Escolha as suas informações

Entrevista: "Se eu quisesse ser burgomestre, ninguém se punha à minha frente"
Luxemburgo 9 min. 18.10.2017

Entrevista: "Se eu quisesse ser burgomestre, ninguém se punha à minha frente"

José Vaz do Rio poderia ter sido o primeiro burgomestre com passaporte português.

Entrevista: "Se eu quisesse ser burgomestre, ninguém se punha à minha frente"

José Vaz do Rio poderia ter sido o primeiro burgomestre com passaporte português.
Foto: Guy Jallay / Contacto
Luxemburgo 9 min. 18.10.2017

Entrevista: "Se eu quisesse ser burgomestre, ninguém se punha à minha frente"

José Vaz do Rio recebe o Contacto na casa onde vive há 30 anos, em Gilsdorf, enquanto está ao telefone com a RTP. O imigrante português combina mais uma entrevista e marca a data no calendário. Por estes dias, só se fala do português que não quis ser burgomestre. Nesta conversa, em que entra também a mulher do imigrante português, Vaz do Rio explica as suas razões.

O que é que aconteceu depois de saber que ganhou as eleições?

Falei com a minha família, pensei muito, durante a noite não dormi... Nunca foi o meu sonho ser burgomestre. Gostava de estar no ’collège échevinal’ [colégio de vereadores]. Pensei muito. As pessoas pensam que por eu ter sido o primeiro tinha de ser o burgomestre. Não. Eu acho que para ser burgomestre tem de se ter uma qualidade muito grande – saber de leis, falar bem luxemburguês. Nós recebemos cartas em alemão.

Mas não há um secretário que o possa ajudar nessas funções?

Sim, temos um secretário, mas não vou dar o meu correio ao secretário para ler nem andar sempre a chatear para traduzir.

Quem é que propôs nomear Pascale Hansen para burgomestre?

Fui eu que a sugeri, disse que tinha de ser ela.

Porquê ela, quando foi a quarta mais votada?

Porque ela é advogada e foi a primeira vereadora nos últimos seis anos, e eu vejo uma grande competência nela para burgomestre.

E aprovaram todos essa decisão? Não houve ninguém que dissesse: "Então mas ó José, não queres ser burgomestre?"

Não, não, não. Nós já tínhamos falado uns com os outros [ver artigo "Crónica de uma renúncia anunciada"].

A língua é o principal problema?

É, porque eu tenho que ir às reuniões com outros burgomestres, no Ministério, por exemplo, e é tudo em luxemburguês. Eu percebo cem por cento, falo um bocadinho, mas é um luxemburguês arrastado. E não sei escrever... [a mulher acrescenta: “Nem luxemburguês nem francês, o problema é esse”].

Mas houve outras pessoas na história que também não estudaram, como Lula.

Sim, mas hoje é preciso responder a emails. Muitos colegas disseram-me que antigamente havia muitos ’bauer’ [agricultores] que eram burgomestres, mas hoje a tecnologia avançou muito e há muito mais coisas. Por exemplo, há o PAP, o PAG [os planos diretores municipais], há o orçamento que fazemos no princípio do ano...

Hoje vimos o antigo burgomestre em Bettendorf e ele disse que o José tinha capacidade para ser burgomestre.

[é a mulher de José, que faz limpezas em casa de um advogado luxemburguês, quem comenta: “O advogado disse que ele tinha capacidade para ser burgomestre”].

Já houve reuniões em que sentiu que estava a perder o pé por causa do luxemburguês?

Não, não. Eu quando não sei respondo em francês e eles sempre impecáveis, disso não tenho queixa.

Quais foram as suas funções nos últimos seis anos?

Eu era conselheiro municipal e também era presidente da comissão de integração.

É como estar na assembleia municipal?

Há os planos do dia e eu recebo aquilo sempre, com os vários pontos, à quinta ou à sexta. Segunda vou à comuna ver o dossier, para ver o que está bem e o que está mal. Se for contra, tenho que dizer porquê, e é por isso que vou lá na segunda-feira ler o dossier todo.

E nestes últimos seis anos foi contra algumas vezes?

É normal, havia coisas que não me agradavam. Nesta última reunião fui contra porque queriam pôr um funcionário comunal para multar os carros. Fui contra porque não há parques – às vezes ao domingo, para ir à missa, as pessoas não têm onde pôr o carro.

Em Bettendorf, como tem menos de três mil habitantes, não há listas partidárias, as candidaturas são em nome individual. Mas é militante ou simpatizante de algum partido?

Não.

Não mesmo?

Tenho simpatia pelo DP [a mulher explica que uma das filhas já fez parte do DP em Diekirch].

E em Portugal?

Quando estava em Portugal, trabalhei seis anos e meio nas Minas de Jales.

E nessa altura simpatizava com que partido?

Eu queria era trabalhar [risos].

José Vaz do Rio poderia ter sido o primeiro burgomestre com passaporte português.
José Vaz do Rio poderia ter sido o primeiro burgomestre com passaporte português.
Foto: Guy Jallay / Contacto

Como é que veio para o Luxemburgo?

Foi em setembro de 1979. Ainda fui a Lisboa, mandaram-me o contrato para Portugal. Vim sozinho e em janeiro fui buscá-la [à mulher].

Porquê o Luxemburgo?

Porque eu queria dar algo mais aos meus filhos. Na aldeia era as minas, não havia mais nada, ou então trabalhar na lavoura.

E trabalhava nas minas?

Sim, havia uma serração. Eles cortavam a madeira para fazer os túneis, as galerias, e eu andava cá fora para mandar a madeira para baixo.

Só tem a quarta classe?

Eu fiz a minha escola no Brasil, fui com quatro anos para Nova Iguaçu e voltei para Portugal com 15 anos. Lá fiz a quarta classe e acho que ainda cheguei a fazer o primeiro e o segundo ano do liceu, mas depois mandaram-me embora. O meu pai ainda queria que eu continuasse a estudar mas eu queria o meu dinheiro, queria ser livre. Era uma aldeia pequena [Raíz do Monte, Vila Pouca de Aguiar], e tinha as minas do outro lado. Fui pedir trabalho, eles aceitaram e comecei a trabalhar com 16 anos. Depois casei-me, antes de ir à tropa. E quando saí tentei vir para aqui ou para a Suíça. Os meus pais já cá estavam. O patrão dele meteu pessoas e o meu pai mandou-me o contrato para baixo.

O que é que essa empresa fazia?

Eu era ’maçon de fronteira’ [risos]. Antigamente uma pessoa tinha de ter uma profissão. Só da fronteira para cá é que eu era ’maçon’. Mas eu graças a deus faço tudo, dou jeito a tudo, percebo de eletricidade... Comecei a trabalhar e a interessar-me e consegui ser um bom ’maçon’ – se tivesse ficado era chefe, já tirava medidas e tudo. Mas entretanto falei com ela [a mulher]. O inverno era duro e eu disse-lhe: “Acho que vou fazer um pedido para ir para a Goodyear, ganha-se mais e estamos ao seco”. Um vizinho nosso era inspetor das estradas, falei com ele, e ele disse: “Não te preocupes que eu vou ver isso”. E passados dois ou três meses fui trabalhar para a Goodyear.

E como é que foi para aprender francês?

Foi a falar, mas ainda demorou. É como com muitos portugueses que chegam aqui: é difícil falar francês porque em casa, no café e no trabalho só se fala português.

Também é presidente de dois clubes de futebol. Como é que isso aconteceu?

Tínhamos o Sport Clube de Vila Pouca de Aguiar, fundado por um grupo de famílias. Uma vez estávamos no café Girassol e decidimos fazer uma equipa. Juntámo-nos todos e naquela altura, para começar o clube, demos cada um 500 francos.

O senhor jogava?

Eu era fraco jogador, era lateral esquerdo [risos].

E no FC Jeunesse de Gilsdorf, como é que chegou a presidente?

Eu já era sócio há muitos anos – o meu filho jogava lá – e propuseram-me entrar para a direção. No ano passado o presidente teve a filha muito doente e saiu. Fizemos uma reunião para decidir quem ia ficar presidente. Eles viraram-se logo para mim e disseram: "És tu". [Maria Adelaide comenta: "Eu disse-lhe: 'Vais para a reunião. Tu não és presidente'. Quando ele chega a casa, diz-me: ’Olha, todos votaram em mim, eu não podia dizer que não'."].

Além dessas atividades todas [Maria Adelaide queixa-se que vê menos o marido agora do que quando este trabalhava], o que é que gosta de fazer?

Vou ao ginásio todos os dias, faço musculação há 30 anos. As pessoas lá perguntam: "Quantos anos você tem?". "Tenho 61". "Não diria".

Sabe que há muitas pessoas desiludidas consigo por ter abdicado do cargo de burgomestre?

Essas pessoas não sabem o que se passa lá dentro. Às vezes há coisas que uma pessoa tem de resolver na hora e tem de dizer sim ou não. "Olha, assina-me isto aqui". Se eu assinar e estiver errado, a culpa é toda minha. Ao ler uma carta, ao ver uma palavra ou duas, uma pessoa não percebe e pode significar muitas coisas. Tem de se saber bem a lei e o que está escrito.

Também há quem ache que foi pressionado para não aceitar.

Isso é mentira. Se eu quisesse ser burgomestre, ninguém se punha à minha frente.

Nunca pensou aceitar?

Não, não. O meu sonho era entrar no colégio 'échevinal' [de vereadores], como português. Somos os três que decidimos. E eu como conselheiro não podia fazer isto.

Não entrava nas decisões?

’Voilà’. E eu como ’échevin’ [vereador] posso tomar decisões e melhorar a nossa comuna e a vida dos portugueses – o ensino de português, por exemplo.

É uma das suas preocupações?

É, porque a comuna não queria emprestar a sala. O [anterior] burgomestre pediu 3.000 euros à Embaixada só para emprestar a sala, o que eu acho absurdo. Eu disse que sempre houve cursos de português e não era justo porque eles [a Embaixada] pagavam os livros e os professores. Tivemos uma reunião com o senhor do Serviço de Ensino [Joaquim Prazeres] e convencemo-los a emprestar a sala. Esta terça-feira já houve escola portuguesa.

Por que é que decidiu ir estudar luxemburguês há seis anos? 

Porque estamos no Luxemburgo e somos nós que temos de nos integrar. Os luxemburgueses são como os portugueses: se tiverem um luxemburguês ao lado, falam luxemburguês, como nós falamos português. E eu disse: “Não, eu tenho de perceber o que eles falam”.

Era difícil?

Sim, mas eu também era malandro, não gostava de estudar [risos]. Fazia os trabalhos de casa uma hora antes de ir para a escola. [Adelaide acrescenta: "Às vezes dizia à filha: ’Ajuda-me aqui depressa, que tenho de ir para a escola!'."].

E porque é que pediu a nacionalidade, há um ano?

Porque a minha vida é aqui. Eu ficarei por cá. São muitos anos...

Nas próximas eleições, volta a candidatar-se?

Chegarei lá? Vou ver.

E não teme ter menos votos?

É possível. Mas eu quero é fazer um bom trabalho. Tenho muitas ideias e cortaram-mas, como conselheiro. Uma ideia que já anda a matutar há muito tempo é fazer um centro de dia para idosos. Temos aqui muitos que estão em casa todo o dia, e de estarem parados todo o dia os músculos começam a prender. Se tiverem atividades, já podem viver mais anos... Isso é o meu grande sonho, e se o realizar vou ficar muito contente.

Paula Telo Alves e Álvaro Cruz


Notícias relacionadas

Português ganha eleições mas abdica do cargo de burgomestre
Ainda não é desta que o Luxemburgo vai ter um burgomestre com passaporte português. José Vaz do Rio ganhou as eleições na pequena localidade de Bettendorf, um feito histórico para os portugueses no país, mas decidiu renunciar ao cargo. Em vez disso, vai ser primeiro vereador.
José Vaz do Rio foi o mais votado, mas renunciou a exercer o cargo de burgomestre.
A menina luxemburguesa que pediu para aprender português
Chama-se Maria e fala português desde menina, mas é luxemburguesa dos quatro costados. Maria Hoffmann aprendeu português em criança, em Larochette, nos anos 1970. A menina luxemburguesa pediu para frequentar um dos primeiros cursos de língua portuguesa organizados para imigrantes.
ITW Maria Hoffmann - Photo : Pierre Matgé