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"Estamos na escravatura". Empregadas da limpeza da Comissão Europeia ameaçam avançar para a greve
Luxemburgo 4 min. 20.02.2020 Do nosso arquivo online

"Estamos na escravatura". Empregadas da limpeza da Comissão Europeia ameaçam avançar para a greve

"Estamos na escravatura". Empregadas da limpeza da Comissão Europeia ameaçam avançar para a greve

Contacto
Luxemburgo 4 min. 20.02.2020 Do nosso arquivo online

"Estamos na escravatura". Empregadas da limpeza da Comissão Europeia ameaçam avançar para a greve

Teresa CAMARÃO
Teresa CAMARÃO
Pela terceira vez em cinco meses, o setor das limpezas da Comissão Europeia saiu à rua para exigir "condições dignas de trabalho". Reduzidas a metade, estão dispostas a endurecer a luta "para ver se eles sentem".

Antes da hora marcada, o eco dos apitos e tambores já se ouvia a vários metros de distância dos escritórios da Comissão Europeia do número 400 da Route d'Esch, em Gasperich, onde as dezenas de empregadas da limpeza denunciaram, pela terceira vez em cinco meses, a degradação das condições de trabalho agravadas pelo corte de cerca de metade das trabalhadoras do setor. 

OGBL

No país onde os protestos são por tradição mais silenciosos do que em Portugal, França ou Alemanha, os condutores calcavam o travão à passagem, intrigados com os sons estridentes que saíam da mancha vermelha convocada pela OGBL. As reivindicações saltavam dos cartazes que as trabalhadoras penduram ao pescoço. 

Há 25 anos a limpar os escritórios e corredores de um dos sete edifício das instituições europeias no Luxemburgo, Radija explicava que os repetidos "fim da escravatura moderna", "trabalhamos por quatro" e "exigimos dignidade" voltaram à carga "para denunciar a falta de respostas" da Comissão Europeia e da empresa de limpeza subcontratada há um ano, ISS Facility Services. 

"O tempo continua a passar e nada mudou. Somos poucas para muito", lamenta a marroquina que está  "pronta para ir em frente" com outras formas de luta.  "A empresa mudou mas ficou a união entre nós portanto onde elas forem, eu vou e onde eu for sei que não vou sozinha". 

"Estamos na escravatura e assim não dá. Trabalhar sim, gosto para trabalhar sim, mas com condições porque isto não se admite. Há coisas básicas que nos são negadas. Há dias em que nem consigo ir à casa de banho", atira Isabel. 

Ameaça de greve

No Grão-Ducado o direito à greve requer uma declaração de conflito e 16 semanas de mediação entre patrões e funcionários. De mobilização em mobilização, a OGBL tem optado pelas manifestações "à porta da Europa" por considerar que uma paralisação traria riscos acrescidos às trabalhadoras. 

Agora, em declarações ao Contacto, a sindicalista que representa o setor em todo o país, Estelle Winter, explica que a "ausência de respostas" configura uma "situação limite" e avisa que a "ameaça de greve está em cima da mesa", embora considere que é "importante continuar a apelar a uma postura de responsabilidade da Comissão e da empresa" que transformou o dia-a-dia das empregadas de limpeza "num pesadelo". 

Contaco

As opiniões dividem-se. Com dez anos de Comissão Europeia no currículo, Judite acredita que "se formos para a greve nunca mais nos resolvem a vida". No mesmo português, Anabela defende que encostar o aspirador é a única solução. "Para isso é que cá estou, venho a todas as manifestações para ver mesmo se chegamos à greve porque só assim é que eles sentem". 

Embora discordem nos métodos, as emigrantes que levam para casa pouco mais de mil euros por mês pelas quatro horas de trabalho diárias contam a mesma história. "As pessoas não aguentam e há cada vez mais baixas. Ninguém consegue trabalhar nestas condições, é muito trabalho. Somos metade do que éramos há um ano, estamos esgotadas e as coisas pioram porque não há ninguém para substituir quem mete baixa. É daquelas pescadas de rabo na boca. Vamos doentes para casa porque às vezes nem o trabalho todo conseguimos fazer. Eles dizem que é possível, que é possível, que estão dispostos a mudar mas até agora nada foi mudado", relata a primeira. 

"Somos cada vez menos e o edifício continua do mesmo tamanho e com as mesmas exigências. Eu nem sou a mais afetada, trabalho por duas. As minhas colegas trabalham por três ou por quatro", acrescenta a segunda que recusa continuar a ser manipulada pelos patrões. 

OGBL

"Mentiram-nos. Viemos aqui no dia 10 de dezembro e a Comissão disse que ia rescindir com a ISS, mas afinal de contas não é verdade. O diretor foi lá esta semana e inverteu as coisas de tal forma que nos queria fazer acreditar que quem nos estava a mentir era o sindicato. Disseram que não era rescindir, era rever o contrato", indigna-se.

"Tentativa de apaziguamento"

Estávamos em dezembro, quando um dos gerentes da ISS confirmou à OGBL a rescisão do contrato com a Comissão. Numa reviravolta que o sindicato considera uma "simples tentativa de apaziguamento", a empresa reviu o discurso e recuou.

Mantém-se a gigante das limpezas e o "passa culpas" denunciado nos protestos de 8 de outubro e 10 de dezembro. A ISS "rejeita toda a responsabilidade sobre os responsáveis do Serviço de Infra-estruturas e Logística (OIL) dos edifícios da Comissão Europeia que, segundo eles não acata qualquer proposta de melhoria e não responde aos numerosos pedidos", enquanto os responsáveis europeus aconselham as trabalhadoras a "protestar diante das instalações da empresa em vez de os incomodar". 

OGBL

Neste sentido, o sindicato continua a exigir que ambos "assumam as suas responsabilidades e garantam que não sejam feitas economias orçamentárias nas costas dos funcionários". Repete que "existe uma necessidade urgente de aumentar o número de funcionários, reduzindo assim a intensidade da cadência de trabalho" e que "exaustos, os trabalhadores da limpeza recusam a ser menosprezados e não vão parar de lutar até que suas exigências sejam levadas a sério". 

 

    

      

    


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