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Escola Internacional de Differdange arranca sem português na primária por falta de interessados

Escola Internacional de Differdange arranca sem português na primária por falta de interessados

Foto: Chris Karaba
Luxemburgo 4 min. 19.05.2016

Escola Internacional de Differdange arranca sem português na primária por falta de interessados

O português é uma das línguas de opção na Escola Internacional de Differdange, uma estreia no ensino público no Luxemburgo, mas nenhum dos alunos lusófonos inscritos no primário escolheu o idioma. Por falta de interesse na língua portuguesa, a escola vai arrancar em Setembro sem professor de português para as crianças do ensino primário.

O português é uma das línguas de opção na Escola Internacional de Differdange, uma estreia no ensino público no Luxemburgo, mas nenhum dos alunos lusófonos inscritos no primário escolheu o idioma.

"Foi essa a decisão dos pais", disse hoje ao CONTACTO Gérard Zens, um dos responsáveis da escola, que abre portas pela primeira vez em Setembro. "Os pais disseram-nos que preferem que os filhos aprendam línguas mais úteis no mercado de trabalho no Luxemburgo", como "o francês e o inglês", explicou o responsável.

Os portugueses são a segunda nacionalidade mais representada na nova escola, com 25 alunos entre os 110 inscritos. Apesar disso, por falta de interesse na língua portuguesa, a escola vai arrancar em Setembro sem professor de português para as crianças do ensino primário, onde estão inscritos apenas quatro portugueses. 

Em contrapartida, no secundário há 12 alunos que optaram pelo português como primeira língua opcional (L1), ensinada "como língua materna". "São alunos que chegaram há pouco tempo ao Luxemburgo, que já fizeram uma parte dos estudos em Portugal, e que preferem continuar a ter português", explicou Gérard Zens. Cinco alunos no secundário escolheram também português como terceira língua de opção (L3), ensinada como língua estrangeira, segundo a mesma fonte.

O novo estabelecimento de ensino foi anunciado como uma oportunidade para as crianças portuguesas com dificuldades no ensino público luxemburguês, onde a alfabetização se faz em alemão. Na Escola Internacional de Differdange, inspirada nas escolas europeias, os alunos podem optar entre duas secções linguísticas, uma francófona e outra anglófona. É nestas línguas que vão ser dadas a maior parte das aulas, como a Matemática ou a Educação Musical.

No primeiro ano, os alunos podem além disso optar por um segundo idioma, entre francês, alemão, inglês e português. É numa destas quatro línguas que "vão ser alfabetizados e aprender a ler e escrever", explica Zens. O luxemburguês é obrigatório para todos.

Quem escolhe português como língua de opção no primário tem oito aulas de língua portuguesa por semana, num total de 45 aulas semanais. Contas feitas, ter português como primeira opção representa cerca de 20% do tempo total de estudo. As restantes aulas são dadas na língua da secção escolhida, francês ou inglês. Apesar disso, os alunos lusófonos inscritos no ensino primário preferiram ter "francês e inglês" como língua de opção, segundo a escola.

"Uma oportunidade perdida"

Para o responsável da Coordenação de Ensino de Português no Luxemburgo, Joaquim Prazeres, é "uma oportunidade perdida" para os imigrantes portugueses. "A comunidade portuguesa no Luxemburgo tem a possibilidade de ter todas estas línguas, incluindo o português, e não aproveita a oportunidade que tem", lamenta Prazeres, para quem na base do problema está "a falta de informação" dos pais.

O responsável aponta estudos que indicam a importância de reforçar a língua materna para aprender a escrever e a falar outras línguas. "É necessária uma base sólida na língua materna: quanto maior é o conhecimento da língua materna, mais fácil é aprender outras línguas". 

O problema é que "há pais que acham que o facto de falarem português em casa com os filhos já é suficiente". "Esquecem-se que uma coisa é o registo familiar do português falado em casa e outro é o registo académico, em que conta não só a oralidade como o registo escrito", explica Joaquim Prazeres. As dificuldades agravam-se por causa do "empobrecimento do vocabulário dos alunos, por falta de diálogo em casa entre pais e filhos, que depois tem consequências na escola", defende.

O problema levou mesmo a Universidade do Luxemburgo a iniciar um projecto para reforçar a aprendizagem do português a partir do ensino precoce, que arrancou em 2014. Um estudo anterior realizado com alunos portugueses pela Universidade do Luxemburgo e pela Universidade do Minho confirmava que as crianças bilingues têm mais facilidade para se concentrar que as crianças monolingues, o que melhora a "capacidade de aprender", mas revelou também um grande défice de vocabulário na língua materna dos imigrantes. Uma falha que depois prejudica a aprendizagem do luxemburguês e das outras línguas oficiais no Grão-Ducado, apontam os investigadores.

Há mesmo pais que optam por não falar português com os filhos, acreditando que falar em casa uma das línguas oficiais no país ajuda as crianças. "Os pais pensam que estão a contribuir para a integração e o sucesso escolar dos filhos, mas é precisamente o contrário", diz o responsável da Coordenação de Ensino de Português no Luxemburgo.

Joaquim Prazeres aponta ainda o sucesso do modelo das Escolas Europeias, em que os alunos são alfabetizados na língua materna e aprendem além disso várias línguas, e lamenta que o português seja visto como um obstáculo para a integração. "Entre as elites, falar várias línguas é um sinal de inteligência e de prestígio, mas quando se trata das classes populares, parece que temos um problema". 

Paula Telo Alves


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