Épicerie Créole: A mercearia que se transformou na “embaixada informal” dos cabo-verdianos no Luxemburgo
Embaixada informal. É o que significa a Épicerie Créole de Bonnevoie para os cabo-verdianos no Luxemburgo. De acordo com um estudo da Universidade do Luxemburgo sobre a representatividade do espaço cabo-verdiano no Grão-Ducado, apresentado a 31 de março, esta mercearia é muito mais do que um local de comércio.
Os bidões azuis enfileirados à porta da mercearia chamam a atenção de quem passa na rue Pierre Krier, não muito longe da igreja de Bonnevoie. São o meio privilegiado dos cabo-verdianos para enviar “encomenda” para a família em Cabo Verde, através dos barcos que partem da Holanda. Já à porta, os quadros com imagens do arquipélago, os posters a anunciar concertos e eventos cabo-verdianos, e os produtos exóticos expostos na montra dão a sensação de que ali há uma espécie de território cabo-verdiano.
“É uma embaixada informal de Cabo Verde no Luxemburgo. Para muitas pessoas é até mais do que isso, porque é mais acessível, porque podem obter aí informações do que se passa em Cabo Verde e noutros locais. As pessoas podem ser também encaminhadas para outros espaços aqui no Luxemburgo, como as associações. O espaço ajuda os imigrantes a coordenar as suas vidas aqui e a da família lá em Cabo Verde, seja através do envio de encomendas, seja através de informações que se trocam no local. Além do comércio, as pessoas usam aquele espaço para estabelecer redes. É um lugar de desabafo, de djunta-mon (entreajuda). É também um lugar de contestação, onde as pessoas têm voz, onde criticam, por exemplo, a política luxemburguesa ou cabo-verdiana”, explica ao Contacto Bernardino Tavares, autor cabo-verdiano do estudo “Criação de espaços de imigrantes: Semiótica transnacional de cabo-verdianos no Luxemburgo” .
Cheiro do grogue e do bafio fazem viajar até Cabo Verde
Entrar na Épicerie Créole é como entrar numa tasca em Cabo Verde, com uma diferença: aqui, o espaço começa a encher a partir das 16h30, com a chegada dos trabalhadores, quase todos homens.
De copo de grogue na mão (aguardente de cana de açúcar), junto ao balcão, Carlos Dias festeja com amigos o nascimento do filho, que veio ao mundo no dia anterior. Tal como quase todos cabo-verdianos, diz que conheceu a Épicerie Créole “através de amigos” e que o local é agora um “ponto de encontro com os amigos”.
O cheiro do grogue de Carlos Dias e dos amigos mistura-se com o cheiro do bafio (petisco); os ritmos da música ambiente (coladera e funaná) misturam-se com os diferentes dialetos da língua cabo-verdiana que falam de futebol e comentam as notícias; as bolachas Vitória, a mandioca, a banana pão, o feijão congo ou a farinha de milho, fazem viajar até Cabo Verde.
(Leia o artigo na íntegra na edição desta quarta-feira do jornal Contacto.)
Aleida Vieira / Henrique de Burgo
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