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Especial eleições comunais: Larochette pode vir a ter burgomestre que fala português
Natalie Silva

Especial eleições comunais: Larochette pode vir a ter burgomestre que fala português

Lex Kleren
Natalie Silva
Luxemburgo 12 min. 30.08.2017

Especial eleições comunais: Larochette pode vir a ter burgomestre que fala português

A localidade mais portuguesa do Luxemburgo pode vir a ter uma burgomestre que fala português. O atual burgomestre de Larochette não se recandidata, abrindo caminho a Natalie Silva, que em 2011 teve o segundo melhor resultado. A vereadora de origem cabo-verdiana serviu de guia ao Contacto.

A localidade mais portuguesa do Luxemburgo pode vir a ter uma burgomestre que fala português. O atual burgomestre de Larochette não se recandidata, abrindo caminho a Natalie Silva, que em 2011 teve o segundo melhor resultado. A vereadora de origem cabo-verdiana serviu de guia ao Contacto.

Por Paula Telo Alves

O encontro foi marcado na autarquia de Larochette, um belo edifício de 1725. “Quando há casamentos, as pessoas ficam sempre impressionadas”, diz Natalie Silva, que realiza a maioria das cerimónias. A primeira vereadora acabou de sair da reunião do executivo camarário e recebe-nos numa sala em que se destaca um retrato de Jean Antoine Zinnen, compositor do hino nacional, que viveu na localidade e dá nome à rua onde fica a autarquia. Nem o burgomestre, Pierre Wies, nem o segundo vereador, Paul Weiler, se recandidatam, deixando o caminho livre à vereadora de origem cabo-verdiana, de 36 anos. “Ela é mais nova do que nós – muito mais nova! –, e há um momento em que é preciso dizer ‘já chega’”, diz o burgomestre, no cargo desde 1991.

A confirmar-se a passagem de testemunho nas eleições de 8 de outubro, não será para uma estreante na política. Antes de ser eleita em 2011, a vereadora já trabalhava como conselheira política dos cristãos-sociais (CSV) desde 2004. Licenciada em Relações Públicas, em Bruxelas, Natalie Silva nasceu em Ettelbruck, filha de imigrantes cabo-verdianos que chegaram ao Luxemburgo em 1971, vindos de Portugal. Foi antes da independência das ex-colónias, e os pais ainda tinham nacionalidade portuguesa, mas rapidamente se naturalizaram luxemburgueses. “Eu já nasci luxemburguesa”, conta Natalie Silva ao Contacto.

A vereadora vive em Larochette há dez anos e parece ter adotado a pequena localidade como sua. Durante a visita guiada que faz ao Contacto, aponta a casa onde viveu Michel Rodange, professor em Larochette e autor do “Renert”, a epopeia nacional, mostra a antiga pousada onde o escritor francês Victor Hugo passou férias entre 1862 e 1864 (hoje sede de um banco), e elogia a qualidade de vida da localidade. “Larochette é uma pequena grande comuna. Temos uma estação de correios, uma área de serviço, bancos, uma farmácia, um supermercado – as pessoas podem passar dois meses sem sair daqui e podem ir a todo o lado a pé”.

À sombra das ruínas de um castelo medieval, Larochette parece saída de um conto de fadas. Tudo, do coreto às ruelas empedradas, lembra um cenário parado no tempo, um postal do antigo Luxemburgo. Mas a maioria dos luxemburgueses trocou o centro histórico por urbanizações nos arredores, mais modernas e com garagem, deixando as velhas casas aos portugueses. “Há uma aldeia ao lado da outra”, considera o burgomestre.

Larochette tem mais portugueses que luxemburgueses

A localidade é conhecida por ter mais portugueses do que luxemburgueses, um caso único no país: 948 habitantes têm nacionalidade portuguesa, contra 877 luxemburgueses. O centro histórico foi ocupado pelos portugueses, e o burgomestre atribui-lhes o crédito pela renovação do imobiliário. “A habitação estava abandonada pela população. Os portugueses compraram as casas e arranjaram-nas: 80% das casas na zona histórica estão nas mãos dos portugueses”. Natalie Silva corrobora: “Foi graças a isso que puderam ser preservadas”.

Em Larochette, os portugueses “sentem-se em casa”, diz Pierre Wies, para quem a integração não causa “problemas de maior”. Reconhece que “a língua é uma barreira”, mas defende que é preciso dar tempo ao tempo. “Os jovens falam luxemburguês, os mais velhos não. É preciso paciência”.

Os portugueses começaram a chegar a Larochette nos anos 60, para trabalhar na hotelaria. O Statec só tem dados a partir de 1966: nesse ano, viviam 47 portugueses na localidade, contra 816 luxemburgueses. Mas nas décadas seguintes, o número de luxemburgueses estagnou, enquanto os portugueses não pararam de aumentar: eram 188 em 1970, 452 em 1981, 469 em 1991, 783 em 2001. Hoje são 948, representando 44% da população, contra 40,5% luxemburgueses e 15,5% de outras nacionalidades. A enorme proporção de portugueses granjeou a Larochette o epíteto de “aldeia mais portuguesa do Luxemburgo”. Já em 1992 a SIC esteve na localidade para filmar este bastião da emigração lusa e já então se dizia que a maioria das casas eram de portugueses.

Vinte e cinco anos depois, pouco mudou. Na rue du Pain, uma ruela de casas construídas por volta de 1800, orladas de vasos com flores e mesmo couve galega, só uma das habitações é de luxemburgueses. “É aquela ali, do portão”, aponta Carlos Alberto, de 55 anos. O português está inscrito para votar. Não conhece Natalie Silva – que posa mais à frente para o fotógrafo do Contacto –, mas vai usar o voto para “pôr a correr dali para fora quem lá está”. O imigrante conta que gastou mil euros em perdizes e galinhas de Angola, para pôr numa horta arrendada à comuna, mas diz que “os engenheiros da Câmara fazem a vida negra às pessoas” e não o deixaram avançar com o projeto. “Aos luxemburgueses deixam fazer tudo, mas a nós...”, queixa-se a mulher, Fernanda. Mais tarde, Natalie Silva explica ao Contacto que a localidade está abrangida pelo plano nacional de proteção de monumentos, e as hortas do centro histórico também obedecem àquelas regras.

Carlos Alberto é um dos 173 portugueses recenseados em Larochette. Apesar de a maioria dos habitantes serem portugueses, os luxemburgueses batem-nos nos cadernos eleitorais, com 669 eleitores. No Café de l’Europe, um dos clientes entra a falar uma mistura de luxemburguês e português, mas nem quer ouvir falar em votar. “Só vai votar quem é tolo! Não adianta nada, você acredita nisso?”, pergunta à jornalista António da Cunha, de 43 anos, a viver na autarquia desde os cinco. Ao balcão, o empregado do café, Fernando Marinho, vive em Larochette há 26 anos, mas também nunca votou. “Disseram-me que se uma pessoa vota uma vez tem de votar sempre, senão paga multa. Se fosse livre, está bem, uma pessoa votava quando quisesse, agora assim, não”, justifica. “É como os impostos, fazes uma vez, tens de fazer sempre”, comenta o gerente do café, Hilário Ken. O jovem de 27 anos assumiu em janeiro o negócio dos pais, aberto em 1989, e também nunca se recenseou. Em vez disso, pediu a dupla nacionalidade, que lhe permite votar nas legislativas, reservadas aos luxemburgueses. No café com a bandeira portuguesa e luxemburguesa na janela, a maioria dos clientes são portugueses, e até uma holandesa se despede com um “até amanhã”. “Aqui em Larochette, até os luxemburgueses falam português”, brinca Fernando.

O pioneiro dos portugueses eleitos no Luxemburgo

No centro de Larochette, difícil é encontrar um luxemburguês. Na rua do Café de l’Europe fica também a mercearia Caves du Portugal e o popular Fielser Stuff (que quer dizer “salão de Fiels”, o nome luxemburguês de Larochette). Famoso pelos frangos de churrasco, o Fielser Stuff é um típico café português no Luxemburgo: por trás do balcão, entre uma parafernália de garrafas e o Zé Povinho, vê-se uma fotografia dos Grão-Duques. O restaurante fica nas traseiras da Câmara Municipal e é o preferido de Natalie Silva, que gosta de almoçar ali à quarta-feira, após a reunião do Colégio de Vereadores, por ser “dia de dourada”. O proprietário do Fielser Stuff é Alcides José dos Santos Mendes, um dos primeiros portugueses eleito conselheiro comunal no Luxemburgo, em 2005, e apesar de recusar naturalizar-se, não se considera estrangeiro. “Na comuna, disse-lhes: ‘Eu não sou estrangeiro, porque habito aqui desde 1980. Então são vocês os estrangeiros, porque nós estamos em maioria’”.

José dos Santos diz que se candidatou porque “gosta da vila” e “também por ser português”. “É importante um português fazer parte da comuna, para defender os nossos interesses”, defende. O conselheiro português, reeleito em 2011, chegou a Larochette em 1980, vindo de França. Começou como servente no Hôtel du Château e três anos depois abriu o seu próprio restaurante.

Ao contrário do que acontece com a maioria dos cafés portugueses, que encerram em agosto, em Larochette “ninguém fecha no verão, por causa dos turistas”, e à hora do almoço, o Fielser está cheio. Ouve-se falar inglês, mas a maioria dos clientes são portugueses. Além de Natalie Silva, só há meia dúzia de luxemburgueses a almoçar, incluindo outro conselheiro da autarquia. O conselheiro luxemburguês mete-se na conversa com o Contacto. “De quem é que estás a falar?”, pergunta a José dos Santos. “Estou a dizer que és um patife [‘salaud’]!”, brinca o português. Riem-se os dois. “Nós somos mais bem aceites aqui que noutros sítios onde há muitos portugueses, como em Esch. É a comuna onde há melhor colaboração entre portugueses e luxemburgueses”, garante o conselheiro comunal, que ainda não decidiu se este ano se recandidata, mas vê com bons olhos a possibilidade de Natalie Silva ser a próxima burgomestre. “É possível, e acho bem. E ainda por cima fala português”, comenta este militante do CSV, o partido da vereadora. Como Larochette tem menos de três mil habitantes, aqui não há listas partidárias (as candidaturas são em nome individual), mas a verdade é que o burgomestre dos últimos 26 anos também é cristão-social.

A “afronta” no referendo aos portugueses de Larochette

Em novembro de 2014, a comunidade portuguesa de Larochette foi notícia por causa do chumbo no referendo sobre a fusão com as autarquias vizinhas de Fischbach e Nommern. Para promover a fusão, o Governo propunha pagar 2.500 euros por habitante, um prémio que rondava uma dezena de milhões de euros. Os burgomestres das três localidades fizeram campanha pela fusão, que permitiria racionalizar custos e “criar um interlocutor mais forte na região”, mas a proposta acabaria rejeitada tanto em Fischbach (76% contra) como em Nommern (70% pelo “não”). O “sim” só ganhou em Larochette, com 66,5%. Na imprensa luxemburguesa, vários editoriais atribuíram o resultado ao “medo dos portugueses” de Larochette. “Havia rumores de que íamos construir uma escola comum para todos os habitantes, mas não era verdade”, conta Natalie Silva ao Contacto. A questão é recordada num artigo publicado em julho no semanário Land que põe o dedo na ferida. “O medo de que os seus filhos venham a misturar-se com os alunos lusófonos de Fiels [Larochette] assombra há décadas os habitantes de Nommern e Fischbach. Desde o início das discussões sobre a fusão, os burgomestres estavam conscientes de que a mínima perspetiva de centralização das escolas faria capotar o referendo”, escreve o jornalista Bernard Thomas. Por essa razão, as três localidades assinaram uma convenção estipulando que as escolas de cada localidade permaneceriam abertas até 2029, recorda o Land. Uma garantia que não bastou para tranquilizar a população. Em Larochette, só 10 a 20% dos alunos são orientados para o liceu clássico, o ramo mais elitista do ensino luxemburguês, enquanto na vizinha Fischbach, onde a maioria dos alunos são luxemburgueses, essa proporção sobe até 70%, segundo dados citados pelo Land.

Na altura, o burgomestre de Larochette considerou o chumbo “uma afronta”, e quase três anos depois, ainda fica irritado quando o Contacto o questiona sobre a fusão abortada. Mas recusa culpar a xenofobia. “Não me posso pronunciar sobre as intenções escondidas das pessoas nessas comunas”, diz. E recorda “as reações virulentas” em Nommern e Fischbach aos artigos que os acusavam de não se quererem “misturar com os portugueses de Larochette”. “As pessoas diziam: ’não aceitamos que nos tratem como racistas’”.

O jornalista Marcel Kieffer foi um dos que não hesitou em chamar os bois pelos nomes. Num editorial publicado na altura no Wort, defendia que o resultado era um espelho da realidade do país. “E o que vemos envergonha-nos”, concluía. “Vi-o como uma tentativa de excluir a população de Larochette, que é de maioria portuguesa, e achei isso indigno e intolerante”, recorda o jornalista luxemburguês. Alguns viram na recusa da fusão um prenúncio do chumbo ao direito de voto dos estrangeiros nas legislativas, sete meses mais tarde, no referendo de junho de 2015. Nessa altura, “o medo do primeiro-ministro português” também foi brandido em cartas aos jornais, e a discussão sobre o fracasso do referendo fez correr muita tinta.

José dos Santos Mendes acha que as outras comunas chumbaram a fusão “porque pensavam que iam ser mandadas pelos portugueses”. Mas quando questiona os habitantes das localidades vizinhas, fecham-se em copas. “Dizem-me: ‘Jo, jo, jo. Mir wunnen gudd zesummen. An näischt” [“Sim, sim, sim. Vivemos bem juntos. E nada…”].

Será Larochette uma localidade mais acolhedora para os portugueses que o resto do país, como defende José dos Santos? A visão idílica da coabitação entre portugueses e luxemburgueses é posta em causa pelos resultados do referendo sobre o voto dos estrangeiros. Em Larochette, o “sim” só conquistou 27% (ainda assim, ligeiramente acima da média nacional, de 21%).

No Hôtel du Château, um dos mais antigos da localidade, o gerente, Fernando Marques, acha que a coabitação “é complicada”. “Cada um fica no seu canto”, diz ao Contacto o imigrante, há 46 anos no Luxemburgo e dez à frente do hotel. “Os luxemburgueses ficam entre eles e os portugueses também”.

Na esplanada, Fernando Marques serve bebidas a dois luxemburgueses. A jornalista pergunta se são de Larochette, numa derradeira tentativa de encontrar residentes luxemburgueses. Que não, só vieram passear. Digo-lhes que é difícil encontrar luxemburgueses de Larochette. “Ah, mas isso é porque há muitos portugueses!”, explicam. Mas apesar de estarem em maioria, não são eles que vão decidir nas eleições de 8 de outubro. Se Natalie Silva for eleita burgomestre, sê-lo-á com os votos dos luxemburgueses.

Paula Telo Alves

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