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Entrevista. "Temos de estar felizes por usar máscara"
Luxemburgo 7 min. 30.09.2020

Entrevista. "Temos de estar felizes por usar máscara"

Entrevista. "Temos de estar felizes por usar máscara"

Foto: Eric Chenal
Luxemburgo 7 min. 30.09.2020

Entrevista. "Temos de estar felizes por usar máscara"

Paula SANTOS FERREIRA
Paula SANTOS FERREIRA
Numa entrevista ao Contacto, Rejko Krüger, coordenador do estudo nacional Con-Vince faz o retrato atual da doença no país e na Europa. Até, pelo menos, 2022 o mundo andará de máscara, estima

O estudo Con-Vince do qual é coordenador visa determinar a percentagem de assintomáticos ou com sintomas muito leves da doença entre a população do Luxemburgo. A que conclusões já chegaram?

Os primeiros resultados do estudo, em finais de abril mostraram que os assintomáticos eram cerca de 0,3% da população luxemburguesa, ou seja, 1.500 pessoas que estavam infetadas, mas não apresentavam sintomas, ou tinham sintomas ligeiros, e por isso não eram testadas. Contudo, no final de junho (antes da segunda vaga ser observada no país), já depois do desconfinamento, os novos resultados revelaram aproximadamente entre 400 a 500 pessoas assintomáticas no total da nossa amostra. O que mesmo assim é relevante. Mas o estudo vai continuar até maio de 2021, e aí teremos conclusões mais precisas sobre as infeções assintomáticas não detetadas.

Muitos especialistas defendem que os assintomáticos são os principais transmissores da doença. Concorda?

Essa é uma pergunta difícil, neste momento. Sabemos que as pessoas assintomáticas podem contribuir para a propagação do vírus, mas ainda não é possível determinar se são os principais transmissores. Mas pode-se assumir que desenvolvam mais contactos sociais porque não sabem que estão infetados.

E são os assintomáticos mais contagiosos?

Penso que ainda não é suficientemente robusto para dizer pois ainda não está quantificado. Por exemplo, as crianças assintomáticas parece que não propagam tanto o vírus, nos adultos é sabido que contribuem para a propagação. O primeiro caso na Alemanha foi causado por uma pessoa assintomática, que só desenvolveu sintomas vários dias depois.

Há estudos que apontam que a resposta imunológica só existe num curto prazo. O que dizem os estudos do Luxemburgo?

Na verdade, é uma pergunta muito importante. Para já, dos testes que realizámos aos participantes na nossa amostra, que foram testados cinco vezes com uma distância de duas semanas, percebemos que os anticorpos estão mais estáveis do que refere um estudo alemão. Um outro estudo aponta também que eles descem rapidamente, mas na nossa investigação eles parecem manter-se e estão a estabilizar. Isto é o que apontam os nossos dados que ainda não foram publicados, mas parecem promissores. Mas não podemos esquecer que até agora só temos dados sobre um período de cerca de dois meses. É por isso muito importante esperar pelas nossas análises planeadas para abril-maio de 2021.

Os casos de infeção no Luxemburgo estão mais elevados. Pode-se falar numa terceira vaga da epidemia?

O importante não é as vagas que o Luxemburgo tem, mas sim como as controla. Na Coreia do Sul, por exemplo, eles passaram por uma quarta vaga e só perceberam disso à posteriori.


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Estas são as doses a que, numa primeira fase, o país tem direito no contrato de compra da Comissão Europeia oficializado com uma farmacêutica que está a finalizar os ensaios clínicos.

A Coreia do Sul teve uma quarta vaga, o Luxemburgo pode estar numa terceira vaga e há países da Europa, como a França, Espanha que atravessam agora uma segundo vaga. Como é que se explica estas disparidades?

De momento, só posso especular. Mas, na nossa investigação falamos com colegas de diversos países como, por exemplo, Itália, de Espanha, de França, do Reino Unido e dos EUA. Para mim, as vagas da epidemia em cada país terão a ver sobretudo com a combinação de dois fatores: a cultura de cada povo e a adesão às medidas de segurança. Se falar com pessoas que passaram as férias na praia em França, a impressão com que ficaram é de que ninguém se preocupou com as medidas de segurança.

E no Luxemburgo?

No Luxemburgo as pessoas são, de certa forma, disciplinadas, mas temos de nos manter vigilantes. Manter o distanciamento social, usar máscara e boas medidas de higiene continuam a ser medidas muito importantes para manter a baixa transmissão do vírus. Penso que a 2ª vaga, em meados de julho, foi bem controlada com a testagem à população e a estratégia do rastreamento de contactos, e não tivemos quaisquer problemas em termos de capacidade hospitalar. E isso é muito importante.

No Grão-Ducado, o aumento de infeções tem a ver com as férias no estrangeiro?

Penso que este tipo de exposição pode contribuir, mas é difícil precisar. Por exemplo, na Alemanha a maioria dos casos de infeção que vieram das férias no estrangeiro, nem sequer vieram de áreas de risco, mas sim de áreas que foram consideradas seguras. Mas talvez durante as férias as pessoas não tenham adotado os comportamentos de segurança, e se tenham esquecido de usar máscara.

Temos de estar felizes por usar máscara?

Temos de estar muito felizes por usar máscara, sem ela a epidemia seria muito mais grave. É uma medida que nos mantém seguros e está a conseguir prevenir a transmissão da doença. Não nos devemos esquecer nunca de a usar, não devemos ficar preguiçosos, temos de aderir realmente às medidas, para nos protegermos a nós e aos outros. Todos temos de estar solidários neste combate.

E voltamos de novo à importância dos assintomáticos.

Todas as pessoas devem estar conscientes de que podemos ter o vírus mesmo sem ter sintomas, há que ter muito cuidado, por isso o uso de máscara é a única forma de se protegerem os outros e a si próprios.


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O Luxemburgo tem apostado forte nos testes em larga escala, à população em geral e não apenas as pessoas com sintomas.

Isso é muito tranquilizador porque assim também detetamos os assintomáticos. As famílias são um dos grupos convidados a realizar o teste de despistagem, no programa de testes de larga escala, o que dá um feedback muito positivo para o conhecimento real da situação da doença no nosso país e para a sua prevenção. E isto prova que as nossas medidas atuais são acertadas. Como somos um país pequeno aproveitamos estas oportunidades que infelizmente outros países não têm. É um fator adicional de segurança.

Como as pessoas que regressaram de férias no estrangeiro.

Temos esse exemplo. Todas foram convidadas a realizar o teste, mesmo as que não tinham sintomas, não se sentiam doentes, mas aderiram e algumas testaram positivo. Esta é uma estratégia de prevenção que para mim é importante.

O estudo nacional Con-Vince é apontado como um exemplo para outros países. Porquê?

Devido às especificidades do Luxemburgo somos um estudo que tem uma amostra de base representativa da população em geral, entre os 18 anos e os 79 anos. Os outros países não podem fazer uma avaliação representativa porque as populações são maiores e por isso, centram os estudos nas áreas de contágio, ou nas pessoas hospitalizadas. Quero referir que estamos muito orgulhosos de que o nosso estudo Con-Vince faça agora parte de um esforço de investigação à escala europeia no programa Horizonte 2020, que integra estudos de outros países europeus.

Acredita que na primavera de 2021 as populações estejam a ser vacinadas?

Eu sou um otimista e já há algumas vacinas a caminho de serem licenciadas, como uma alemã, por isso penso que, realisticamente, daqui a um ano já poderemos ter uma vacina. Mas, primeiro é importante que tenhamos confiança suficiente na vacina e que esta tenha o mais alto grau de segurança. Sou totalmente a favor da vacinação, com ela vencemos algumas das maiores epidemias. Mas primeiro há que garantir que a vacina seja eficaz e segura.

Sendo otimista, daqui a dois anos a covid-19 já será uma doença comum, como a gripe? Até lá ainda teremos de usar máscara?

Posso imaginar que dois anos é um período realista que haja potencial para deixar as máscaras, mas penso que vamos viver com as máscaras ainda algum tempo.

Até ao final de 2021?

Mais tempo, talvez. Temos de estar seguros, e honestamente habituei-me a usar máscara, para mim já é normal, e vejo pelos meus filhos, que as crianças também já adotaram a máscara como um comportamento regular.

O Luxemburgo está a ser um bom exemplo no controlo da epidemia para outros países europeus?

Penso que sim. Claro que todos os dias há novas informações e aprendemos mais, temos muitas surpresas e temos sempre de readaptar a nossa estratégia, mas penso que para mim foi muito impressionante o que o nosso país conseguiu. Se agora olharmos para trás percebemos que o Luxemburgo conseguiu realmente gerir bem a epidemia.

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