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“Escolhi o Algarve para passar a minha reforma”
Luxemburgo 5 min. 02.09.2019 Do nosso arquivo online

“Escolhi o Algarve para passar a minha reforma”

“Escolhi o Algarve para passar a minha reforma”

Foto: Anouk Antony
Luxemburgo 5 min. 02.09.2019 Do nosso arquivo online

“Escolhi o Algarve para passar a minha reforma”

Manuela PEREIRA
Manuela PEREIRA
Adora Portugal, comprou casa no Algarve onde passa férias e onde quer gozar a sua reforma. O arcebispo do Luxemburgo e recém-nomeado cardeal diz que é uma forma de retribuir o que os portugueses do Luxemburgo fizeram pelo Grão-Ducado.

Jean-Claude Hollerich fica na história da Igreja Católica luxemburguesa, tornando-se no primeiro cardeal do Grão-Ducado, mas diz ter a humildade necessária para considerar que o mérito não é dele. "Penso que tem de haver uma grande humildade para saber que o mérito não é meu. Estou aqui para servir. Estar ao serviço do Papa e de todas as mulheres e de todos os homens que fazem parte da Igreja”, confiou o futuro cardeal numa entrevista à Rádio Latina.

Jean-Claude Hollerich considera que o Luxemburgo tem “uma dívida de gratidão para com os portugueses do Luxemburgo”, segundo o próprio revelou à Rádio Latina, menos de 24 horas depois de saber que o Papa o nomeou cardeal. Foi, aliás, em Portugal, mais precisamente no Algarve, que o arcebispo comprou um apartamento, onde está a passar férias e quer gozar a sua reforma.

O futuro cardeal descobriu Portugal através dos portugueses do Luxemburgo

"Adoro Portugal. Descobri Portugal através dos portugueses no Luxemburgo. Encontrei uma gentileza e abertura tamanhas, que me interessei pelo seu país. Pensei que teria de ter alguma coisa [aludindo a uma habitação] para, se Deus me permitir, chegar à idade da reforma. Como sabe, os preços [do alojamento] são muito elevados no Luxemburgo, então escolhi Portugal. Estou aqui no Algarve, numa pequena aldeia [cujo nome não quer revelar] e é maravilhoso", referiu o arcebispo por telefone à Rádio Latina.

"Tenciono um dia instalar-me, definitivamente, em Portugal. Aqui sinto-me muito bem. Quando vou fazer compras, as pessoas reconhecem-me e tratam-me por 'Senhor Bispo'. Sinto-me em casa”.

"Comprei um apartamento há pouco mais de três anos. Comprei porque tenho de pagar em prestações. Não tenho dinheiro para pagar de uma vez. Estou a saldar a minha dívida ao banco".

Porquê o Algarve?

“Já tinha passado férias no Algarve com estudantes japoneses e com os meus pais e sempre gostei. Aprecio sobretudo as pequenas aldeias em detrimento dos grandes centros. Aqui sinto-me à vontade, mas também gosto do resto de Portugal. Já fui à Figueira da Foz, a Lisboa ou ainda ao Porto. Uma vila como Nazaré, por exemplo, é magnífica. Tenho um grande amor pela cultura portuguesa. E estou contente porque creio que, nós luxemburgueses, temos uma dívida de gratidão para com todos os portugueses que vieram trabalhar para o Luxemburgo”.


Arcebispo do Luxemburgo diz que "dançar é rezar três vezes"
Mais de dez mil pessoas participaram este ano na procissão dançante, esta terça-feira em Echternach.

Vai dividir os seus dias de reforma, tal como muitos portugueses, entre os dois países?

"Muitos jovens portugueses dizem-me que se sentem portugueses no Luxemburgo e luxemburgueses em Portugal. Existe uma dupla identidade e tenho muito respeito por estas pessoas. Como já referi é graças a essas pessoas que o Luxemburgo é o que é hoje em dia”.

“O nosso bispo”

"Em Portugal, reconhecem-me. Ainda hoje [segunda-feira] um carro passou por mim e o condutor abre a janela e grita-me: parabéns. Reparei que a matrícula do carro era luxemburguesa. Fico sempre sensibilizado quando oiço portugueses do Luxemburgo referirem-se a mim enquanto ‘o nosso bispo’ e não o 'bispo do Luxemburgo'”.

Como soube da nomeação?

“Estava a sair da missa dominical no Algarve quando verifiquei que tinha muitas mensagens de felicitações no meu telemóvel. Vi uma mensagem de uma amiga de Itália que me chamava de ‘Eminência’. Não percebia a razão destas felicitações. Pesquisei na Internet e foi assim que vi que tinha sido nomeado cardeal”.

Não esperava esta nomeação?

"Não esperava esta nomeação porque há muitos cardeais europeus. Pensei que o Papa iria nomear cardeais de outros continentes. Além do mais, o Papa costuma nomear cardeais dos países da periferia, de países mais pobres, regra geral e o Luxemburgo não faz parte, propriamente dito, desta categoria. Não pensei que fosse possível. A surpresa foi total".

Pode eleger o futuro Papa ou até ser eleito Papa

"Ninguém me irá eleger Papa porque é exigido mais de um Papa do que aquilo que eu represento. Não há riscos de que isso aconteça. Eleger o futuro Papa sim, caso viva mais tempo do que o Papa Francisco".

"Não tenho as qualidades necessárias para ser Papa. Os Papas que conheci – lembro-me do Papa João Paulo VI, de João Paulo I, João Paulo II, Bento e agora do Papa Francisco – são pessoas com qualidades humanas maiores do que eu. Só de pensar nisso [na possibilidade de ser Papa] fico incomodado."


Jean Claude Hollerich.
Jean-Claude Hollerich está em Portugal, onde soube da nomeação para cardeal
Aos 61 anos, Hollerich passa a ser o primeiro luxemburguês a fazer parte do Colégio Cardinalício, podendo escolher o próximo Papa ou mesmo ser eleito para Sumo Pontífice.

Entre as inúmeras mensagens de felicitações há uma que o arcebispo destaca e que qualifica de "mais bela"

"Uma mensagem de um navio, o Mare Jonio, que está no Mediterrâneo e que não pode atracar na ilha de Lampedusa porque o Governo de Itália não autoriza. Nessa embarcação, repleta de refugiados, quando souberam da nomeação dos cardeais – do padre Michael Czerny, que é responsável da secção migrantes da Santa Sé, do arcebispo de Bolonha [Matteo Zuppi] e da minha – começaram a aplaudir e a demonstrarem a sua alegria porque, para eles, era um sinal de que o Papa não os tinha abandonado. Queria apelar ao não esquecimento destes navios, repletos de refugiados. Tem que se dar esperança às pessoas e temos que manter a nossa humanidade para ajudar aqueles que não têm nada. Não podemos ser cristãos fechando a porta aos mais desfavorecidos. É algo, para mim, muito importante".

A Europa está menos cristã?

“É visível e o pior é que há quem utilize símbolos cristãos tendo atitudes completamente anti-cristãs. Há antigos ministros, com um terço nas mãos, a pronunciarem-se contra os migrantes: é terrível”, lamenta o arcebispo numa referência ao antigo ministro do Interior de Itália,  Matteo Salvini.