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Entrevista : "O Luxemburgo tem um lado novo-rico"
O escritor e filósofo Claude Schmit assina um romance em que o leit-motiv é a identidade nacional

Entrevista : "O Luxemburgo tem um lado novo-rico"

Foto: Lex Kleren
O escritor e filósofo Claude Schmit assina um romance em que o leit-motiv é a identidade nacional
Luxemburgo 8 min. 22.06.2016

Entrevista : "O Luxemburgo tem um lado novo-rico"

Em "Reynaert no País das Maravilhas", o filósofo luxemburguês Claude Schmit imagina um Luxemburgo a braços com a chegada em massa de refugiados. Um evento que precipita a luta entre "universalistas" e "nacionalistas", que temem perder a identidade. Em véspera de festa nacional, o filósofo e romancista reflecte sobre o que significa ser luxemburguês.

Em "Reynaert no País das Maravilhas", o filósofo luxemburguês Claude Schmit imagina um Luxemburgo a braços com a chegada em massa de refugiados. Um evento que precipita a luta entre "universalistas" e "nacionalistas", que temem perder a identidade. Em véspera de festa nacional, o filósofo e romancista reflecte sobre o que significa ser luxemburguês.

CONTACTO – Como é que surgiu a ideia deste livro?

Claude Schmit – Eu quis fazer um romance sobre o Luxemburgo, sobre o meu país. Tal como muitos luxemburgueses da minha geração, fiz os meus estudos em Heidelberg e em França, nos anos 60, e desprezávamos um pouco o Luxemburgo, sentíamos que era um país muito provinciano e tacanho. Quando comecei a escrever, dei-me conta de que precisava de me documentar.

Teve de fazer pesquisa sobre o seu próprio país?

Sim. Por exemplo, eu nunca tinha lido o “Reenert”, a grande epopeia nacional de Michel Rodange, tal como a maior parte dos luxemburgueses.

Reynaert, o protagonista, está dividido entre os nacionalistas e os universalistas, preconizados pela personagem do irmão bastardo do Grão-Duque, que defende o "abastardamento", o fim de todos os privilégios ligados à origem.

Sim, é o fim de todas as heranças – no sentido não só patrimonial e financeiro do termo, mas também cultural e religioso, filosófico e espiritual. O abastardamento é a hibridação das identidades. Vamos acabar por ser todos personagens de patchwork, mil-folhas, cada um com várias camadas. Como eu venho do teatro e da filosofia, pus em cena, de forma exacerbada, a posição patriótica e a posição cosmopolita e universalista. A ideia era permitir a cada lado expor a sua posição. Em Reynaert, estes dois lados convivem, e há o medo de nos tornarmos numa espécie em via de extinção – mesmo em relação à língua, vamos nessa direcção.

Mas o número de falantes de Luxemburguês não aumentou graças aos estrangeiros?

Sim, é o que se diz, mas eu já conheço muito menos a minha língua do que a minha mãe, porque a língua vai ficando mais pobre. A maior parte dos luxemburgueses falam várias línguas, e por isso há poucos países tão cosmopolitas como nós, mas isso não impede que haja também uma certa nostalgia.

A identidade é discutida com o português Fernando, que é determinante na história. Como é que surgiu essa ideia?

Nessa fase do livro, fui a Lisboa com a minha mulher. Li Pessoa, fui à casa de Saramago, e ao ler o Livro do Desassossego apercebi-me dos paralelismos entre os dois países. E é Fernando que diz a Reynaert: "Os luxemburgueses não gostam de si próprios". A identidade é um assunto metafísico. Podemos reflectir sobre estas questões, mas depois chegamos ao limite, que é o limite do pensamento. E depois há as tripas e o coração, a emoção.

E em que é que se vê esse sentimento nacional?

Eu estou num grupo coral, e quando cantamos a canção "Wéi meng Mamm nach huet gesponnen" ("Quando a minha mãe ainda fiava a lã"), eu tremo, é uma coisa física. Os estrangeiros não se dão conta que nós estamos sentados entre várias cadeiras, entre várias línguas, mas que a emoção com a nossa própria língua é uma coisa física.

Mas não é isso que acontece com qualquer língua materna?

Sim. Mas com Fernando, Reynaert apercebe-se que Portugal é um país com uma grande cultura, uma grande história, com uma literatura importante – eu próprio me dei conta disso, quando estive em Portugal –, mas no Luxemburgo não há grande coisa. Mesmo na gastronomia, é Fernando quem cozinha para os dois, não só porque Reynaert é um intelectual e não tem grande interesse pela cozinha, mas também porque se apercebe da pobreza culinária do Luxemburgo.

Essa pobreza é evocada no livro: França tem Versalhes, mas o que tem o Luxemburgo?

Exacto. Como eu digo à minha mulher, que é francesa: vocês têm Versalhes, nós temos a cascata de "Schiessentümpel", em Mullerthal [risos]. E no entanto os estrangeiros afluem em massa, porque se vive bem no Luxemburgo e os luxemburgueses são acolhedores.

Os dois países têm coisas em comum, como a baixa auto-estima, mas um português não se questiona sobre o que é ser português.

Sim, é verdade. Vocês podem emigrar para o Brasil, França ou Luxemburgo e continuam a sentir-se como uma comunidade. Os luxemburgueses, mesmo vivendo no seu próprio país, de certa forma não se sentem em casa. Há muitos luxemburgueses de cepa que me dizem: "Eu não vou à festa nacional". Eu próprio não vou na quarta-feira à noite à capital porque me dou conta que a cidade já não nos pertence, prefiro ir passear para o campo. E há muitas pessoas que se sentem assim.

Os luxemburgueses sentem que a festa nacional não lhes pertence?

Bom, isso sou eu. Talvez outros luxemburgueses não sintam as coisas assim.

Foto: Lex Kleren

A identidade luxemburguesa parece muito elusiva. Em que é que consiste, afinal? É na língua?

A língua é um reservatório de identidade, mas para nós, com 350 mil falantes, não pode ser uma âncora ou uma bóia de salvação, como no caso das grandes línguas. É verdade que há imensos estrangeiros que frequentam os cursos de luxemburguês. Mas há aqui um paradoxo: eu próprio não sei escrever em luxemburguês...

É por isso que escreve em francês?

Sim, mas o problema vai mais longe. Veja por exemplo a palavra “Heemecht” [pátria, em luxemburguês]. Um amigo que é professor de língua e cultura luxemburguesa disse-me que se escreve com dois “ee”, de acordo com a nova ortografia, mas na apresentação do meu livro havia pessoas que diziam que se escreve com trema. Não saber como se escreve esta palavra é simbólico, diz tudo. E o problema não é apenas não saber escrever: eu estudei chinês durante cinco anos, mas não estou disposto a aprender a ortografia luxemburguesa.

Porquê?

Acho que não vale a pena. E ao mesmo tempo vibro quando ouço canções em luxemburguês. É contraditório, sabe...

Mas esse ressentimento em relação aos estrangeiros não é uma reacção passiva? Fala sempre de "ser", mas não de "agir", de um desígnio colectivo.

A palavra ressentimento é muito forte, talvez mal-estar. Mas este mal-estar está misturado com uma grande satisfação, assumida e justificada, pelo facto de gerirmos bem a chegada dos refugiados e por nos esforçarmos por integrar crianças que falam várias línguas nas nossas escolas. Mas há a impressão de que um dia chegaremos ao nosso limite. E aqui está o drama do Luxemburgo: acho que não temos estofo suficiente para integrar tudo isto. A questão que se coloca é saber se acabaremos por ser um Estado de cidadãos, onde cada um se limita a respeitar as leis. Mas em que poderemos fundar a coesão, um fervor comum?

Não se pode fundar num Estado de cidadãos com direitos iguais?

Sim, mas isso é muito abstracto, não me parece que chegue. Em todos os países com uma forte imigração, estas questões colocam-se – veja o que se passa em Inglaterra.

No livro, os luxemburgueses são criticados em português: "Camponês e novo-rico". Acha que os portugueses têm um olhar negativo em relação ao Luxemburgo?

Não, de todo. Mas é verdade que temos um lado novo-rico. O Luxemburgo era um país de camponeses e operários, havia pouca burguesia, e é por isso que temos tão pouca literatura e cultura. E há luxemburgueses que me desagradam: tresandam a dinheiro, mas não têm mais nada. Todos estes jovens luxemburgueses que não concluem os estudos, que não têm qualificações e querem ainda assim um emprego fácil e bem pago...

Por terem acesso à Função Pública?

Claro. É uma das armadilhas dos privilegiados e dos novos-ricos.

É uma gaiola dourada?

É uma gaiola dourada, mas não é só para os luxemburgueses. Quando parti a perna, uma enfermeira portuguesa disse-me que os pais portugueses também se queixavam que os filhos querem ganhar rapidamente dinheiro sem estudarem. E um ladrilhador português disse-me que as pessoas vão a Fátima para mostrar os seus grandes carros. Se calhar também já há esta mentalidade entre os imigrantes.

Paula Telo Alves

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"Reynaert au pays des merveilles", de Claude Schmit

Publicado no final de 2015, o quarto romance de Claude Schmit aborda um tema polémico: a reacção do Luxemburgo à chegada em massa de refugiados ao país.

No livro, a questão divide o país em dois: de um lado, os 'patriotas', que se opõem à chegada de refugiados, do outro os 'universalistas beatos', que querem acabar por decreto com a importância das origens. O protagonista do romance, Reynaert, é uma espécie de alter-ego de "Reenert" (raposa, em luxemburguês), de Michel Rodange, um clássico da literatura luxemburguesa. 

O livro foi publicado pelas edições Phi

A história abre com um taxista português que conduz Reynaert, incontinente e com problemas de impotência, a um sanatório de luxo, mas o livro está cheio de referências aos portugueses e à cultura portuguesa, de Fernando Pessoa a José Saramago, passando pelo arroz de tamboril e o cozido à portuguesa. João, filho da empregada portuguesa que trabalha na luxuosa casa de repouso, "fala a língua de Bartolomeu Dias, o homem que dobrou o Cabo da Boa Esperança, a de Cabral, que tomou posse do Brasil, de Vasco da Gama e de Magalhães", mas "aqui [no Luxemburgo], passada a porta da escola, esta bela língua dos conquistadores é banida", reflecte o narrador.

No livro, o português também é usado para insultar os luxemburgueses em misteriosas inscrições – "camponês e novo-rico!". Nesta "Babel-sur-Alzette" em desagregação, é com Fernando, um português com o nome de Pessoa, que Reynaert acaba por se identificar. Os dois comparam a história dos dois países (a resistência sob a ditadura de Salazar e na ocupação nazi do Grão-Ducado), trocam mitologias, e lamentam a decadência da cultura nacional ("Cristiano Ronaldo é mais popular que Camões", diz Fernando). No processo, acabam por ficar amigos.


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