 24.02.2016

Estudo: Novos emigrantes são mais qualificados mas têm mais dificuldade para encontrar emprego

Há mais emigrantes qualificados a chegar ao Grão-Ducado e já não vêm só das tradicionais regiões de partida, o interior norte e centro do país. Em contrapartida, a precariedade aumentou nos últimos anos e há muitos a viver situações difíceis, alertam os autores do estudo Remigr, que traça um retrato da nova vaga de imigração portuguesa no Luxemburgo.

É o primeiro retrato da nova vaga de emigração portuguesa para o Luxemburgo. As primeiras conclusões do estudo Remigr, um inquérito sobre a emigração recente realizado por um grupo de universidades portuguesas em seis países, foram apresentadas no sábado durante uma conferência sobre a imigração portuguesa no Luxemburgo, e apontam para algumas mudanças no perfil tradicional dos emigrantes que chegam ao Grão-Ducado. A começar pelos distritos de origem dos portugueses que chegaram ao país nos últimos quatro anos, no auge da crise que levou milhares a deixar Portugal.

"A emigração portuguesa recente para o Luxemburgo não ficou confinada às tradicionais regiões de origem, o interior norte e centro do país", explicou ao CONTACTO a investigadora Aline Schiltz, responsável pela recolha de dados no Grão-Ducado. "Houve uma dispersão e uma generalização da emigração, que se espalhou ao litoral e centros urbanos, o que quer dizer claramente que há uma população diferente que vem e que os mecanismos de informação e de emigração também são diferentes. O que temos é uma emigração muito mais diversificada, apesar de continuarmos a ter as redes antigas que sempre foram activas, associadas aos familiares e conhecidos que já vivem no Luxemburgo", aponta a geógrafa luxemburguesa, que estuda há vários anos a emigração portuguesa para o Grão-Ducado.

Sublinhando que a amostra do estudo no Luxemburgo, composta por 368 respostas, "é meramente indicativa", a investigadora diz que os dados recolhidos confirmam no entanto que a emigração aumentou nos últimos anos, desde a chegada da 'troika' a Portugal.

"Houve picos de chegadas entre 2011 e 2013, com 60% das respostas que recolhemos correspondentes ao período de 2010-2015. Foram anos de grandes saídas de Portugal, não só de portugueses, mas também de estrangeiros que viviam no país, porque depois da chegada da 'troika' a vida em Portugal tornou-se muito complicada, com a falta de emprego, e para muitos a única solução foi sair", disse a investigadora.

Entre os que deixaram o país nos últimos anos contam-se muito portugueses qualificados, "sobretudo para destinos como Angola, Brasil e Reino Unido", e o número de emigrantes com curso superior também aumentou no Luxemburgo, embora com menos peso do que para aqueles países. De acordo com a amostra do estudo (composta por 368 questionários), nos últimos cinco anos 33 por cento dos inquiridos tinham curso superior.

"No Luxemburgo também houve um aumento de imigrantes qualificados, incluindo médicos, dentistas e psicólogos, porque há uma população portuguesa que constitui uma clientela potencial e um nicho de mercado", explica Aline Schiltz. A investigadora sublinha no entanto que é preciso "cuidado na análise destes dados", porque "continua a haver muita emigração não qualificada".

O aumento da emigração qualificada nos últimos anos também não chega para mudar o perfil da comunidade portuguesa no Luxemburgo: segundo dados divulgados durante a conferência, só cerca de 7% dos portugueses no Luxemburgo têm curso superior. E nem sempre o facto de ter habilitações facilita a integração dos novos emigrantes, alerta a investigadora.

"Não é porque são qualificados que a chegada ao Luxemburgo é mais fácil, porque há o obstáculo da língua", explica. "As pessoas chegam e não têm a língua, porque os jovens portugueses falam muito bem inglês, mas o francês perdeu importância na escola".

O estudo indica que em alguns casos "os emigrantes qualificados não encontraram trabalho adequado na sua área, correspondente às suas qualificações".

"Há casos em que as pessoas ficam presas num trabalho menos qualificado, porque a vida no Luxemburgo é cara, e se têm filhos tudo se complica. Num dos casos, uma psicóloga trabalha há cinco anos a lavar pratos num restaurante, e não teve neste espaço de tempo a possibilidade de sair desta situação", contou Aline Schiltz ao CONTACTO.

PRECARIEDADE É MAIOR PARA NOVOS EMIGRANTES

A língua, o clima do Luxemburgo, a discriminação e a integração dos filhos na escola estão entre as maiores dificuldades apontadas pelos novos emigrantes portugueses que responderam ao inquérito Remigr. O preço da habitação é de longe a maior queixa dos portugueses recém-chegados ao país, segundo o estudo, levando muitos a procurar alojamento do outro lado da fronteira.

"Há um aumento do número de pessoas a viver do outro lado da fronteira, o que não facilita a vida no Luxemburgo, porque têm muito mais problemas em termos de segurança social ou da integração dos filhos na escola", explica a investigadora luxemburguesa.

Ao preço da habitação acrescem as dificuldades para encontrar um emprego estável, diz a investigadora, que ouviu também assistentes sociais e dirigentes de associações portuguesas no país.

"O grande problema hoje em dia, sobretudo para as pessoas pouco qualificadas, é a precariedade, por causa das empresas de trabalho temporário", explica Aline Schiltz. E dá o exemplo dos portugueses que trabalham no sector da construção e vivem no Foyer de Mulhenbach, uma residência social de onde chegaram a ser despejados vários emigrantes em 2013.

"Falei com trabalhadores portugueses a viver no Foyer de Mulhenbach, que vivem lá há bastante tempo, e não têm condições para sair de lá, porque têm contratos de uma semana. Podem viver um ano inteiro a trabalhar com contratos de uma semana ou de um mês", diz a investigadora, alertando para o agravamento das dificuldades dos novos imigrantes.

"A precariedade no mercado de trabalho é muito maior hoje em dia no Luxemburgo e a possibilidade de obter apoio social é menor. Os assistentes sociais que entrevistei estavam muito preocupados e diziam-me que têm menos meios para apoiar as pessoas, muitas delas sem saber se vão encontrar trabalho e com os alugueres altíssimos no Luxemburgo", conta a investigadora. "Há situações precárias em que famílias vivem em casas sem capacidade para tanta gente, e estão aqui um pouco clandestinos, apesar de serem europeus", diz Aline Schiltz.

Para alguns, a experiência da emigração não corre bem. "Soube pelo menos de dois casos de pessoas que procuraram trabalho durante oito meses, sem conseguir, e receberam o apoio da Missão Católica de Esch-sur-Alzette para comprarem um bilhete de autocarro e voltarem para Portugal, porque a situação deles tornou-se muito complicada", conta.

Em muitos casos, os emigrantes empurrados pela crise em Portugal "têm idade superior a 50 anos", diz a investigadora. "Não tenho números concretos, mas há muitas pessoas perto da idade da reforma que tentam melhorar a vida vindo para o Luxemburgo. Há situações horríveis e complicadas, muito precárias, mas também há casos de sucesso, de pessoas que já vêm com contrato de trabalho e que conseguem um bom emprego", frisa.

O estudo indica aliás que o Luxemburgo é o país dos seis estudados onde menos emigrantes portugueses pensam emigrar para outro destino, "o que revela uma certa satisfação com as condições".

"Quando comparamos a adequação entre as qualificações e o trabalho encontrado, e entre o salário que recebiam em Portugal e o que recebem no Luxemburgo, a situação no Grão-Ducado melhorou para a maior parte das pessoas", sublinha Aline Schiltz.

O estudo Remigr, que deverá ser publicado até final do ano, analisa a emigração portuguesa entre 2000 e 2015 para seis países: além do Luxemburgo, também o Reino Unido, França, Angola, Moçambique e Brasil.

Na comparação com os outros países, o Grão-Ducado destaca-se ainda por ser um dos países de onde os novos emigrantes enviam mais remessas para Portugal, um valor acima da média e muito superior ao Reino Unido e França.

A maioria do dinheiro enviado pelos emigrantes portugueses no Luxemburgo destina-se a pagar créditos e a suprir necessidades básicas, segundo o estudo. "Encontrei muitos homens sozinhos que mandavam dinheiro para Portugal para a família", disse a investigadora.

O estudo foi apresentado durante a conferência "Luso-Luxemburguês", que reuniu na sexta e no sábado uma dezena e meia de investigadores, historiadores e sociólogos para discutir a imigração portuguesa no Grão-Ducado. Na conferência organizada pela Universidade do Luxemburgo e o Centro de Documentação sobre as Migrações Humanas foram ainda discutidas as relações entre gerações de imigrantes e as dificuldades da terceira idade para encontrar estruturas de apoio e de acolhimento no país.

Paula Telo Alves


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