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Entrevista: “O Luxemburgo exporta os seus problemas na educação”
Luxemburgo 9 min. 04.10.2017

Entrevista: “O Luxemburgo exporta os seus problemas na educação”

O romance conta muitos episódios reais passados com alunos portugueses, de quando Béatrice Peters dava aulas no ensino primário.

Entrevista: “O Luxemburgo exporta os seus problemas na educação”

O romance conta muitos episódios reais passados com alunos portugueses, de quando Béatrice Peters dava aulas no ensino primário.
Foto: Chris Karaba
Luxemburgo 9 min. 04.10.2017

Entrevista: “O Luxemburgo exporta os seus problemas na educação”

No seu primeiro romance, Béatrice Peters imagina a revolta de um jovem português contra o sistema de ensino no Luxemburgo. “Fremde Heimat” (“Pátria Estranha”) é uma denúncia das dificuldades dos estrangeiros no ensino luxemburguês, que a antiga professora conhece bem. Para Béatrice Peters, que deu aulas no ensino primário no Luxemburgo, está na altura de mudar o sistema.

Contacto: “Fremde Heimat” conta o combate de um jovem português, Jo (abreviativo de João), para mudar o sistema escolar luxemburguês. É o seu primeiro romance depois de vinte anos como professora-substituta. O que é que a fez escrever este livro?

Béatrice Peters: Houve várias coisas ao mesmo tempo. Reformei-me em dezembro de 2014 e a minha mãe morreu dois meses depois. Isto provocou um grande vazio na minha vida. Houve recordações da minha infância que regressaram, de quando cheguei ao Luxemburgo, com quatro anos. A minha mãe era belga. Eu era a única estrangeira numa turma com 19 crianças, e recordei o sentimento de solidão que senti na altura.

E como é que passou à escrita?

Há dois anos, conheci uma criança síria. Pediram-me para o ajudar a fazer os trabalhos de casa. Identifiquei-me muito com este menino, que está sozinho mas tem de se integrar para ter sucesso escolar. Foi assim que tive a ideia de escrever a história de uma criança de origem estrangeira no ensino luxemburguês.

No seu caso, como é que foi a adaptação?

Vim com quatro anos estudar para Larochette, a “aldeia dos portugueses”, só que nessa altura ainda não havia portugueses. Eu nasci em 1954 e entrei na escola em 1958.  Nessa época estava sozinha numa turma com luxemburgueses e a integração era mais fácil. Eu era “a estrangeira” da turma. Agora há imensos estrangeiros e apenas dois ou três luxemburgueses – é o contrário.

E isso torna mais difícil a integração?

Sim, e os portugueses têm mais dificuldades em alemão – têm televisão portuguesa e francesa em casa… Mas foi isso que eu senti quando era pequena, porque a minha mãe era belga e falávamos francês em casa. Para mim, aprender  alemão era como tentar “beber o mar”, era incrivelmente difícil. Nunca conseguia exprimir-me como os outros, ficava sempre um bocadinho para trás. Só quando fui trabalhar para a Alemanha é que as coisas mudaram. 

O alemão é também a grande dificuldade para os portugueses.

Sim, e é nessa língua que as crianças são alfabetizadas. O problema surge sobretudo quando chegam com mais idade, com oito, dez anos, e não passam pelo ensino precoce. Aí é praticamente impossível: uma pessoa pergunta-se como alguns conseguem.

Há muitos alunos com essa idade que vão estudar para a Bélgica e acabam a fazer estudos universitários. Há um problema no sistema luxemburguês? 

Claro que sim. O Luxemburgo exporta os seus problemas: há alunos que vão para a Bélgica, para França ou para a Alemanha, e ali têm sucesso. 

A personagem principal do seu livro foge à regra, porque é um aluno de origem portuguesa que não só não tem dificuldades com o alemão, como é muito bom aluno.

Sim, mas porque tem a ajuda da professora, Katharina. Os pais não o podem ajudar nos estudos, porque não conhecem as línguas nem a engrenagem do sistema escolar. Na minha carreira como professora, vi algumas crianças que conseguiram sozinhas, mas é excecional.

O livro, publicado em alemão nas edições Saint-Paul, marca a entrada na ficção luxemburguesa de um tema caro aos portugueses: as dificuldades no sistema de ensino do Luxemburgo.
O livro, publicado em alemão nas edições Saint-Paul, marca a entrada na ficção luxemburguesa de um tema caro aos portugueses: as dificuldades no sistema de ensino do Luxemburgo.
Foto: Chris Karaba

Apesar de ter boas notas, a personagem de Jo bate-se por mudar o sistema e assume a liderança de um partido chamado “Liberdade, Igualdade e Solidariedade”, para promover a igualdade de oportunidades na educação.

É um partido composto por luxemburgueses de origem estrangeira, formado por todos aqueles que tiveram dificuldades para chegar onde chegaram – e há tantos… É uma história que pode passar-se no futuro, quando o número de estrangeiros no Luxemburgo for superior aos luxemburgueses. Aí, as coisas poderão derrapar.

E o que propõe este partido fictício?

Propõe a criação de escolas internacionais, inspiradas no modelo da escola europeia. A maior parte dos portugueses não a podem pagar e a maioria dos luxemburgueses também não. São escolas que permitem escolher as línguas de ensino, incluindo o português, com alfabetização em francês ou alemão. 

No fundo, é o modelo das escolas internacionais que foram criadas em Differdange e em Esch, e que tiveram muito sucesso.

Eu tinha acabado de escrever o meu livro quando a escola internacional de Differdange abriu. Há quem diga que vai dividir as crianças, e eu, pelo contrário, acho que as vai unir. Eles já estão divididos: uns vão à escola europeia, outros ao Liceu Vauban, outros à escola internacional, não se misturam uns com os outros. Por um lado, entendo os luxemburgueses que temem ficar sem identidade. O credo até agora foi sempre a adaptação ao país em que se vive. Mas um dia vai haver mais estrangeiros que luxemburgueses, e não estamos no Qatar, onde os autóctones têm tudo e os estrangeiros trabalham e não têm nada.

O seu livro acaba com confrontos na avenida da Liberdade, na capital, entre o partido dos estrangeiros e os professores.

São os sindicatos [dos professores] que saem à rua contra este partido, porque se sentem em perigo. Nas escolas internacionais, quem vai ensinar os alunos? Penso que o Ministério da Educação sabe bem qual é o caminho, mas há sindicatos muitos fortes, e têm medo.

São a ala conservadora?

Sim. 

Acha que era preciso uma revolução no ensino – talvez não como no seu livro, mas uma revolução copernicana, uma mudança de perspetiva?

Sim. Os professores aprenderam a ensinar num determinado sistema, para uma determinada população, mas falta um olhar exterior. É um círculo muito fechado.

E não há sensibilidade dos professores para o facto de haver tantos alunos estrangeiros? A imigração não começou agora…

Escondem-se por detrás dos programas, é mais fácil. É um programa que funciona para uma determinada categoria de alunos, mas há tanto insucesso escolar que é preciso questionar-se sobre as razões para isso. Creio que o problema começa na alfabetização [em alemão]. O sistema é muito rígido.

Foi professora-substituta no ensino primário durante vinte anos, depois de ter trabalhado na RTL e em empresas privadas. Lembra-se de episódios com portugueses que a tenham marcado?   

Sim. Uma vez fui enviada para Larochette, e havia uma turma com 13 alunos, a maioria portugueses. Era na véspera da festa nacional e pensei que podíamos ouvir o hino, que foi escrito por Jean-Antoine Zinnen, que viveu em Larochette. Eles nunca tinham ouvido falar de Zinnen, apesar de estarem quase a ir para o liceu (tinham 12 anos), e ninguém tinha ouvido o hino nacional. Houve um aluno que me disse: “Ouça, somos 11 portugueses, não precisamos de ouvir esse hino”. Isso chocou-me. Eu disse-lhes que se ouvíssemos o hino luxemburguês nesse dia, na semana seguinte podíamos ouvir o português. Era na altura de um campeonato de futebol, um mundial, ou assim, e estavam todos com camisolas da seleção. Foi aí que comecei a refletir sobre o facto de os portugueses estarem muito unidos: revoltam-se contra tudo o que não é português. Ficam muito entre si, jogam futebol juntos… Na escola, estão todos misturados, e os professores zelam para que seja assim. Dizem-lhes para não falarem português entre eles, nas aulas, mas no recreio não se pode evitar. São comunidades que se tornam grandes e que se unem. Há afinidades, é natural: “qui se ressemble, s’assemble” (“quem se assemelha, aproxima-se”). Um bósnio sozinho numa turma integra-se mais facilmente que seis alunos portugueses, mas isso é normal.

E lembra-se de casos de alunos prejudicados?

Lembro-me de um caso de uma aluna que era brilhante, escrevia composições extraordinárias em alemão. Mas como tinha um nome português, disseram que não era feita para o clássico. Estavam muito cépticos e a professora teve de se bater para que ela pudesse ir para o clássico. Orientam-se mais portugueses para o técnico que para o clássico – isto também é uma evidência.

Foto: Chris Karaba

Há um estudo da Universidade do Luxemburgo, publicado em 2016, que indica que os professores cometem mais erros com alunos portugueses do que com luxemburgueses, na altura de decidir se vão para o técnico ou o clássico.

Então, aquilo que eu digo não é assim tão fictício… Na dúvida, enviam-se os portugueses para o técnico, quando poderiam ir para o clássico. Há preconceitos, como se os portugueses estivessem predestinados para trabalhar na construção. Sabe porque é que eu chamei Jo à personagem principal? Ele chama-se João, mas Jo parece mais luxemburguês. É como o ministro da Justiça [Félix Braz], que também é de origem portuguesa, ou o presidente da Câmara dos Deputados, Mars Di Bartolomeo, de origem italiana. Não é inverosímil que estas pessoas se juntem para lutar para que os seus filhos tenham uma melhor educação. 

Acha que as respostas dos políticos não estão à altura dos problemas?

Acho que não ousam tomar as medidas necessárias. Os sindicatos são muito poderosos e os professores têm muita dificuldade em aceitar as reformas. A sociedade mudou, mas nada muda. Para mim seria mais saudável se os luxemburgueses tomassem a iniciativa de fazer mudanças, em vez de deixar que venham de um eventual movimento contestatário de estrangeiros. No livro, nem a professora, Katharina, nem Lisi, a namorada de Jo, percebem as suas reivindicações. Elas acham que a reforma da educação vai prejudicar os luxemburgueses.  

Porque é que escolheu um português para personagem principal?

Porque é a maior comunidade, mas também me identifiquei com a minha situação, quando era criança. Dei voz a este rapaz porque me pus na sua pele. Não tem irmãos, não tem ajuda dos pais e trabalha muito para chegar onde chega, com a ajuda de uma professora que conhece bem o sistema. Dei-lhe tudo o que era preciso para ele progredir. Quis fazer dele alguém que não tem medo de nada, porque eu tenho medo de tudo [risos]. Ele não tem medo de nada: insultam-no e ele não quer saber. Isso para mim é incrivelmente nobre, e eu quis criar um herói.

Um herói revolucionário.

Sim, mas por uma boa causa. Ele defende a causa dos seus compatriotas, mas também dos luxemburgueses: diz que há lugar para todos na escola internacional.

O papel deste livro é provocar a mudança?

Não sei. É ficção. Todos os pais querem que os filhos tenham sucesso na escola. Surpreende-me que as comunidades estrangeiras não se mobilizem em conjunto. Cada uma defende os seus interesses particulares, seja através da escola francesa, internacional, europeia... Ora há pessoas que não têm meios financeiros para pôr os filhos nessas escolas e eles não conseguem ter sucesso no ensino luxemburguês.

Marie-Laure Rolland e Paula Telo Alves