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Entrevista. “O racismo é uma doença ocidental”

Entrevista. “O racismo é uma doença ocidental”

Entrevista. “O racismo é uma doença ocidental”

Entrevista. “O racismo é uma doença ocidental”


por Sibila LIND/ 21.05.2019

Foto: Sibila Lind

Marie Dasylva tem 35 anos. Nasceu em Paris, filha de imigrantes guineenses, e desde pequena que foi olhada de forma diferente. Em criança, os colegas não lhe queriam dar a mão por ser negra. Diziam-lhe que as suas feições não eram bonitas. Mais tarde, quando estava a trabalhar numa loja, a chefe pediu-lhe para mudar de penteado, porque o seu cabelo afro “não era profissional”. Farta de lidar com estas situações, em 2017, Marie criou a sua própria agência – Nkali Works – para ajudar mulheres que são vítimas de assédio e discriminação. No sábado, a consultora veio ao Luxemburgo, a convite da associação Time for Equality, para dar um workshop sobre como lidar com comportamentos racistas e sexismo no trabalho.

É a segunda vez que vem ao Luxemburgo para dar um workshop. Da conversa que teve com os participantes e os organizadores, e do pouco tempo que sobrou para visitar a cidade, é possível concluir se existem problemas de racismo no Luxemburgo?

Uma pessoa quando sai do seu país acha sempre que lá fora é diferente, que os outros são menos racistas. Mas é igual. O racismo é uma doença ocidental.

E há forma de curar esta doença?

Não é algo que se trate, mas que se combate.

Somos todos racistas?

Eu não diria que somos todos racistas, o racismo é acompanhado de um poder. Por exemplo, ao falar de um contexto francófono, em França não são os negros que serão racistas, mas sim os brancos, que detêm por exemplo os imóveis, os hospitais, o mercado de trabalho, e que têm o poder de discriminar. Num país ocidental, os racistas são aqueles que têm o poder de discriminar. E no Ocidente são os brancos que têm esse poder.

Como foi crescer em Paris, sendo filha de imigrantes da Guiné-Bissau?

Éramos uma família pobre. A minha mãe era empregada de limpezas e o meu pai trabalhava na construção. Foi na escola que comecei a ser alvo de racismo. Nas visitas escolares não me queriam dar a mão por ser negra, diziam-me “o teu cabelo não é bonito”, “as tuas feições não são bonitas”, “não vou ser teu namorado porque és negra”, e por aí fora. São coisas que vivemos em pequenos, mas que na verdade continuam.

Mas apercebeu-se nessa altura que isso era racismo?

A verdade é que eu era alvo de racismo sem conhecer a palavra. Não sabia o que era. Só me apercebi do seu significado muito mais tarde. Quando terminei o ensino secundário, fui uma das melhores alunas da turma, mas não me propuseram fazer um “prépas”, umas aulas preparatórias para entrar nas melhores universidades. Mas, por outro lado, havia dois estudantes brancos que tinham ficado depois de mim, a quem propuseram o “prépas”. Desde então comecei a dizer a mim própria que trabalhar, por si só, não seria suficiente. O facto de trabalhar não significa que vá ter sucesso, se alguém decidir que eu não o mereço. E foi aí que percebi que ser mulher e ser negra é ter um lugar particular.

Marie Dasylva nas Rotondes, em Bonnevoie
Foto: Sibila Lind

No primeiro workshop que fez no Luxemburgo, durante o Festival das Migrações, contou que quando trabalhava numa loja, a sua chefe disse-lhe que o seu cabelo, na altura afro, não era profissional. Como é que reagiu?

É o meu cabelo natural, é um bocado complicado mudar. É como dizer que a cor dos teus olhos não é profissional. Não disse nada e fiquei estupefacta. Depois fui arranjar o cabelo de forma profissional, ou seja, alisei-o. Tive de alterar o meu cabelo para poder trabalhar. Muitas vezes, a diversidade não passa de um discurso e não de uma vontade política.

Como é ter um filho de seis anos e saber que ele poderá passar por situações de discriminação e racismo? Como é que o prepara para o mundo?

Por agora digo-lhe que ele é bonito, que a sua pele é bonita, que ele também é africano e deve ter orgulho nisso. Antes de lhe ensinar a lutar, vou ensiná-lo a amar quem ele é, uma pessoa negra. É a primeira etapa. Antes de tudo, ele tem de gostar de si próprio.

Tive de alterar o meu cabelo para poder trabalhar. Muitas vezes, a diversidade não passa de um discurso e não de uma vontade política.

Às vezes, quando uma pessoa negra se queixa de racismo na Europa, uma pessoa branca responde dizendo que passa pelo mesmo em África, por ouvir comentários depreciativos por parte dos negros. Os brancos também podem ser vítimas de racismo?

Um branco que chega a África e que é insultado não é o mesmo tipo de violência. O racismo não é uma questão de gosto, mas de poder. É um sistema. Falar de racismo sem poder é despolitizar a questão. Um branco pode ser insultado por um negro todos os dias no Benin ou no Congo, mas não deixa de ter o poder. Não há leis africanas que discriminam os brancos. Mas em França há leis que nos discriminam. Um branco, quando chega a África, está protegido. E esse nunca foi o caso dos meus pais quando chegaram a França.

Costuma falar com eles sobre o que passaram em Paris?

Os meus pais não falam muito sobre isso. São pessoas modestas. Só agora com 35 anos é que começo a conversar com a minha mãe sobre o que ela passou quando chegou aqui. Quando ela chegou a França, nove vezes em dez, as pessoas achavam que ela era uma prostituta. Quando ela me vinha buscar à escola, proibiam-na de falar comigo em mandinga, a sua língua materna, porque ela tinha de falar em francês. A imigração é uma violência. É uma violência.

Foto: Sibila Lind

É sobretudo uma violência quando a pessoa é obrigada a sair do seu país, para ter melhores condições de vida?

Um branco que vai viver no Benim ou no Congo é um expatriado. Os meus pais não são expatriados, são imigrantes. Não é a mesma coisa. Um expatriado é aquele que vai receber, por exemplo, quatro mil euros para trabalhar em África, e ele terá o poder. Os meus pais, quando chegaram a França, não lhes deram nada. Um imigrante é alguém que não tem nada, que vem para outro país para ter um pouco mais que nada.

Trabalhou durante mais de dez anos no mundo da moda, onde cada vez mais vemos campanhas publicitárias com mulheres de várias raças. Existe uma vontade de mudar a mentalidade da sociedade ou é apenas uma forma de “parecer bem”?

They are clever motherfuckers [São uns filhos da mãe espertos]. Há uma publicidade da Gucci que é extraordinária, em que só aparecem pessoas negras. Mas quando entro numa loja Gucci, quantos vendedores é que são negros? No departamento de marketing, quantas pessoas negras é que lá estão? A diversidade não é apenas ter negros nas fotografias, mas sim ter negros com cargos de poder dentro da empresa.

No fundo, é apenas para a fotografia.

Voilá. E isso não me interessa nada.

Quando [a minha mãe] me vinha buscar à escola, proibiam-na de falar comigo em mandinga. A imigração é uma violência.

Maya Angelou, escritora e ativista negra, foi um dos ícones da luta pelos direitos dos negros nos Estados Unidos. Ela inspirou muitas pessoas e uma das suas frases mais conhecidas é: “Se não gostares de uma coisa, muda-a. Se não a puderes mudar, muda a tua atitude”. É isso que ensina às mulheres que a procuram? Que para mudar alguma coisa, é preciso sermos nós a trazer essa mudança?

Concordo bastante com essa ideia. Se falares comigo sobre esperança, a minha esperança é pragmática. E é útil porque está em mim, eu não a deposito em mais ninguém. Não a deposito nas pessoas brancas que poderiam ser compreensivas, não a deposito em supostos aliados, mas deposito-a em mim. Acredito na minha capacidade de criar uma relação de forças que será o começo de uma mudança. É a relação de forças que eu posso estabelecer que vai trazer uma mudança. Se olharmos para trás, não há uma mudança na História que tenha ocorrido sem uma correlação de forças.

Quem são as pessoas que a procuram?

São todas as mulheres que não são brancas. Ou seja, mulheres asiáticas, indianas, árabes e por aí fora. E vêm por razões diferentes. Pode ser porque são vítimas de assédio moral, assédio sexual… É sobretudo por causa deste tipo de problemas.

Foto: Sibila Lind

Pode contar-nos um episódio que tenha acontecido com uma destas mulheres, que a tenha tocado ou chocado?

Havia uma mulher negra que foi insultada por uma colega. Ela disse-lhe: "Quando falas, não percebo nada, estás a falar petit-nègre". É uma expressão racista para dizer que a pessoa fala como um negro. Ela falava francês, mas com sotaque africano. O que é surpreendente aqui é que a minha cliente ficou chateada, foi-se embora, mas quando voltou teve de ser ela a desculpar-se. Houve um caso que me tocou também bastante, um caso de assédio sexual. A pessoa sabia muito bem que estava a ser sexualmente assediada. Quando confrontou o chefe, ele disse-lhe: "De qualquer forma, se te fores embora, achas que vais encontrar trabalho?”. Por ela ser negra, ele disse-lhe que ela nunca mais iria arranjar um trabalho. Entrámos com uma queixa-crime e fizemos um acordo. Ele teve de pagar. É por isto que decidi trabalhar por conta própria. Não quero ter de passar por este tipo de coisas nunca mais.

E se um dia tivesse de voltar ao mercado de trabalho, trabalhar por conta de outrem, o que é que fazia?

Honestamente, nem sequer penso nisso. Se amanhã tivesse de parar de fazer aquilo que faço, tornava-me pastora. Prefiro trabalhar com ovelhas e cabras [risos].

A sua agência nasceu no Twitter, na sua conta pessoal, em que adotou o nome de “Blackiavel”. Atualmente, já tem mais de 17 mil seguidores. Acredita que as redes sociais podem ser hoje um espaço de diálogo e apoio às mulheres que são vítimas de assédio?

Nunca falo em diálogo, porque acho que não devemos jamais dialogar com o opressor. Nós submetemo-lo, pressionamo-lo, e só depois conversamos. E quero com isto dizer que o equilíbrio de poder é o passo número um. Vem antes do diálogo, porque vai colocá-lo à mesma altura que eu. Ele está cá em cima, eu estou cá em baixo. Então tenho de me colocar ao mesmo nível que ele. É por isso que não falo em diálogo. Falo, grito e aqueles que me querem ouvir, que me ouçam.

Hoje em dia, no feminismo, esquecemos que as mulheres brancas são cúmplices de racismo.  

Um movimento como o #Metoo, que nasceu num contexto específico ligado ao abuso sexual no mundo do entretenimento, ajudou a dar mais voz às mulheres?

Mesmo no #Metoo há uma dinâmica racial que foi esquecida. O #Metoo foi criado por uma mulher negra, Tarana Burke, e atualmente ela foi completamente apagada. Porque na verdade são as mulheres brancas, por exemplo, a Rose McGowan ou a Alyssa Milano, que hoje têm documentários no Netflix por causa do #Metoo. Mas quer dizer, se o movimento foi criado por uma mulher negra, por que é que o documentário não é sobre essa mulher? Por que é que não lhe atribuíram os louros do impacto do seu trabalho? Hoje em dia, no feminismo, esquecemos que as mulheres brancas são cúmplices de racismo. Não são só os homens brancos que são racistas, as mulheres brancas também o são. Também esquecemos que não há muito tempo, enquanto as mulheres em França queimavam soutiens e militavam pelo direito ao aborto, do outro lado havia mulheres negras da ilha da Reunião que eram esterilizadas. Eu não quero falar sobre feminismo. Quero falar sobre o feminismo colonial e o feminismo africano. Porque o feminismo mainstream não me inclui nas suas lutas.

Tem alguma heroína ou alguma pessoa que admire?

As pessoas que acompanho.

Tem ideia de quantas já ajudou?

Não sei. Mais de 50. Mas espero continuar durante muito tempo, enquanto o mundo não mudar.

E se o mundo mudar?

Vou diretamente para o desemprego, mas ficaria muito feliz.