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Esconder o racismo por baixo da alcatifa
Editorial Luxemburgo 2 min. 14.08.2020

Esconder o racismo por baixo da alcatifa

Esconder o racismo por baixo da alcatifa

Foto: LUSA
Editorial Luxemburgo 2 min. 14.08.2020

Esconder o racismo por baixo da alcatifa

Nuno RAMOS DE ALMEIDA
Nuno RAMOS DE ALMEIDA
O recrudescimento de argumentos xenófobos e de movimentos neonazis só será combatido olhando essas questão de frente, não com gente que pretende que se fale mais baixo para não lhe incomodar a refeição .

Há umas semanas o Presidente dos EUA, Donald Trump, declarou que ia mandar fazer menos testes para detetar a covid-19, dado que isso garantiria que os EUA teriam números de infectados menores. 

É a mesma solução que algumas criaturas pregam em relação ao racismo: para eles o problema não é que persistam práticas e conceções racistas nas sociedades, mas que se fale do racismo. Se tudo estiver caladinho, é como se o racismo não existisse. Ficava confinado ao silêncio das pessoas silenciadas na nossa sociedade. Para essa gente, a divisão nas nossas sociedades não é criada por uma estratégia de poder baseada na discriminação, mas porque há gente, entre os sujeitos racializados, que começam a achar intolerável situações que se vivem há muitas gerações. 

Vamos ser claros: há gente que beneficia com o racismo. Há uns anos entrevistei o português Francisco Bethencourt, titular da cátedra, no King’s College - outrora ocupada por Charles Boxer, notável historiador britânico com um enorme conhecimento sobre o colonialismo português -, autor do livro “Racismos, das Cruzadas ao Século xx”. Na altura disse-me algo óbvio:  "O racismo é sempre devido a motivos políticos e à luta para a monopolização de recursos." É evidente que o racismo é uma estratégia de poder que permite determinadas elites e camadas ganharem os recursos à conta de parte da população e , sobretudo, desviar a atenção dos principais beneficiados em relação à crescente desigualdade social.

Com o racismo não ganham a maioria dos portugueses ou maioria dos povos do mundo, mas aqueles que o usam para justificar que tudo fique na mesma e dividir os que mais prejudicados são nas nossas sociedades. 

O aparecimento em todo o mundo de novos sujeitos políticos que contestam situações de exclusão, que se arrastam desde a escravatura e do colonialismo e que persistem na cabeça de muita gente, é um dado positivo em si. Não são os movimentos emancipatórios que contestam a discriminação dos negros ou dos imigrantes que dividem a sociedade: é a discriminação que torna a sociedade dividida entre quem tem todos os direitos e aqueles que parecem nem ter o direito de tornarem os seus problemas visíveis. 

O recrudescimento de argumentos xenófobos e de movimentos neonazis só será combatido olhando essas questão de frente, não com gente que pretende que se fale mais baixo para não lhe incomodar a refeição .

É assim em todo o lado. Os imigrantes no Grão-Ducado só terão o ensino que merecem , as condições sociais condignas com o seu esforço, e os direitos de cidadania que todos os que vivem num país devem ter, se fizerem alguma coisa por isso. Os sujeitos racializados, também, só terão um lugar igual nas nossas sociedades, como é seu direito, se lutarem por isso.  

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