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"Era mais difícil comer espinafres do que aprender luxemburguês", diz eurodeputada luso-luxemburguesa
Luxemburgo 3 13 min. 05.06.2019

"Era mais difícil comer espinafres do que aprender luxemburguês", diz eurodeputada luso-luxemburguesa

Isabel Wiseler-Lima com quatro anos, um ano depois de chegar ao Luxemburgo.

"Era mais difícil comer espinafres do que aprender luxemburguês", diz eurodeputada luso-luxemburguesa

Isabel Wiseler-Lima com quatro anos, um ano depois de chegar ao Luxemburgo.
Foto: Álbum de Isabel Wiseler-Lima
Luxemburgo 3 13 min. 05.06.2019

"Era mais difícil comer espinafres do que aprender luxemburguês", diz eurodeputada luso-luxemburguesa

No gabinete de vereadora da cidade do Luxemburgo que vai trocar por Bruxelas, Isabel Wiseler Lima põe em ordem os últimos dossiers e passa em revista a história de como chegou ao Grão-Ducado e à política.

Um imbróglio burocrático fez com que Isabel Wiseler-Lima conseguisse o passaporte luxemburguês sem perder a nacionalidade portuguesa, muito antes de o Luxemburgo permitir a dupla nacionalidade. Nascida em Lisboa, veio para o Luxemburgo com três anos, em 1964, dez anos antes do 25 de abril. Lembra-se de passar as fronteiras “do mundo livre para uma ditadura”, nas viagens de férias a Portugal, e escolheu um cravo como símbolo da Europa. O marido é Claude Wiseler, ex-ministro dos Governos de Juncker. Quando se candidatou pela primeira vez a eleições, em 2005, dizia que era “casada com a política”, mas acabou por escalar ela própria os degraus do poder. Agora, aos 57 anos, com três filhos já adultos, vai assumir o mandato de eurodeputada em Bruxelas.

Chegou ao Luxemburgo com três anos. Como é que os seus pais vieram para cá?

O meu pai foi para Thionville [em França], tinha lá pessoas amigas, e quando chegou disseram-lhe: “Aqui também não consegues trabalho, mas vai para o Luxemburgo que aí sim, de certeza”. E ele disse: “Luxemburgo? Que é isso?" [risos] E foi assim que entrou no Luxemburgo, onde conseguiu logo trabalho, e viveu como todos os portugueses que chegavam naquela altura. Ele é pintor, foi trabalhar para uma grande empresa [de construção] aqui no Luxemburgo e viveu num daqueles quartos onde os homens vivem sozinhos.

Sabe onde era?

Não. Naquela altura havia poucos portugueses. Há sempre aquela anedota que o meu pai conta, que não é anedota: um dia à noite, estavam vários homens juntos, sentados a uma mesa, e tentaram descobrir de onde é que o meu pai vinha, e não conseguiram. Portugal não estava no radar. E depois foi-me buscar a mim e à minha mãe em Portugal.

E a mãe fazia o quê?

Costura.

De onde é que eles vêm?

O meu pai nasceu no Norte, em Moreira de Geraz do Lima [perto de Viana do Castelo], mas vêm os dois de Lisboa, antes de chegar a Odivelas, no fundo da calçada da Carris. O meu pai começou a trabalhar com 13 anos.

Já estão reformados? Continuam a viver no Luxemburgo?

Sim, sim. O Luxemburgo tornou-se verdadeiramente o país deles. Aliás, tentámos voltar para Portugal, de vez, durante seis meses, e depois voltámos. Viram que a vida não se desenvolvia como eles tinham imaginado, habituados ao Luxemburgo, falaram comigo, também – sou filha única – e resolveram voltar.

No gabinete de vereadora.
No gabinete de vereadora.
Foto: Matic Zorman

Esteve lá com eles nessa altura?

Sim. Aliás, eu já tinha ido no ano anterior, porque os meus pais pensaram que íamos mesmo de vez. Eu tinha 15 anos quando fui, e depois voltei para o Luxemburgo.

Num debate organizado pela ASTI (Associação de Apoio aos Trabalhadores Imigrantes), durante a campanha, escolheu um cravo como símbolo da Europa. Porquê?

Tive tanta pena de não conseguir um cravo vermelho, grande, só tinha um pequenino cor de rosa [risos]. Penso que a minha identidade política está ligada à Revolução. Eu tinha 13 anos, mas tinha a consciência do que era uma ditadura e do que era viver livre na Europa.

Conhecia os dois mundos?

As coisas de que me lembro são aquelas passagens nas fronteiras. Sair de um mundo livre, para entrar numa ditadura. Havia, como naquela expressão francesa que diz tudo, “une chape de plomb” [chapa de chumbo] por cima de nós. Não é que a gente não pudesse estar feliz na praia, não é que não houvesse isso, mas era outro ar, um ar mais pesado. Aquela sensação de ver um polícia e em vez de perguntar uma informação, evitar a polícia: a polícia não é amiga, é aquela entidade que tem o direito de fazer aquilo que quer e tu calas-te e ficas contente se não te acontecer nada. Eu lembro-me perfeitamente de o meu pai levar jornais escondidos no forro da mala para mostrar à família o que se dizia de Portugal cá fora. E com uma criança no carro, não imagino o medo que ele passou. São coisas que a gente não esquece. E depois aqueles “shhhh, não fales tão alto, não sabes quem é que está a ouvir”. E depois veio o 25 de abril. O meu pai foi lá no primeiro de maio. Mas era uma revolução, não se sabia bem o que se passava, e não fomos com ele, mas ficámos com o coração muito apertado por não irmos. Depois fomos lá passar o Natal pela primeira vez, no princípio só íamos de dois em dois anos a Portugal. Era uma viagem longa, cansativa, de carro...

Tinham de passar várias fronteiras. É uma das coisas que aprecia na Europa, a liberdade de circulação?

É como a água na torneira. A gente levanta-se, abre a torneira e há água que sai. A gente nunca pensa: “Ai, que bom ter esta água a sair desta torneira”. São coisas tão naturais que a gente não pensa nelas, é como respirar. Era verdadeiramente outro mundo. E a esperança que veio com o 25 de abril, e de um dia pertencer à Europa... E não foi assim tão fácil. Eu acompanhei esse processo.

Que foi apoiado pelo Luxemburgo, pelo seu partido.

Sim, mas Portugal também esteve pronto para entrar na Comunidade Europeia antes de Espanha, e depois teve de esperar para entrarem os dois ao mesmo tempo. São coisas que me marcaram imenso. É por isso que, para mim, a liberdade, o Estado de Direito, são as coisas mais importantes que a gente tem. Tudo o resto – eu penso que a Europa social é algo de verdadeiramente importante, mas nada se consegue se não tivermos democracia, Estado de Direito, liberdade. E a liberdade de imprensa, como os jornais que o meu pai levou... E depois Portugal teve uma evolução económica. Há críticas à política económica europeia, e com razão, mas quando se vê o que trouxe a Portugal... Eu lembro-me como era, os bairros de lata, em Lisboa, antes do 25 de abril.

Tinha três anos quando chegou. Lembra-se da primeira vez que ouviu uma língua e não percebeu?

Eu tive imensa sorte. Vivíamos ao lado de uma família francesa, que vinha de Paris, e eles tinham um miúdo da mesma idade que eu. Entre os três e os quatro anos, aprendi francês sem dificuldade nenhuma. Depois fui para uma creche, e dos quatro aos cinco aprendi luxemburguês. E isso foi um bocadinho difícil, porque só havia mais uma portuguesa. Era outra altura, não vou criticar os métodos pedagógicos da senhora que tomava conta de nós, mas tinha-nos proibido de falarmos juntas.

Não podiam falar português?

Bem, é preciso saber que isto foi há mais de trinta anos.

Também aconteceu mais recentemente, como sabe.

Sim, mas isso é uma situação que não se compreende. Era outro mundo. Eu comia espinafres, que não conhecia, e era mais difícil ainda comer espinafres do que aprender a língua luxemburguesa [risos].


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Acabou por ir estudar Literatura Francesa para a Sorbonne. Foi lá que conheceu o seu marido, Claude Wiseler?

Antes [risos]! Não posso dizer que tenha tido dificuldades na escola luxemburguesa, porque também começaram naquela altura um programa para aprender alemão como se fosse língua estrangeira, no liceu Michel Rodange, e ajudou.

Foto: Matic Zorman

Antes de ser eleita para o seu primeiro cargo político, como conselheira comunal na capital, em 2005, dizia a brincar que era casada com a política [é casada com Claude Wiseler, ministro nos dois últimos Governos de Juncker]. Esse interesse veio daí, ou já existia?

Eu tive sempre interesse pela política, e penso que vem do interesse que o meu pai tinha pela política. Víamos todos os dias o noticiário por causa dele. E por isso eu segui a política francesa desde criança. Lembro-me de falarmos em casa dos problemas que havia entre os Estados Unidos e a União Soviética, mesmo criança. E lembro-me que na escola, quando se falava de algumas coisas, os outros não sabiam, mas eu sabia, por causa do meu pai. E depois do 25 de abril continuei a interessar-me.

E como é que conheceu o seu marido?

Eu tinha 16 e ele tinha 18 anos. E depois estivemos a estudar juntos em Paris, ele foi um ano antes de mim. Casei bastante nova, no final do curso, comecei a dar aulas, e um ano depois de estar casada tive o meu primeiro filho, que era o que eu queria. E depois tive três filhos, dois rapazes e uma rapariga. Fiz aquilo que queria fazer. Para já, dava aulas. Para mim, ser professora era um ideal absoluto. Adoro dar aulas. Lembro-me de no princípio chegar a casa da minha sogra e dizer: “Eu vou mesmo ser paga para fazer aquilo que estou a fazer?” [risos]. O meu marido começou logo uma carreira política, de modo que para mim era claro que eu, apesar de sempre interessada na política, não...

Que ia ficar nos bastidores?

Sim, mas eu apoiava o Claude naquilo que ele fazia, e eu fazia aquilo que fazia a cem por cento, e ele também me apoiava a mim. Mas é verdade que o interesse pela política não tinha desaparecido, só que não pensava em carreira política, porque tinha as minhas próprias carreiras, poder ocupar-me dos miúdos e ser professora com alma, com dedicação. E foi quando o meu filho mais novo saiu de casa que vieram ter comigo para eu participar nas eleições para a comuna. Acabei por dizer que sim, porque eu sempre disse: “Não estejam sempre a criticar, façam, ’engagez-vous’”. E estar sempre a dizer isso aos outros e não fazer eu própria, achei que não dava. Mas não estava à espera de ser eleita, e fui logo eleita. Estive na oposição, aqui na comuna, e para mim foi uma grande honra poder entrar, há ano e meio, para o cargo de vereadora.

Já se sabe quem a vai substituir como vereadora?

Ainda não, ainda vai haver uma reunião do conselho comunal. Ainda tenho uma ou duas coisas que quero fazer, para fazer uma transição como deve ser, mas vai ser o mais rapidamente possível.

Já esteve no Parlamento Europeu, em Bruxelas. O que é que sentiu?

É emocionante ser deputada europeia e representar todos os europeus a partir do Luxemburgo, é muito especial.

Se tivesse de escolher uma prioridade, qual seria?

Estado de Direito. Há uma comissão que se chama LIBE [Comissão das Liberdades Cívicas, da Justiça e dos Assuntos Internos], que fiscaliza os Estados que não respeitam os direitos europeus, e gostava de participar.

Foto: Matic Zorman

Quando é que obteve a nacionalidade luxemburguesa?

É uma história bonita [risos]. Quando casei, fui pedir a nacionalidade luxemburguesa. Mas eles disseram-me: “Tem de abdicar da nacionalidade que tem”. Eu disse, bom, se é assim, é assim. Por isso fui à Embaixada e disse: “Quero abdicar da nacionalidade portuguesa”. Responderam-me: “Ah, mas aqui só pode abdicar da nacionalidade portuguesa se já tiver outra nacionalidade”. Eu volto às autoridades luxemburguesas e digo: “Olhe, eles não me deixam abdicar”. E deram-me a nacionalidade luxemburguesa. E quando me deram aquele papelinho, foi uma coisa muito querida. O senhor disse: “Agora era bom que fosse à Embaixada abdicar da nacionalidade portuguesa”. Eu saí toda contente dali. Se era só “bom”, não era obrigatório [risos]. Tive a sorte de nunca ter tido de abdicar. Mas também respeitei a lei luxemburguesa, e nunca fiz uso da nacionalidade portuguesa enquanto as duas nacionalidades não foram permitidas.

Hoje, como é que se identifica?

Nasci em Portugal, cresci no Luxemburgo, como uma luxemburguesa fora de casa, como uma portuguesa em casa. Sempre falei português com os meus pais. Os meus pais escolheram por duas vezes o Luxemburgo. Eu estudei em Paris. O meu filho mais velho estudou na Irlanda e na Alemanha. A minha filha estudou na Irlanda, em Paris, em Londres e em Berlim. É esta Europa formidável, se fizermos o necessário para que ela continue. Hoje é difícil saber-se o que se tem, é como a torneira.

O CSV perdeu um eurodeputado. Como é que analisa este resultado?

Há um olho a rir e outro a chorar. É claramente uma derrota, não vamos dizer as coisas de outra maneira. Mas é verdade que, quando se conhece o sistema luxemburguês, em que as personalidades conhecidas têm uma vantagem clara, porque as pessoas podem votar neles individualmente... Eu tenho o dobro dos votos individuais que tinha tido nas últimas eleições, mas os votos de lista desapareceram, porque as personalidades como a Viviane Reding ou o meu marido são conhecidos no país, e não se consegue recuperar esse tipo de voto. Muitas pessoas não me conheciam, não têm a mínima ideia de quem eu sou. E se é verdade que as pessoas que me conhecem fazem a ligação do meu nome para o do meu marido, os outros não. E depois Santos Lima desconhecem completamente. E a direção do partido tinha mudado uns meses antes das eleições.

Foto: Matic Zorman

Como é que vê a situação dos portugueses no Luxemburgo?

Para mim, a integração é sempre nos dois sentidos. Não faz sentido querer acabar com as diferenças, mas também é preciso aceitar as regras do país, mas aí a comunidade portuguesa também não põe problemas. Aquilo que temos é um problema de línguas. Quando não se sabe luxemburguês, há uma exclusão de facto, porque os luxemburgueses falam luxemburguês entre eles, e isso acontece frequentemente no dia a dia, e na política muito mais. E isso é um problema em que tem de se pensar. Quando ainda por cima não se sabe francês, então aí é mesmo um problema. Quando se quer viver no Luxemburgo só com a língua portuguesa, isso para mim começa a ser um verdadeiro problema, porque aí a integração não é possível. Não vamos pedir às outras comunidades todas que falem português, estamos no Luxemburgo. E ter uma grande comunidade cada vez mais a falar só português torna-se um problema. Acho que não é uma situação sã.

Os seus pais falam luxemburguês?

Não. O meu pai quando veio foi logo ter aulas de francês, ainda começou a ter aulas de alemão, mas não tinha tempo, e com o luxemburguês disseram-lhe sempre que não precisava. Mas isso era naquela altura, as coisas mudaram. Quando começou a haver cada vez mais pessoas estrangeiras no Luxemburgo, o luxemburguês tornou-se parte da identidade luxemburguesa, que não era. E eu sempre disse que poder falar luxemburguês na Câmara dos Deputados foi uma abertura com grande alcance democrático, porque abriu portas às pessoas que tinham dificuldade em francês. Por outro lado, o que a mim me custa imenso é os portugueses não terem participação política. Fala-se muito do direito de voto a nível nacional [o CSV foi contra o referendo sobre o direito de voto dos estrangeiros nas legislativas], mas quando já se tem o direito de votar a nível comunal e europeu e não se utiliza, custa-me imenso.