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"Metade dos alunos deverá estar vacinada em setembro"
Luxemburgo 15 min. 27.07.2021
Entrevista ministro da Educação

"Metade dos alunos deverá estar vacinada em setembro"

Entrevista ministro da Educação

"Metade dos alunos deverá estar vacinada em setembro"

Foto: Gerry Huberty
Luxemburgo 15 min. 27.07.2021
Entrevista ministro da Educação

"Metade dos alunos deverá estar vacinada em setembro"

Madalena QUEIRÓS
Madalena QUEIRÓS
"Estaremos prontos no caso de ser necessário reagir a uma quarta vaga, ou a uma nova variante", garante Claude Meisch, ministro da Educação em entrevista ao Contacto.

Que medidas sanitárias irão ser implementadas nas escolas no arranque do próximo ano letivo? O uso de máscara vai mesmo deixar de ser obrigatório ?

Espero que o uso de máscara deixe de ser obrigatório para todos os alunos dos ensinos básico e secundário. Certamente haverá algumas medidas sanitárias, mas espero que o regresso à escola se faça com a maior normalidade possível.

Ainda muito cedo para o decidir definitivamente, porque faltam quase dois meses para o início do ano letivo. E nesse período tudo pode mudar. A situação sanitária evoluiu muito nos últimos meses e não sabemos em que situação estaremos no início do mês de setembro para a rentrée. Por isso não vamos suspender o dispositivo sanitário. No final do mês de agosto e início de setembro decidiremos, em conjunto com as autoridades sanitárias do Ministério da Saúde. Mas o que já e muito claro e que haverá menos medidas, até porque terminámos este ano letivo com uma grande normalidade, com as aulas a decorrer nas escolas, não tínhamos aprendizagem em alternância, como aconteceu num certo período de tempo. Havia ainda a obrigação do uso de máscara, mas espero que não haja mais necessidade de a usar. Tínhamos testes regulares. Por isso deveremos começar o ano lectivo com estes testes e veremos depois se devemos continuar a fazê-los.

Durante esta pandemia tivemos sempre que avaliar, ter em conta a situação e ser muito flexíveis para assegurar que uma grande parte deste ano escolar tenha sido realizada, com as restrições reduzidas ao mínimo. Mas tínhamos que garantir que o vírus estava sob controle nos estabelecimentos de ensino e nas estruturas de acolhimento das crianças. Por outro lado, quisemos assegurar que as escolas se mantinham abertas e garantir assim uma boa educação aos alunos. E foi esse o nosso critério de avaliação e decisão. Por isso tivemos que nos reorientar diversas vezes durante o ano passado. Não podemos excluir que depois da rentrée não seja necessária novamente reagir numa outra direção.

Uma quarta vaga, no arranque do ano letivo, é uma hipótese que está a ser considerada?

Claro, por isso temos que ser flexíveis. Vamos retrabalhar o nosso modelo nos diferentes níveis. Anunciámos o que deve ocorrer nas diferentes situações se surgirem casos: se for ao nível de uma turma, a turma poderá ser colocada não em quarentena; se acontecer ao nível de toda a escola e também ao nível nacional as medidas que deverão ser tomadas já estão definidas. Por exemplo, esperemos poder regressar à escola, sem máscara no outono. Mas é evidente, que se o vírus surgir numa escola, ou numa turma, isso implicará o uso da máscara, durante algum tempo. Existe um programa com diversos níveis que nos indica como devemos reagir. Mesmo no caso de uma quarta vaga.

Acha que a próxima rentrée escolar será normal?

Sim. Espero que seja tão normal quanto possível. Mas estaremos prontos no caso de ser necessário reagir a uma quarta vaga, ou a uma nova variante, por exemplo, que é uma das hipóteses em que trabalhámos. Sabemos, hoje, que pelo menos metade dos alunos do liceu estará vacinado com as duas doses, em setembro. Porque já receberam o convite para a vacinação e metade inscreveram-se. O que mudará muito a situação nos liceus.

A vacinação ainda não foi autorizada para os alunos da escola fundamental. Nesse caso teremos uma outra situação, em que poderão ser necessárias outras medidas neste nível de ensino. Mais ainda é muito cedo para o definir. Evidentemente que comunicaremos o modelo sanitário para a rentrée, antes dela se realizar no início de setembro. Temos que aguardar a evolução da situação durante os meses de verão e o impacto do regresso de férias, por exemplo. É necessario avaliar se haverá novas variantes que se podem propagar mais rapidamento. É preciso avaliar a participação dos jovens na vacinação. E tudo isto nos dará as informações para reagir. Mas estou muito otimista que será uma rentrée numa grande normalidade.

Que novidades podemos esperar para o próximo ano? Há uma nova área de competências digitais…

Antes da crise sanitária uma das nossas prioridades era modernizar o conteúdo e as matérias escolares, sobretudo focando-se no digital. Por isso criamos o cooding ao nível da escola fundamental, concentrando no 4° ciclo fundamental. Mas vamos generalizar ao 2° ciclo e vamos introduzir uma nova opção no liceu que se chamará “digital sciences”. Numa primeira fase, será um projeto piloto que avançará em 18 liceus, o que já é uma grande participação. Mas vamo generalizar a introdução deste novo ramo no ano lectivo seguinte, em 2022. Será uma abordagem, verdadeiramente transversal. Haverá conteúdos de ciências informáticas e numéricas, mas por outro lado haverá todos os temas a discutir, sobretudo com os jovens, relacionadas com a utlização dos novos media. O que é que todas estas tecnologias digitais farão connosco? Que implicações terão na sociedade? Como devemos reagir? Quais são as oportunidades e os riscos? Tudo isto deve ser discutido com os jovens e fará parte desta nova área que será introduzida em 18 liceus no próximo ano, em setembro de 2021 e no ano seguinte em todos os liceus.

Atualmente todos os alunos já são nativos digitais, não pensa que o modelo de ensino expositivo que é utilizado está completamente desadaptado a este novo público?

Antes demais diria que é necessário diferenciar. Há matérias em que se deve continuar a a ensinar em aulas expositivas, com um professor e com alunos numa sala de aula e que tomam atenção aquilo que o professor lhes ensina. Mas acredito, evidentemente, que podemos inovar sobretudo com a presença de novas tecnologias. Tivemos também a oportunidade de fazer experiências durante a crise sanitária. Acredito que tudo o que se relaciona com o “blended learning”, métodos em que o alunos tem a oportunidade de participar numa aula digital à distância, em que aprenderá a matéria, em vez de a aprender na escola com a presença do professor. Regressando depois com esta formação à escola, à sala de aulas, onde podem discutir os temas com o seu professor. Ou fazendo um projeto em grupo com os seus colegas, para aprofundar o tema. Um modelo em que o professor desempenhará o papel de um “coach” e não apenas ensinar perante uma turma. Um sistema que permitirá uma adaptação ao nível de evolução e de desenvolvimento dos alunos, em termos individuais. Tudo isto permitrá verdadeiramente inovar e trabalhar de uma outra forma. Penso que no futuro a escola ligará estes dois mundos.

Quando é que pensa que este modelo de “blended learning” poderá ser implementado?

Já há escolas que durante a crise pandémica, fizeram algumas experiências. Lançamos também um grande processo de diálogo e consulta para retirar as boas lições da crise sanitária. E temos que colocar a questão: introduzimos todas estas novas tecnologias e meios de comunicação, as plataformas digitais de ensino, o que funcionou muito bem do ponto de vista técnico. Agora é preciso analisar e ver, que tipo ensino, que tipo de projeto para determinado aluno, determinada turma, para que nível etário. Isso terá que fazer parte da escola de amanhã. Mas também é necessário discutir os limites das novas tecnologias, porque sabemos muito bem que a presença de um professor, nunca poderá ser substituída. Porque esse factor garante uma qualidade muito maior, do que apenas quando seguimos exclusivamente um curso a distância. Também a presença dos alunos, a colaboração entre eles, é muito importante num grupo de uma turma. O que não é possível quando cada um está na sua casa, em frente ao seu computador. Há vantagens e novas possibilidades e a oportunidade de inovar, mas também há riscos e limites. Acredito que não se deve ir rápido demais. É preciso tempo para analisar e discutir. Por isso lancei um processo de diálogo com todos os parceiros da escola: pais, professores, estudantes, dirigentes das escolas, para ver se encontramos um consenso, um compromisso entre os diferentes parceiros. É preciso encontrar uma via comum, porque acredito que estas inovações tem que ter o apoio de toda a comunidade escolar, para que sejam bem implementadas e para que possam atingir os objetivos.


Nova escola internacional pública na Cidade do Luxemburgo abre em 2022
Esta será a sexta escola europeia pública lançada pelo Ministro da Educação, Claude Meisch.

Para si qual é o país que tem um sistema educativo modelo, em que o Luxemburgo se possa inspirar? A Finlândia, por exemplo?

Acredito que há muito poucos países modelo, porque a complexidade e a situação que temos no sistema educativo luxemburguês é completamente diferente da Finlândia, por exemplo. Um país que evoluiu muito bem e que está sempre muito bem classificado em todas as análises internacionais. Mas por exemplo, eles têm muita pouca imigração e por isso não podemos copiar um modelo de um país e implementá-lo no Luxemburgo porque a situação é completamente diferente. Acredito que teremos que nos inspirar no que funciona bem no estrangeiro, e ver o que poderemos retirar das abordagens dos modelos dos diferentes países, para verdadeiramente podemos ter um portfeuille que é adaptado às necessidades do Luxemburgo. Porque temos uma situação de enorme heterogeneidade nas nossas sala de aula. Na população escolar existem muitas diferenças: os alunos têm línguas maternas diferentes que são muito importantes no Luxemburgo. Penso que serão necessários diferentes modelos e com vantagem diferenciar a paisagem escolar e a metodologia com que trabalhamos. Porque uma determinada abordagem pode funcionar muito bem com um determinado aluno e pode não funcionar com outro.

Pensa que o ano 2020/21 foi um ano perdido para as escolas?

Acho que não. Em primeiro lugar, porque fizemos análises com base nas provas standardizadas, um trabalho desenvolvido pela Universidade do Luxemburgo que gere este sistema, que são feitas nos momentos-chave da carreira escolar de cada aluno. Todos os resultados podem ser analisados. Comparámos os resultados de 2020, que foram feitos em novembro, com as provas dos anos precedentes e não havia grandes diferenças nos resultados. Sabemos que as escolas estiveram fechadas de 16 de março a junho. Período em que tivemos o ensino à distância e uma aprendizagem em alternância, com quarentenas que afastaram os alunos e os professores. A escola foi fortemente impactada pela crise, mas estávamos bem preparados, sobretudo com os equipamentos digitais que foram colocados nas escolas, antes da crise. Beneficiámos do empenho dos professores, e dos pais o que nos permitiu equilibrar todas as consequências negativas deste confinamento. 

Há, de facto, pontos que é necessário trabalhar por exemplo no apoio dos professores à compreensão oral do alemão. Porque alguns alunos estiveram quase dois meses em casa, sem falar o alemão e sem o ouvir, o que levou à diminuição de algumas competências. Por isso convidei todos os professores a detetar esses alunos nas turmas e a trabalhar essa competência da compreensão oral do alemão. Por isso implementamos nas férias escolares do ano passado um sistema de recueração “summer school” que vamos repetir este ano, para garantir a oportunidade a cada aluno de poder recuperar a matéria que perdeu. Não posso estar de acordo com a expressão “ano perdido”, porque creio que a experiências que os alunos desenvolveram nesse ano, foram importantes. Foi penoso, regressar à escola, estar em quarentena, estar em aprendizagem à distância. Isso exigiu uma flexibilidade aos alunos que demonstraram a capacidade de utilizar os meios tecnológicos e digitais para assegurar um certo funcionamento da escola, isso permitiu-lhes desenvolver outras competências que não estão escritas no plano de estudos, mas que podem ser muito úteis no futuro.

Apesar do luxemburgo ser o país com o maior investimento por aluno dos países da OCDE, continua a ter resultados no PISA, abaixo da média desses países e chegou mesmo a piorar os resultados. Como se pode resolver este problema?

Isso não descreve a complexidade do problema. Seria muito fácil se colocar mais dinheiro no sistema implicasse ter melhores resultados. Não é assim que funciona. O que não muda o facto do investimento na educação no Luxemburgo represente uma prioridade política de fazer tudo para garantir as oportunidades aos jovens no futuro. Por outro lado, temos um nível de vida mais elevado, em que os salários dos professores são mais elevados, e um custo de vida elevado o que tem que ser tido em conta. Mas acredito que não é a questão dos meios que investimos nos nossos alunos e professores e nas escolas. O resultado é explicado pela complexidade que encontramos no Luxemburgo. 

Como lhe disse a Finlândia tem uma situação muito diferente com apenas 2% de imigração. No Luxemburgo temos cerca de dois terços dos alunos que entram no nosso sistema educativo, com três ou quatro anos, e não falam luxemburguês em casa. Por isso para um terço o nosso sistema tradicional está bem adaptado, para os restantes dois terços não . Temos uma situação multilínguística que é mais complexa que noutros países. Porque existe um multilinguismo entre a população, e quando consideramos a língua materna, por vezes temos um aluno que entra na escola, a dominar três ou quatro línguas diferentes, o que decorre da sua biografia. Mas muitas vezes não são as línguas que são faladas, escritas e utilizadas na escola.

No segundo pilar deste multilinguísmo é o da escola em que é necessário aprender alemão, francês e luxemburguês. E muitas vezes o inglês. Ou seja significa aprender ainda mais línguas diferentes o que revela uma complexidade que não se encontra noutros países.

Acredito que as comparações internacionais são muito importantes para nos posicionarmos e para ver se não há grandes diferenças na evolução de uma série para a seguinte. Mas acredito também que estas comparações têm limites e que é preciso saber o que comparamos. No Luxemburgo por exemplo, há poucos alunos que sejam alfabetizados na sua língua materna. Ou falam luxemburguês em casa e são alfabetizados em alemão, ou falam outra língua e são alfabetizados em alemão. A maioria das vezes o alemão não é a sua língua materna. Isto, em termos internacionais, para um teste PISA, pode ser considerada uma desvantagem. 

O PISA resulta de testes feitos quando os alunos tem 15 anos. Sabemos muito bem que os nosso alunos acumularam algum atraso escolar, muitas vezes devido à situação da língua, porque começam a sua escolaridade numa língua diferente, da que é falada em casa, o que significa que não podem ter o apoio em casa, que é a regra nas famílias de outros países. Eles aprendem por um lado, duas línguas, e não apenas uma. As provas são feitas apenas numa língua, assim a segunda língua que os nossos alunos aprenderam não é considerada. 

O que significa que os nossos alunos têm competências que não são tidas em conta pelo estudo PISA. Tudo isto são críticas ao PISA que já fizemos. Por outro lado, propusemos rever a periodicidade das provas, porque penso que em três anos não conseguimos mudar um sistema educativo. O que significa que as informações do estudo publicadas a cada três anos não são verdadeiramento indicadores fiáveis em que possamos basear a decisão política. E acabamos por decidir, há alguns anos, participar a cada duas edições do estudo PISA, para ter de um lado, a comparação com os outros países e nos podermos concentrar na situação no nosso país. Complementarmente, ao estudo PISA, temos um sistema de “monitoring” escolar, baseada em provas standardizadas de que já falei, que não são feitas apenas aos 15 anos, mas que são feitas no início do 2° ciclo, do 3° ciclo e do liceu e no fim do 3° ano no liceu. O que nos permite ter informações que podem guiar-nos na tomada de decisões para desenvolver o nosso sistema educativo.

Pensam abandonar o PISA, porque não está adaptado a avaliar o sistema educativo luxemburguês?

Acredito que é necessária essa participação nas provas PISA para ter justamente uma comparação com outros sistemas, mas acredito que fazer o teste cada três anos é demasiado. Fazer a cada seis anos é suficiente, porque as reformas educativas levam o seu tempo. Fazer o ponto de situação a cada três anos não permite tirar boas conclusões. Porque não podemos mudar qualquer coisa em educação em três anos. Porque os estudantes que hoje façam um teste PISA em 2021, entraram na escola em 2009.

Se fizermos agora uma reforma, como fizemos ao investir no multilinguismo a partir das creches, na educação precoce e nas escolas do ensino fundamental, é necessário esperar 12 anos para que tenham efeito nos resultados do PISA. O que significa que não nos serve de grande coisa ter essa fotografia a cada três anos. Seis anos é suficiente. Mas temos outras informações como os resultados do nosso sistema de “monitoring” nacional que tem provas strandadizadas e muito mais detalhadas que nos permite ter disponíves as informações para desenvolver o nosso sistema educativo.

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